14 março, 2008

REUNIÃO DE DIRETORIA


— Bom, eu o chamei aqui porque, como se sabe, nós estamos perdendo competitividade, século a século. A concorrência tem arrebatado nossos melhores clientes. Já tivemos até que esvaziar o limbo para poder colocar todas as auréolas e asas que estão empoeirando lá, sem uso. O céu tá com uma densidade populacional menor que a do Amazonas. Isso aqui tá parecendo Brasília na sexta-feira. A continuar assim, vamos acabar incorporados pelo inferno.
— Se me permite, eu acho que o problema é que nosso método administrativo é muito arcaico, Papai. Essa história de empresa familiar não dá certo no mundo moderno. A coisa tem que ser mais profissional. A gente é muito centralizador, a firma obedece a uma hierarquia muito rígida e isso emperra nossas ações. Veja o mundo, por exemplo. Podia ter sido feito em duas horas, foi feito em seis dias e aquele empreiteiro brasileiro ainda ficou com dez por cento. Mesmo assim, olha que porcaria me saiu! Tirando o time do Barcelona, a Torre de Pisa e a mulher, nada ali presta!
— Mas a Torre de Pisa não fomos nós que fizemos.
— Logo vi! Se fôssemos nós, ela já tinha caído!
— Muito bem, espertinho, e o que é que você sugere? Abrir o capital da empresa? Ou vendê-la logo de uma vez pro Edir Macedo?
— Talvez não seja preciso tanto, a princípio, Pai. Podemos começar com pequenas medidas. Descentralização. Por exemplo, por que não transformar a Santíssima Trindade num Santíssimo Quarteto, pelo menos?
— Ah, é? E colocar quem como quarto? Pai, Filho, Espírito Santo e o Tocha Humana?
— Um gerente experiente, pai. Alguém que promova um downsizing. Pra que, meu Você, temos anjos, querubins, tronos, arcanjos, potestades e toda essa gente que fica aí encostada sem fazer nada? Além do mais, convenhamos, o que existe hoje é uma Santíssima Dupla, né? Porque o Espírito Santo mesmo, ninguém vê trabalhar. Faz tempo que venho levando essa cruz sozinho.
— Verbinho, Verbinho, você chegou aqui outro dia, não faz nem dois mil anos! As coisas sempre funcionaram da melhor maneira possível. Se não contarmos daquela vez que deixamos o ACM entrar, nunca cometemos um erro.
— As coisas mudam, Pai. E não adianta me olhar assim desse jeito. Foi o Senhor mesmo que criou a dialética!
— A hegeliana! A outra foi obra da concorrência!
— Outra coisa: marketing. Essa história de milagre tá ultrapassada. Com exceção dos neopentecostais e dos malufistas, ninguém mais crê. O que a gente tem que ter é uma campanha de marketing agressiva, com mídia eletrônica, outdoors, um bom slogan. Por exemplo: “Paraíso. Não interessa se você vem de pés juntos. Aqui você voa.” Ou então:
“Paraíso. Pelo menos aqui sua sogra não entra.” Umas fotos de mulheres usando apenas folhas de parreira também ajudariam...
— Pode ser, pode ser. Até que suas idéias não são tão ruins.
— E mais: a gente precisa relaxar o decálogo, Pai. Devemos partir para leis mais consuetudinárias, no modelo inglês, sacramentadas pelo povo, que já ensina: “não cobiçar a mulher do próximo, quando o próximo estiver próximo” e coisas do tipo. Que tal oferecer promoções? Por exemplo: no cumprimento de oito mandamentos, você é dispensado de dois. Ou ainda: cumpra os dez mandamentos e leve um pecado capital de graça.
— Muito bem, vou pensar sobre o assunto. Vamos marcar outra reunião, digamos, na próxima sexta-feira, daqui a um bilhão e novecentos milhões de anos.
— Pô, Pai, assim não dá! É por essas e outras que as coisas não andam!

6 comentários:

ingresia disse...

Marconi,
nem no inferno este negócio de empresa familiar dá certo.

Ouça isto aqui, ó.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2677281-EI6578,00.html

Jens disse...

Pô Marconi, o Vaticano disse que ser rico em demasia é um pecado capital. Estás definitivamente condenado. Ralou-se.

Anônimo disse...

Muito bom.

Ane Brasil disse...

hahahahahaha! hilário!
Tá aí uma das razões pelas quais sempre fui contra essas empresas familiares. Negócio em família sempre dá briga1 hehehe
Sorte e saúde pra todos

Dialógico disse...

Cheguei até aqui, pq li seu recado no Animot sobre certa visita que o sr. fará em Porto Alegre. Comunico que desejo fazer parte do alegre convescote, entendido? :-)
Abraço,
Claudia Cardoso.

GUGA ALAYON disse...

Se bem que esta empresa familiar está durando até demais...