12 março, 2008

ENTRELINHAS


— Ai, meu Deus! Você não é aquele escritor... o Márcio Pereira?
— Má-Mário. Mário Pereira. Eu mesmo.
— Me belisca.
— Ahn?
— Vai, aqui, no meu braço. Belisca, belisca, belisca, seu bobo...
— Que é isso, minha senhora, eu...
— Pega nos meus seios!
— O quê?!
— Meus seios, toma, agarra, morde, fica. Ui, você me dá uma coisa!
— Ca-calma. Isso aqui é um restaurante, dona, e...
— Ai, Márcio, eu nem acredito que encontrei você! Sou sua maior fã, viu? Maior. Não, sério, não tem igual a mim. Aquele seu livro, “Retorno do Chefe de Família”...
— Do Chef. O nome do livro é “O Retorno do Chef”.
— Pois então, “Retorno do Chef de Família”. Grande obra! A melhor dos últimos vinte anos, no Brasil, na minha modesta opinião. Nossa! Olha, jamais li, em toda a minha vida, crítica mais contundente ao modelo de organização de nossa sociedade escravocrata! Não, aquilo é genial!
— Minha senhora, a história de “O Retorno do Chef” se passa na Paris do século XX!
— Pois então. A contraposição da Quarta República com a tradição patriarcal brasileira, o esmiuçamento das contradições, das idéias de nossa elite colonial... Puxa! Quem poderia ter pensado nisso, senão você?
— Olha, eu agradeço o elogio e tudo, mas creio que tá havendo algum engano. O livro trata do mundo destroçado pós-Segunda Guerra, particularmente na Europa e...
— Ai, cheira!
— Que foi que a senhora disse?
— Aqui, entre meus seios, cheira, cheira!
— Uhmquemissoinhaminhora...
— Ui, você me deixa sem ar, Márcio!
— E você quase me mata asfixiado, sua louca!
— Viu? É o amor, Márcio. Eu sabia que nós fomos feitos um pro outro no minuto mesmo em que acabei de ler o seu livro. Disse pra mim: “Eu preciso conhecer esse homem!” Porque, Márcio, parece fácil, mas ninguém até hoje conseguiu captar a alma feminina como você faz ali.
— Não há uma única personagem feminina em “O Retorno do Chef”, dona!
— Você é que pensa. E as entrelinhas? São as entrelinhas, Márcio. Tudo ali é subentendido. Pensa que eu não saquei? Você faz o Chico Buarque parecer o Jece Valadão com aquele livro, Márcio. Lambe, vem, lambe minha orelha!
— Pára! Chega! A senhora...
— Maura, meu nome é Maura. Mas pra você é Má. Em nome de nossa intimidade. Comunhão de almas, Márcio, é o que nós temos. Vixe, eu ainda me lembro do arrepio que passou pela minha coluna quando descobri que o Murilo era gay. Com que sensibilidade você fez a revelação... Ah!
— Murilo, meu personagem? O Murilo não é gay! Quem disse que o Murilo é gay?
— Eu digo, Márcio, qualquer pessoa mais sensível diz. Tá ali nas entrelinhas, basta um pouco de atenção. Não é pra qualquer um, eu sei. Como, por exemplo, aquela menção de passagem ao futuro político brasileiro, à era Collor, ao relacionamento entre Zélia e Bernardo Cabral... Ironia trágica, eu acho que se chama isso. E como você domina essa técnica! Me dá tua língua, vai, me beija! Eu sou toda tua, Márcio! Toda... Mas... Onde é que você tá indo, meu bem? Volta. Sei que você não liga pra esse lance de idade, tá tudo dito no livro. E eu ainda nem falei do que pra mim é a apoteose dele: a releitura do mito de Tântalo sob um prisma neofoucaultiano... Márcio! Márcio! Márciooooo!
(saindo, furioso) Vá tomar nas entrelinhas, minha senhora!

5 comentários:

Jens disse...

Gostei, gostei. Lembrei de um escritor (não lembro o nome - preciso tomar Fosfosol) que disse que depois de publicar um livro consultava freneticamente as colunas de crítica literária... para entender o que tinha escrito.
Um abraço.

Halem Souza disse...

Foi por fâs como essa que o João Ubaldo Ribeiro desistiu de Itaparica...

Srta. Bia disse...

mas será que o murilo não dá nenhuma pinta? e um livro onde não há mulheres... em paris? estou começando a concordar com a Má...rs.

Carlos (a.k.a. Dogmático) disse...

Tá aí, não se fazem mais senhoras dignas como esta do seu texto. Hehehe.

Pô, aquela Pepsi Light me deu uma ressaca braba, preciso parar com esses troços.

Abraço!
Carlos

GUGA ALAYON disse...

absurdamente sensacional, caro.
abç
Vida de escritor deve ser foda mesmo...ahahah