19 março, 2008

MUDANÇA DE ENDEREÇO


A negociação foi pesada. Milton Ribeiro ofereceu um tíquete-alimentação. Eu disse que só ia por quatro. Ele coçou a barba e ofereceu dois. Finquei o pé e, utilizando o meu latim com sotaque da península, para mostrar que estava falando sério, disse:

— Na-na-ni-na-naum.

Aborrecido, ele propôs:

— Dois tíquetes e um passe de ônibus.

Redargüi, altivo:

— Sou agnóstico. Não acredito em passe. Três tíquetes e não falemos mais nisso.

— Dois — insistiu ele, avançando para cima de mim e atirando perdigotos como uma metralhadora da Segunda Guerra. Com o quê, nossos pequenos narizes de ascendência árabe se tocaram. Trocamos alguns golpes de esgrima com a parte mais conspícua do aparelho respiratório, inventando um esporte que poderia ter feito muito sucesso em Israel.

Touché! — festejou ele, enfiando num golpe certeiro uma de suas narinas no meu olho.

Mesmo ferido, não me intimidei e, superior, afirmei, não sem algum sarcasmo:

— Ha! Nunca. Três, três tíquetes. Você pensa que eu tô morrendo de fome, Ribas?

Mas nesse momento minha barriga, em motim, roncou, denunciando minha condição de famélico. Milton Ribeiro riu, com o olhar blasé de quem faz três refeições por dia e sugeriu, condescendente:

— Dois tíquetes e eu passo a postar mais nus frontais lá no meu blog.

— Com peitões? — perguntei.

— Com peitões — acedeu ele.

Sabendo-me vencido, aceitei. Ele então me estendeu o contrato e uma almofada de carimbo, para que apusesse meu polegar à guisa de assinatura.

E foi assim que aconteceu. Este blog, a partir de hoje, faz parte de O Pensador Selvagem e deve ser acessado no endereço abaixo:

http://marconileal.opensadorselvagem.org/

Vão lá conferir a casa nova e digam o que acharam. Aos viciados em drogas, peço: assinem o RSS ou adicionem a página aos favoritos.
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Faço esse convite com lágrimas nos olhos. Afinal de contas, a narigada foi potente e continua doendo até agora.

18 março, 2008

MOVIMENTO MARXISTA PELA LIBERTAÇÃO DAS MASSAS (Parte 2)


LÍDER: Sabia, olha aí como você não passa de um pequeno-burguês, fã de filmes de Bergman. Você deve ser daquele tipo de gente tão insensível que come uma lasanha inteira sem se importar com os seus gemidos.

GERENTE: Gemidos? Da lasanha?

LÍDER: Viu? Eu sabia. Não esperava outra coisa vinda de um membro da elite massívara. Você é um vendido ao seu chef. Os chefs exploram as massas, retalhando-as, assando-as e procedendo a toda sorte de crueldades com elas.

MANIFESTANTES: (em coro) Ine, ine, ine, não queremos tagliarini! Ine, ine, ine, não queremos tagliarini!

GERENTE: Chefes! Com “e”, meu filho! Os chefes, os donos do poder! Marx nunca falou de chefs na vida! Aliás, com aquela barriga dele, tenho certeza que ele apreciava uma boa massa.

LÍDER: Meu caro burguês, o próprio hino socialista diz, numa clara menção à necessidade de libertar as massas: “De pé, ó vítimas da fome!” A que você acha que isso se refere, senão ao consumo de macarrões e afins por parte de famintos alienados?

GERENTE: Aos pobres e despossuídos! Será que o senhor não entende? Aos pobres e despossuídos!

LÍDER: É inútil discutir com você. Todos sabem que Marx manteve durante anos, como melhor amigo e colaborador, um macarrão, o cabelo-de-engels.

GERENTE: (aos berros) Não acredito no que eu tô ouvindo! O cara acha que Engels é um tipo de macarrão!

MANIFESTANTES: (em coro) Óli, óli, óli, não comemos ravióli! Óli, óli, óli, não comemos ravióli!

LÍDER: E outra: a indústria suporta essa situação deplorável através da mais-valia, outro conceito marxista. É vale-refeição, vale-alimentação, vale de padaria...

GERENTE: Chega! Não quero ouvir mais essa idiotice! Daqui vocês não passam!

LÍDER: Não adianta reagir. É a marcha da história, meu bom burguês. O próprio Marx prenunciou a mudança de regime através da revolução, ou seja, a implantação de um regime não-calórico, uma nova dieta, sem massas. (ao megafone) Avante, companheiros! Trabalhadores do mundo, libertai-vos do rolo de macarrão!

MANIFESTANTES: (cantando e avançando para dentro do supermercado) “Caminhando e cantando e se abstendo de pão, somos todos iguais, homens ou macarrão!”

GERENTE: Segurança! Segurança!

17 março, 2008

MOVIMENTO MARXISTA PELA LIBERTAÇÃO DAS MASSAS (Parte 1)


(Grande aglomeração diante da porta de um supermercado. Gritos de ordem, cartazes, bandeiras vermelhas. Um sujeito com megafone, de boina, bolsa e sandálias de couro lidera a manifestação. O gerente, irritado, sai para conversar com os manifestantes, que são contidos por seguranças.)

GERENTE: Mas o que é isso, afinal? Quem são vocês? Não vou admitir saques no meu estabelecimento!

LÍDER: Nós somos do MMLM, Movimento Marxista pela Libertação das Massas, e estamos aqui para marcar posição contra a barbárie secular que vem vitimando as massas de todo o mundo desde o advento da primeira Revolução Nutricional, detonada na Inglaterra, em meados do século XVIII.

MANIFESTANTES: (em coro) A massa, unida, jamais será cozida! A massa, unida, jamais será cozida.

GERENTE: Co-como?

LÍDER: Isso mesmo, come. Há séculos o homem vem comendo impunemente pastas e derivados de todos os tipos, submetendo nossos irmãos farináceos às torturas mais cruéis pelo vil prazer de se alimentar. Chega. É hora de darmos um basta nessa situação.

GERENTE: (indignado) Mas, mas... Cidadão! Eu creio que quando Marx falava das massas, ele estava se referindo aos espoliados, ao lumpen, enfim...

LÍDER: Sem dúvida. Espoliados ao lumpen, espoliados al sugo ou mesmo al dente, não interessa. Chegou o momento de eles se libertarem. Marx já dizia: a mercadoria é um fetiche. E como fetiche, ela tem todo o direito de se realizar sexualmente.

MANIFESTANTES: (em coro) Abaixo a panificação! Abaixo a panificação!

GERENTE: Fetich...? Você é louco? Meu amigo, o fetiche a que Marx se refere é decorrente do processo de naturalização. Não tem nada a ver com sexo! Ou você acha que o velho mantinha relações eróticas com polpettones, por acaso?

LÍDER: Você diz isso porque faz parte do sistema — sistema que reprime os meios de comunicação das massas, impedindo que elas se expressem. Pra você, a pasta é apenas uma coisa, um produto sem vida própria. É como se um fettuccini não tivesse alma ou um rondelle não possuísse voz, não pudesse manifestar seus desejos e angústias.

GERENTE: (vermelho de raiva) Um rondelle expressando suas angústias! Isso não acontece nem com o bacalhau, que é um alimento escandinavo, meu senhor!

MANIFESTANTES: (em coro) ¡No asarán! ¡No asarán!

(CONTINUA AMANHÃ)

14 março, 2008

REUNIÃO DE DIRETORIA


— Bom, eu o chamei aqui porque, como se sabe, nós estamos perdendo competitividade, século a século. A concorrência tem arrebatado nossos melhores clientes. Já tivemos até que esvaziar o limbo para poder colocar todas as auréolas e asas que estão empoeirando lá, sem uso. O céu tá com uma densidade populacional menor que a do Amazonas. Isso aqui tá parecendo Brasília na sexta-feira. A continuar assim, vamos acabar incorporados pelo inferno.
— Se me permite, eu acho que o problema é que nosso método administrativo é muito arcaico, Papai. Essa história de empresa familiar não dá certo no mundo moderno. A coisa tem que ser mais profissional. A gente é muito centralizador, a firma obedece a uma hierarquia muito rígida e isso emperra nossas ações. Veja o mundo, por exemplo. Podia ter sido feito em duas horas, foi feito em seis dias e aquele empreiteiro brasileiro ainda ficou com dez por cento. Mesmo assim, olha que porcaria me saiu! Tirando o time do Barcelona, a Torre de Pisa e a mulher, nada ali presta!
— Mas a Torre de Pisa não fomos nós que fizemos.
— Logo vi! Se fôssemos nós, ela já tinha caído!
— Muito bem, espertinho, e o que é que você sugere? Abrir o capital da empresa? Ou vendê-la logo de uma vez pro Edir Macedo?
— Talvez não seja preciso tanto, a princípio, Pai. Podemos começar com pequenas medidas. Descentralização. Por exemplo, por que não transformar a Santíssima Trindade num Santíssimo Quarteto, pelo menos?
— Ah, é? E colocar quem como quarto? Pai, Filho, Espírito Santo e o Tocha Humana?
— Um gerente experiente, pai. Alguém que promova um downsizing. Pra que, meu Você, temos anjos, querubins, tronos, arcanjos, potestades e toda essa gente que fica aí encostada sem fazer nada? Além do mais, convenhamos, o que existe hoje é uma Santíssima Dupla, né? Porque o Espírito Santo mesmo, ninguém vê trabalhar. Faz tempo que venho levando essa cruz sozinho.
— Verbinho, Verbinho, você chegou aqui outro dia, não faz nem dois mil anos! As coisas sempre funcionaram da melhor maneira possível. Se não contarmos daquela vez que deixamos o ACM entrar, nunca cometemos um erro.
— As coisas mudam, Pai. E não adianta me olhar assim desse jeito. Foi o Senhor mesmo que criou a dialética!
— A hegeliana! A outra foi obra da concorrência!
— Outra coisa: marketing. Essa história de milagre tá ultrapassada. Com exceção dos neopentecostais e dos malufistas, ninguém mais crê. O que a gente tem que ter é uma campanha de marketing agressiva, com mídia eletrônica, outdoors, um bom slogan. Por exemplo: “Paraíso. Não interessa se você vem de pés juntos. Aqui você voa.” Ou então:
“Paraíso. Pelo menos aqui sua sogra não entra.” Umas fotos de mulheres usando apenas folhas de parreira também ajudariam...
— Pode ser, pode ser. Até que suas idéias não são tão ruins.
— E mais: a gente precisa relaxar o decálogo, Pai. Devemos partir para leis mais consuetudinárias, no modelo inglês, sacramentadas pelo povo, que já ensina: “não cobiçar a mulher do próximo, quando o próximo estiver próximo” e coisas do tipo. Que tal oferecer promoções? Por exemplo: no cumprimento de oito mandamentos, você é dispensado de dois. Ou ainda: cumpra os dez mandamentos e leve um pecado capital de graça.
— Muito bem, vou pensar sobre o assunto. Vamos marcar outra reunião, digamos, na próxima sexta-feira, daqui a um bilhão e novecentos milhões de anos.
— Pô, Pai, assim não dá! É por essas e outras que as coisas não andam!

12 março, 2008

ENTRELINHAS


— Ai, meu Deus! Você não é aquele escritor... o Márcio Pereira?
— Má-Mário. Mário Pereira. Eu mesmo.
— Me belisca.
— Ahn?
— Vai, aqui, no meu braço. Belisca, belisca, belisca, seu bobo...
— Que é isso, minha senhora, eu...
— Pega nos meus seios!
— O quê?!
— Meus seios, toma, agarra, morde, fica. Ui, você me dá uma coisa!
— Ca-calma. Isso aqui é um restaurante, dona, e...
— Ai, Márcio, eu nem acredito que encontrei você! Sou sua maior fã, viu? Maior. Não, sério, não tem igual a mim. Aquele seu livro, “Retorno do Chefe de Família”...
— Do Chef. O nome do livro é “O Retorno do Chef”.
— Pois então, “Retorno do Chef de Família”. Grande obra! A melhor dos últimos vinte anos, no Brasil, na minha modesta opinião. Nossa! Olha, jamais li, em toda a minha vida, crítica mais contundente ao modelo de organização de nossa sociedade escravocrata! Não, aquilo é genial!
— Minha senhora, a história de “O Retorno do Chef” se passa na Paris do século XX!
— Pois então. A contraposição da Quarta República com a tradição patriarcal brasileira, o esmiuçamento das contradições, das idéias de nossa elite colonial... Puxa! Quem poderia ter pensado nisso, senão você?
— Olha, eu agradeço o elogio e tudo, mas creio que tá havendo algum engano. O livro trata do mundo destroçado pós-Segunda Guerra, particularmente na Europa e...
— Ai, cheira!
— Que foi que a senhora disse?
— Aqui, entre meus seios, cheira, cheira!
— Uhmquemissoinhaminhora...
— Ui, você me deixa sem ar, Márcio!
— E você quase me mata asfixiado, sua louca!
— Viu? É o amor, Márcio. Eu sabia que nós fomos feitos um pro outro no minuto mesmo em que acabei de ler o seu livro. Disse pra mim: “Eu preciso conhecer esse homem!” Porque, Márcio, parece fácil, mas ninguém até hoje conseguiu captar a alma feminina como você faz ali.
— Não há uma única personagem feminina em “O Retorno do Chef”, dona!
— Você é que pensa. E as entrelinhas? São as entrelinhas, Márcio. Tudo ali é subentendido. Pensa que eu não saquei? Você faz o Chico Buarque parecer o Jece Valadão com aquele livro, Márcio. Lambe, vem, lambe minha orelha!
— Pára! Chega! A senhora...
— Maura, meu nome é Maura. Mas pra você é Má. Em nome de nossa intimidade. Comunhão de almas, Márcio, é o que nós temos. Vixe, eu ainda me lembro do arrepio que passou pela minha coluna quando descobri que o Murilo era gay. Com que sensibilidade você fez a revelação... Ah!
— Murilo, meu personagem? O Murilo não é gay! Quem disse que o Murilo é gay?
— Eu digo, Márcio, qualquer pessoa mais sensível diz. Tá ali nas entrelinhas, basta um pouco de atenção. Não é pra qualquer um, eu sei. Como, por exemplo, aquela menção de passagem ao futuro político brasileiro, à era Collor, ao relacionamento entre Zélia e Bernardo Cabral... Ironia trágica, eu acho que se chama isso. E como você domina essa técnica! Me dá tua língua, vai, me beija! Eu sou toda tua, Márcio! Toda... Mas... Onde é que você tá indo, meu bem? Volta. Sei que você não liga pra esse lance de idade, tá tudo dito no livro. E eu ainda nem falei do que pra mim é a apoteose dele: a releitura do mito de Tântalo sob um prisma neofoucaultiano... Márcio! Márcio! Márciooooo!
(saindo, furioso) Vá tomar nas entrelinhas, minha senhora!

11 março, 2008

SEXO NAS CAVERNAS


O grande problema da antropologia contemporânea, além de saber se o Kassab faz parte dos Sapiens, é destrinçar o momento em que nossos antepassados, talvez movidos por uma câimbra ou um espinho mais acerado, puseram-se de pé, transformando-se naquilo que Platão denominaria de único “bípede implume” — definição que perdoamos ao filósofo, uma vez que ao seu tempo ainda não haviam se desenvolvido outras formas de vida irracional, como a dos corretores da Bolsa.

Minha curiosidade, contudo, vai um pouco além, mais precisamente até o ponto em que, já de pé, os homens tiveram sua primeira relação sexual (o termo “homens” aqui, obviamente, é utilizado no sentido de “espécie humana”, uma vez que o homossexualismo — forma de relacionamento em que não é preciso conversar durante o café-da-manhã — só seria registrado mais tarde, no Egito e em algumas outras civilizações antigas, como Pelotas).

Imagino o instante em que, ainda um pouco desequilibrado e sentindo as primeiras dores de coluna, nosso tataravô se aproximou de nossa tataravó e, penteando as sobrancelhas com um pequeno arbusto, lançou charme, em sua linguagem primitiva.

— Pô, aí, mó legal esse lance, tá ligada?
— Só.
— Tu curte numa nice esse troço, meu?
— Só.
— Mermo?
— Só.
— Topas dar um créu pra desembaçar, então?
— Só.
— Só...

O homem piscou então um olho para a mulher, deu um beijo em sua face (donde provavelmente nasceu a primeira idéia da lâmina de barbear), fez um carinho em seu queixo, sorriu meigamente, desceu a clava em sua cabeça e a arrastou pelos cabelos para uma caverna remota.

Começaram aqui as dificuldades do nosso antepassado. Em primeiro lugar porque, tendo praticado o coito sempre com a parceira ajoelhada e de costas para ele, não conseguiu achar de pronto o órgão sexual da moça. E depois porque, vendo o falo de frente, a mulher provavelmente se assustou:

— Uma cobra! — deve ter gritado, desferindo uma porrada no pênis ancestral com uma pedra de médio porte, o que deixou nosso genearca prostrado no chão por uma meia hora, gemendo. Ao que ela se irritou: — Que lance é esse? Você me traz aqui e só você goza?

Após ter inventado os primeiros palavrões, um pouco mais calmo e com o conhecimento rudimentar que possuía, ligeiramente mais extenso que o de uma professora de Educação Sexual, explicou de que se tratava aquele instrumento e seus objetivos. Tomou novo alento e se preparou para a função. Todavia, lançando os olhos mais uma vez sobre o membro, a mulher não pôde deixar de rir:

— Uh, uh, uh. Como é feio, coitado! Careca e vesgo! E aquelas coisinhas balançando ali embaixo? Ih, ih.

Um anticlímax, sem dúvida. Mas deve ter sido enquanto a mulher gargalhava, de pernas para cima, que o homem descobriu onde se escondia o sexo feminino. Na ânsia de consumar o ato, contudo, ou por ter idéias muito avançadas para a época, errou o alvo, o que provocou um berro assustador por parte da fêmea.

— Uaaaaaaaai, caceta, isso dói! Sodomia, não!

Em seu debute, nosso antepassado não ultrapassou esses primeiros passos, segundo penso. O sexo propriamente dito só deve ter surgido numa segunda oportunidade, quando já estava mais experiente, tendo descoberto que a coisa se daria de melhor forma se ele se deitasse por cima da parceira e levasse uma caixa de bombons.

Porém, os estudiosos concordam em ao menos um ponto: foi naquele dia que surgiu a masturbação.

10 março, 2008

HIPERBIBASMO


— Ué? Por que você parou?
— Você gozou?
— Uhm-hum.
— “Uhm-hum”, sim, ou “uhm-hum”, não?
— Lá vem. Você não ouviu quando eu disse: “Isso, isso, ai, isso”, Caio Fernando?
— Ouvi. Acontece que você disse “issuuu, issuuu”, acentuando a segunda sílaba, ao passo que quando você vai gozar de verdade você diz “iiisso, iiisso”, marcando a primeira.
— Meu Deus! Eu creio que quando os sexólogos falam em algo pequeno, sensível e indispensável ao gozo, eles estão se referindo ao clitóris, Caio Fernando, e não ao acento tônico.
— Aqui não se trata de português, minha filha, mas de psicologia. Há mais coisas entre o períneo e o umbigo do que sonha vossa vã sexologia.
— Claro, claro, psicologia, né? De certo é o seu complexo de Edípo ou a inveja do penís.
— Muito engraçado da sua parte. Mas o fato é que você cometeu um ato falho.
— Quanto a isso, não resta a menor dúvida. Foi naquele 15 de julho, quando me vesti de noiva pra entrar na igreja.
— Continue brincando, pode brincar. Só sei que esse hiperbibasmo fala por si.
— Hiperbibasmo? Pra começo de conversa, Caio Fernando, é bom deixar o convencimento de lado. Fique sabendo que já vi bibasmos muito maiores que o seu. Você tem no máximo aí um “grande bibasmo” e olhe lá. Além do mais, não vejo como um deslocamento de acento possa ter alguma conotação sexual. A não ser que o “acento” em questão tenha “ss” em vez de “c” e estejamos falando de uma cadeira erótica, claro.
— Tudo bem, vamos recomeçar. Acho que faltou de minha parte um maior estímulo ao seu clítoris.
— Clitóris.
— Aaaaaah, viu? Olha aí o acento influenciando sexualmente. Duvido que você transasse com um sujeito que falasse clítoris em vez de clitóris.
— É diferente. Completamente diferente, Caio Fernando. Nesse caso, estamos falando de um erro crasso, de um “super-hiperbibasmo”. E, convenhamos, tamanho não é tudo.
— O problema é o mesmo, minha filha. No fundo, o problema é o mesmo.
— Não, no fundo, sobretudo em se tratando de hiperbibasmo, o problema é mais complicado, se é que você me entende. Agora vamos embora, vamos. Perdi a vontade de transar. Bem que mamãe me advertiu pra não casar com um gramático!
— Espera. Você ainda não respondeu.
— O quê, Caio Fernando?
— Gozou ou não gozou?
— Uf! Não, não gozei. Tá satisfeito com isso? Ou melhor, com issuuu?
— Sabia. Você não me ama mais.
— Quanta neura, Caio Fernando! Tudo isso só porque eu não gozei?
— Nunca nos aconteceu antes, Fátima Paula.
— Como não? Você acha que durante esses anos todos eu gozei todas as vezes que a gente transou, Caio Fernando?
— Claro que não. Sei que não. Pede a conta. Vamos embora. Mas nunca tinha cometido um hiperbibasmo...

05 março, 2008

CRENTES


Sempre me admirei com os crentes. Não falo exclusivamente daqueles sujeitos que se reúnem numa igreja aqui em frente de casa, jungidos pela crença de que o Senhor é surdo e não usa aparelho auditivo Telex, mas sim da credulidade num sentido mais amplo, seja em política, religião, futebol ou na certeza de que o armário está vazio e que o motivo por que um sapato dois números acima do seu está ao lado da cama se relaciona com o Efeito Estufa e sua influência sobre o tamanho dos pés no Hemisfério Sul.

Sim, já tive religião, time de futebol, partido político e chifres. Porém, desde quando me entendo por gente (“gente” usado aqui também num sentido mais amplo e englobando alguns quadrúpedes de médio porte), jamais me entreguei inteiramente a uma paixão ou, se o fiz, foi para largá-la dali a um tempo, substituindo-a por algo mais racional, como o fumo e o alcoolismo.

O que me espanta, sobretudo, no partisan é sua incapacidade de enxergar nuances ou o próprio umbigo. (Quanto a este último ponto, está claro que não me refiro à dificuldade de deslindar o umbigo pelo desenvolvimento de uma barriga eutrapélica que impede sua visão, bem como — e cito por experiência — de outras partes mais óbvias e pendentes do corpo localizadas abaixo da cintura.)

Afinal, parto sempre do pressuposto de que se um juízo me entusiasma demasiado ou é partilhado por um número grande de pessoas, tem alguma
coisa errada com ele. Isso serve para Deus (mas não para o diabo, em que creio piamente e acho até que é empresário do setor de call center), para o comunismo, para o capitalismo ou para as fraldas descartáveis Pom Pom, que larguei aos quatro anos, ao sentir, através de manifestações químicas bastante convincentes, que não eram tão boas quanto o divulgado, atirando uma delas heroicamente no corredor da escola e constatando:

— Isso é uma merda.

Lembro, por exemplo, de um Marx em Quadrinhos que li quando tinha uns sete ou oito anos e de minha reação diante das caricaturas dos capitalistas de dentes acuminados, capas de vampiros, reunidos em torno de uma mesa, contando uma pilha de dinheiro.

— Os filisteus não podem ser todos tão ruins e avaros — pensei à época. — Se é para mandá-los para o paredão, que seja por suas péssimas noções de estética.

Tirando o fato irrecorrível de serem os economistas insuportáveis, não acredito monoliticamente em nenhuma linha de pensamento, desconfiando sempre das menores verdades cotidianas, o que tem me metido em algumas pequenas embrulhadas — caso de quando me recusei a crer que devia aquela quantia de dinheiro à Receita ou que há uma instituição chamada SPC.

Custa a mim entender que um indivíduo não consiga rir de si mesmo. Diante desse tipo de gente, tenho a impressão de estar vendo um hipopótamo de terno, óculos e pasta 007. Então, boquiaberto, me pego freqüentemente articulando uma frase. E é com ela que encerro esta crônica: “Esqueçam o raciocínio lógico e a bipedia. O homem se distingue, na realidade, por ser o único animal inferior que se leva a sério”.

(Aviso aos desinformados: o livro “O Cabotino”, de Paulo Polzonoff Jr., o popular Cotoco, está disponível para download
aqui. Apesar de o autor não ser figura das mais agradáveis, o livro merece ser lido. A cortesia é de outro sujeito intragável: Branco Leone. Aviso aos mais desinformados ainda: continuo no Recife. A praia está péssima e os camarões insuportáveis. Na segunda, o blog volta ao ritmo diário.)