08 fevereiro, 2008

PELO DESMATAMENTO DE CRIANÇAS E A INCINERAÇÃO DE VELHOS


Há quem acredite que a internet, ao contrário do que normalmente se divulga, veio para atentar contra a liberdade de expressão. Isso porque acabou com a única função verdadeiramente louvável de nossos jornais e revistas: a de embrulhar peixes. Não aceito a hipótese por uma razão muito simples: homem antenado, o luso-açougueiro aqui da esquina de casa, por exemplo, substituiu o papel por monitores de computador, e o resultado é que o novo embrulho abrange muito mais mercadorias, além de influenciar positivamente em seu peso.

Foi graças a esse homem de visão — sem dúvida, um adepto das teorias de McLuhan — que, voltando de férias, tive a oportunidade de ler sobre os fatos políticos das últimas semanas, num pedaço de tela sujo de sangue — única forma de me aproximar dos meios impressos ultimamente, uma vez que substituí, há tempos, a leitura de jornais por placas de trânsito: o português é errado e as informações incertas do mesmo jeito, com a vantagem de não ser preciso ser assinante de um provedor.

Entusiasmado, soube que, em mais uma demonstração de celeridade ímpar, tão-logo se deu conta dos desmatamentos na Amazônia, em 2007, nosso governo fez uma reunião de emergência para discutir medidas que orientem o estudo de propostas de futuros encontros que proponham a realização de sondagens visando ao debate de iniciativas que procurem formar grupos de avaliação para estabelecer metas a serem seguidas pelos delegados de uma assembléia que gere, quem sabe, talvez, algum dia, idéias sobre o que fazer a respeito da questão.

Sei que os golpistas e as elites brancas de sempre, exigindo que o governo faça mais do que aquilo que é seu dever constitucional, como dar moradia, saúde, alimentação e trabalho a banqueiros, vão reclamar pelo fato de a medida ter saído só cinco anos após a posse do presidente.

Ora, não me alongando a rebater calúnias, digo apenas o óbvio: como o governo poderia tomar medidas contra o desmatamento de 2007, se só assumiu em 2003? Quando menos por amor a Descartes, seria preciso esperar quatro anos transcorrerem, tempo este necessário para que, primeiro, nossas autoridades se apercebessem de que a Amazônia faz parte do território nacional — ou alguém acha que com tanto mato é fácil se localizar por ali? — e, segundo, aguardassem que alguma notícia ruim sobre o desmatamento surdisse — mais uma prova de que este é um governo moderno e se livrou definitivamente de idéias comunistas ultrapassadas, como o planejamento das ações.

Assim, inspirado pela reconfortante eficiência de nossos gestores públicos, acabei por descobrir um artifício engenhoso para detonar a revolução educacional de que tanto o país necessita: o desmatamento de crianças e o aquecimento de analfabetos. Pensem bem: se brasileiros abnegados iniciassem a invadir escolas caindo aos pedaços para dar machadadas em crianças ou a entrar clandestinamente em asilos de velhinhos analfabetos para tocar fogo em suas dependências, dentro em pouco, no máximo cinco anos, o governo afinal perceberia a existência de um problema na Educação e, quiçá, na Previdência brasileiras.

Prevejo que alguns sujeitos ligados a valores afonsinos como os defensores dos direitos humanos insinuarão que, caso a política surta efeito, teremos exterminado crianças e idosos antes que consigam obter benefícios. Uma alegação, obviamente, das mais pancrácias. Para que é que temos uma eficiente política reprodutiva no país, que impede o acesso das pessoas a informações sobre métodos contraceptivos, além de restringir o aborto a casos extremos, como, por exemplo, aqueles em que os pais têm dinheiro para pagar por uma intervenção em clínica clandestina? Esperaríamos, portanto, apenas o tempo de mais uma geração nascer para a iniciativa pedagógica triunfar, ó gente sem espírito cívico!

Diante de tal perspectiva, conclamo: não percamos o momento histórico, concidadãos – ajamos o quanto antes. Esparta nos espreita, orgulhosa. O futuro do Brasil está em nossas patas.

9 comentários:

blogdocejunior disse...

Apoiado!

E já que você citou Esparta, sugiro convocar o ilustre inimigo dos gregos, o Rodrigo "Xerxes" Santoro, que poderia emprestar sua figura patética, quero dizer, atlética para tão meritória campanha!

Halem Souza disse...

Por que temos Mangabeira Unger naquele ministério para planejamento de ações de longo prazo (são tantos cabides de emprego criados que nem consigo guardar o nome das sinecuras)? Marconi Leal é que devia assumir esse cargo. Que idéia genial essa de desmatar crianças (mas lembrem-se de preservar os pobres educadores, como eu, que estarão dentro das escolas)!

Agora, falando sério, texto excelente. Voltaste com a corda toda depois do Carnaval, hein? O que não fazem os folguedos pernambucanos...

DedesBlog disse...

hahahahahaha: embrulhar peixe!? Excelente!

Ana Maria disse...

marconi, seu texto é invejável! caramba, como você escreve bem. sem falar na lucidez.

Paul disse...

É verdade, é muito bom o seu texto. Parei de ler no parágrafo do "reunião de estudos para pesquisar futuras iniciativas" e já valeu o texto, muito bom mesmo.

Paul disse...

Acho mesmo que você já devia ter sido convidado para escrever uma coluna humorística nos melhores jornais, mas talvez seja o rumo normal das coisas o fato de você escrever de grátis...

Jens disse...

Por aqui quando esses porras destes ecochatos começam a encher o saco, a gente pinta o asfalto de verde e depois espanta os pentelhos a relhaços.
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Muito bom o lance do português usando monitor pra embrulhar peixe. Vou pro boteco do Nereu contar para a turma. Claro que eu vou dizer que a sacada foi minha.
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Porra, Tumbú é do c...! Vou ser obrigado a te elogiar lá na Toca. Aviso quando.
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Um pontapé no saco - um castigo por estar escevendo cada vez melhor.
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Um abraço. Dê recomendações minhas à sua senhora e também à sua sogra (tua, não dela).
Inté.

Lucas Parente disse...

Vê-se que a sua inteligência e senso de humor continuam afiados, meu caro.

Ótimo texto.

Vou agora mesmo na despensa buscar o meu machado, rsrsrs.

Abraços.

Márcia(clarinha) disse...

Lambendo monitor num gesto entusiasmado pela belezura de escrita.
Eca!! que gosto de sangue [cuspe,cuspe] au, au, au!!
O tempo está passando tal e qual sempre há de passar, haja lenha pra arder :(
bons dias Marconi
beijos