29 fevereiro, 2008

PROFISSIONAL DA ONOMATOPÉIA


— E você faz o quê?
— Eu? Sou profissional da onomatopéia.
— Ahn?
— Onomatopéia. Eu trabalho com sons.
— Como assim?
— Assim. Fluct-pu.
— Hein?
— Fluct-pu. “Assim”. Também faço “talvez”, “todavia” e “contudo”, olha aí: plocting, blabunz e digdag.
— Tá tirando onda comigo, rapaz?
— Chuá, chuá.
— Olha que eu te bato, cara! Não tira onda comigo que eu te bato! Cê tá falando sério?
— Ô! Fiu! Seriíssimo.
— E isso dá dinheiro?
— Bem, schlup, não posso reclamar. O mercado vem crescendo nos últimos tempos, pei. Esse negócio de significante e significado tem perdido a sua força nas últimas décadas. A tendência do falante da língua moderno e progressista é substituir palavras por sons ligeiramente articulados, de maneira que tenho ganhado algum dinheiro, pluf.
— E você pode me dizer, por acaso, como é que isso funciona, hein? Dão dinheiro pra você fazer “umb”, “blum”, “fit”...? Você tá rindo de quê?
— Dessa sua última frase.
— “Dão dinheiro pra você”?
— Não: “umb”, “blum”, “fit”. Isso não faz o menor sentido. Se você queria dar um exemplo onomatopéico de significado rarefeito, poderia ter usado “islupt”, por exemplo.
— Zilupt?
— É você! Não me chama de zilupt, hein? “Islupt”, eu disse. Já “umb”, francamente... É coisa de selvagens.
— Ah, sei. Já “plocting” é de um sentido extraordinário, né? Deve, inclusive, ter sido usado por Wittgenstein!
— Saúde.
— Como?
— Não foi “uitszentain” que você disse?
— Wittgenstein, o filósofo!
— Ah, pensei que cê tinha proposto um brinde. Glopre.
— Vem cá, você pode me dizer, afinal, de uma vez por todas, como é que isso de inventar sons te dá dinheiro?
— Bom, em primeiro lugar sou muito requisitado para fazer letras de rock e axé. Também temos aumentado nossa presença, ronc, em congressos de surfistas e workshops de escritores brasileiros famosos. Em programas de auditório, prestamos um serviço de atendimento de urgência. Caso uma conversa enguice, nos chamam e nós fornecemos alguns sons com que continuar o bate-papo, jog. Ainda atuamos em reuniões familiares e confraternizações de final de ano. Ah, e fazemos pequenas traduções, como de Shakespeare, Schiller e Cervantes. Enfim, temos estudos que nos permitem imaginar que vamos decuplicar nossos lucros nas próximas, quérit, décadas.
— Caraca!
— “Caraca”? É tudo o que você tem a dizer?
— Tô muito espantado...
— Use “kraputz”, então. “Caraca”! Nossa, rapaz, você precisa melhorar, urgentemente, seu vocabulário!

7 comentários:

Srta. Bia disse...

hahaha
adorei saber que se tira onda com os outros fazendo "chuá chuá"... adorei!

Anita disse...

vou voltar aqui dia desses para apnhar umas onomatopéias emprestadas. Posso?

neo-cid disse...

esse foi engraçado..prazer em te conhecer, Marconi

Moacy Cirne disse...

"A nível de" onomatopéia, um texto ótimo! Abraços.

Jens disse...

Argh, ugh, burp. Duca.

Sandrinha disse...

kkkkkkkkkkkkkk muito bom, como sempre!
Boa semana!
Beijos

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Hehehehehehe. Gostei!