13 fevereiro, 2008

IRONIA PELOS DIAS QUE CORREM


— Sr. Onofre, eu sou o agente Jonas e esse aqui o agente Nunes. Nós estamos entrevistando os moradores das redondezas, porque houve uma ironia hedionda no bairro ontem à noite e procuramos o culpado. O senhor reconhece esse homem aqui no retrato?
— Voltaire? Digo, vou teire que pensar um pouco... Essa peruca, esse bastão, esse nariz... Não, não, nunca vi mais nobre.
— O senhor pensava ontem à noite, entre as 20 e 22 horas?
— Ih, nada. Tenho evitado. A última vez que eu pensei deu uma dor de cabeça dos diabos. Troquei pela televisão.
— Tem um álibi que possa comprovar isso?
— Claro, claro. Entrem. Olha aqui no sofá: Veja, Estadão... Também leio Zibia Gasparetto, olha ali na estante. Discos do É o Tchan. Da primeira formação, claro. Era mais encorpada, se é que o senhor me entende. Ali na mesa tenho ainda DVDs de musicais cantados em português. Enfim, e aquela reprodução de Romero Britto no canto da parede.
— Alguma pessoa, sr. Onofre. Havia alguma pessoa com o sr. ontem à noite?
— Pessoa, pessoa, eu não diria. Tinha o meu cunhado.
— Isso é humor?
— Calma, Nunes, calma. Ele vai falar. E então, sr. Onofre? Sobre o que conversavam o senhor e seu cunhado, no momento do crime?
— Trivialidades. Quem matou a heroína da telenovela, quantos sapatos tem a primeira-dama, qual a Big Brother mais loura, a conceituação do objeto fenomenológico versus a coisa-em-si de Kant, essas coisas.
— Kant?! Seu canalha! Kant?!
(cantando) “Como uma deusa, você me mantém! E as coisas que você me diz, me levam além!”
— Solta, Nunes, solta. Não precisa ter medo, sr. Onofre, não vamos machucar o senhor. Só explique uma coisa: temos o depoimento de uma moradora da rua que afirma ter visto o senhor, dias atrás, sentindo prazer ao cantar certa ária do Leporello no Don Giovanni. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?
— Mentira, oficial. Acho ópera coisa séria. Se gargalhei foi como uma manifestação profunda de depressão.
— E sobre o senhor ter presenteado um dos seus filhos com as Viagens de Gulliver em livro, sem as descaracterizações da Disney?
— Outra calúnia. Quero ser amarrado por anões numa ilha distante se isso for verdade.
— Isso é humor? Ahn? Isso é humor?
— Deixa, Nunes, deixa. Bem, não é verdade, sr. Onofre, que o senhor gosta de Molière?
— Ué? Mas aí todo mundo gosta. Se tem dois peitões então...
— Patife!
— Larga, Nunes, larga. Sr. Onofre, meu amigo tá um pouco exaltado, mas eu tenho que ser sincero com o senhor: a sua situação é crítica. Temos sérios indícios que nos levam a acreditar que o senhor alimenta o hábito de ditos picantes e é dado a trocadilhos e jogos de palavras. Não é fato que ontem à noite, entre as oito e dez horas, o sr. teria dito, aspas: “Apesar do que afirmam os céticos, creio que os problemas da humanidade podem ser resolvidos, sim, e isso está ao alcance de nossas mãos. Melhor, dos nossos dedos. É só apertar um botão.”?
— Pô, mas eu tava brincando! É óbvio que eu não quero destruir o mundo! Isso nunca passou pela minha cabeça, oficial!
— E ainda confessa, calhorda?
— Prende, Nunes, prende.

6 comentários:

Divinas Damas disse...

Olá!

Dica de boa leitura

Política com seriedade? Confira!

Blog: MOSAICO DE LAMA:
www.mosaicodelama.blogspot.com

Comu: POLÍTICA NÃO É LIXEIRA
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=30542704

Caso não goste, delete...

César xrmr disse...

hilário, marconi !

Jens disse...

Emburreça, Marconi, emburreça, porra!!!

Carol "Mozão" Mendes disse...

HAHAAHAHA!!

Isso foi um retrato cômico e irônico da realidade, Sr. Marconi Leal?
Teje preso!

Srta. Bia disse...

Um homem dado a trocadilhos jamais poderá ser totalmente confiável...rs.
E sobre a Zíbia, outro dia numa livraria uma amiga disse ao ver o nome de seu novo livro: "cadê teresa?". Mas se ela que vê espírito não sabe, imagina eu!

GUGA ALAYON disse...

quauquauquauquauqua