14 fevereiro, 2008

GUERRA


Meu pacifismo tem um limite: a leitura de algumas páginas de Heródoto ou Plutarco. Bom, confesso que este último também me dá uma vontade irresistível de enrolar um lençol ao redor do corpo, colocar algumas folhas de louro no cabelo e descair a mão com um gritinho, dizendo:

— Afe, César! Que aqueduto grande você tem!

Situação constrangedora que reprimo a custo, após coçar o saco com um esmeril ou, em casos extremos, ler alguma coisa de Hemingway. Porém, ao menos o historiador de Halicarnasso desperta em mim o cita que todos trazem dentro de si. Sim, todos temos um cita dentro de nós e se vocês não o encontraram ainda, aconselho procurar ali naquela fenda entre o estofado e o encosto do sofá, junto com a caneta Bic e o controle remoto.

A simples leitura de um parágrafo dele me enche de coragem e leva a me imaginar nas situações mais heróicas: arrancando a dentadas a cabeça de um medo, furando os olhos de uns tantos assírios, lendo os artigos do Fernando Henrique na Folha de São Paulo etc. Não foi à toa que, mais de uma vez, minha mulher chegou em casa e eu estava atracado com a TV, trocando cusparadas com o Datena e acotovelando o aparelho de DVD, que tinha tomado seu partido.

Bem, outro dia falei aqui da forma eficaz como estabeleci uma relação afetiva com os pombos que nos azucrinavam no apartamento novo (“novo” sendo, obviamente, um vício de linguagem, posto que os arqueólogos não chegaram ainda a estabelecer definitivamente a data em que ele foi construído). O que não sabia é que, em termos de barulho, o vizinho de baixo — que se não criou asas ainda é por estar, com relação aos pássaros, dois degraus abaixo na escala evolutiva — descobriu método mais pronto de provocar irritação: o pop dos anos oitenta.

Esta semana, relia o primeiro livro da História e ajudava Dario a galivar as fronteiras do império persa (sem meu auxílio, digo modestamente, ele jamais teria construído uma ponte sobre o Danúbio), quando ouço, dois volumes acima do insuportável, a voz — agradável como a de uma vara de porcos que houvesse aspirado gás hélio — de Nina Hagen.

Até então, tinha suportado as afrontas à moda anglo-hindu: de um lado, com suspiros, balançar de cabeça e cânticos a Krishna, para que o infeliz tivesse o mesmo destino dos Kauravas nas mãos dos Pandavas; e, de outro, comendo de colher uma quantidade razoável de Lexotan. Mas naquele dia a visão do Ponto Euxino me repletou de bravura e resolvi contra-atacar.

Acomodei estrategicamente as caixas de som no parapeito da janela, seguindo as boas regras da poliorcética medieval, e liguei o estéreo no último volume, atacando com a Nona (não, não joguei minha avó sobre ele), mais particularmente na parte do poema de Schiller.

O inimigo acusou o golpe (não deve ser um sujeito muito dado a expansões de júbilo) e, recolhendo momentaneamente a infantaria, atacou com os cavalos, ou melhor, com os jumentos: A-HA.

Bambeei qual Heitor, mas enfim consegui me fixar em pé e, subindo na biga, açoitei os cavalos com o Libiamo ne'lieti calici da Traviata. O contendor deixou o gládio cair e fugiu para trás de uma azinheira. Quando o pensava aluído, sacou do arco e desferiu um golpe inopinado: Tracy Chapman.

Caí, percebendo que algum deus auxiliava o oponente, pois, vítima de um passe de taumaturgia, sentia que minha massa encefálica começava a se transformar em cocô. Trêmulo, arrastei meu pingue corpo até o carro terso e, quase sem ar, cobrindo a cabeça com um elmo, resolvi abandonar a guerra convencional e passar ao uso de armas atômicas: apertei, então, o bass e, avançando com a infantaria ligeira, soltei sobre ele Die Walküre.

Em menos de dois minutos, senhores, ele assinou o tratado de rendição. Não foi nem preciso usar o Cid Moreira declamando trechos da bíblia, meu último recurso. Vitorioso, recostei-me então no sofá, baixei o som e voltei a Heródoto.

A vitória foi de tal maneira cabal, que o homizião não voltou a nos incomodar até hoje. Se bem que isso pode ser impressão. Pois ainda continuo surdo.

(Bem dizia o pinto do Marquês de Sade: a vida é dura. Nem bem voltei das férias e já me vejo na obrigação de viajar ao Recife, onde passarei dias terríveis à beira-mar, comendo camarões e bebendo insuportáveis cervejas geladas. Voltarei a atualizar o blog de lá, na segunda-feira, contando as vicissitudes de minha sofrida estadia. Isso, claro, se a ressaca deixar. Conto com as orações de vocês.)

16 comentários:

César xrmr disse...

marconi, com seu golpe final você me lembrou do coronel kilgore, do filme apocalipse now. "i use wagner", dizia o homem.

Anônimo disse...

Não o conheço pessoalmente, nem por foto.
Nunca li nenhum livro seu, ainda.
Mas há um ano você tem feito bem, muito bem pra mim. (desculpe o pieguismo!)
Mais até do que ficar em casa, em dia de chuva, vendo filmes eróticos do cinema mudo, esparramado no pufe, comendo toblerone. (e olha que isso é muito bom!)

Ah, e minha rua se chama Marconi. Com certeza, devido ao Guglielmo, o inventor do(a) rádio.
Entretanto, hoje, a placa da rua me faz lembrar sempre do seu bom humor.
E o dia aqui no sertão paulista fica assim: aprazível mesmo aos 40 graus... (na verdade, escrevi tudo isso só pra usar a palavra “aprazível”, que eu adoro).

Enfim, não morra na praia de Boa Viagem, por favor!

Abraço!

blogdocejunior disse...

Você é um homem de coragem. E, como dizia o Serjão (o do FHC), beira à irresponsabilidade!
E se seu vizinho contra-atacasse de Simone cantando "Então é nataaaaalllll !!!!!" ?
Um abração e boa viagem!

Emerson disse...

Marconi, realmente você é um homem de sorte e não me refiro a sua viagem ao Recife, mas sim ao seu vizinho não ter apelado para armas letais como Rosana, Ursinho Blau-blau, Ovelha ou Marquinhos Mouras da vida.

Dê um abraço naquele tubarão que conheci lá em Boa Viagem agora em Janeiro, num agradável e "tranqüilo" domingo de sol...

Jens disse...

Ê vagabundagem boa, nada como ser rico (ou casar com uma bela dama endinheirada, como é o teu caso).
***
Seguinte: cita e galivar eu pesquisei, mas diante de Kauravas, Pandovas e Ponto Euxino desisti. É muita erudição. Gosto mais quando escreves para os seres humanos normais como eu, que coçam o saco em público, escarram na calçada, passam a maior parte do tempo na frente da TV e só lêem histórias em quadrinhos.
***
Eu estava torcendo para o vizinho.
***
Boa estádia no Roicife. Espero que chova bastante.
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Bye. Dê lembranças minhas à sua senhora e a todos os seus familiares.
***
Um abraço.

Jens disse...

Estádia é o cacête!

GUGA ALAYON disse...

A vida deve ser dura pro Ney Matogrosso.
Pro pingolim do marquês era dura-mole-dura-mole...

abçs pro Roy Scheider se vê-lo por lá

Badá Rock disse...

Agora já sei como retaliar os golpes da minha vizinha que ouve um ruído chamado - segundo ela própria me falou, toda orgulhosa e patusca - Babado Novo.
Na pior das hipóteses, eu também tenho uma arma de proporções bíblicas: A vida de Davi narrada por um pastor Metodista. Coisa linda.
(Para cúmulo do meu espanto, ainda há quem ouça Nina Hagen! E de propósito!)

Mazinha disse...

Eu daria tudo pra que meu vizinho ouvisse A-Ha, não por que eu goste, mas por que é muito melhor que o Créu, a Atoladinha, o Bonde do X, ... do meu vizinho.
QUando ele ouve axé a gente até fica feliz. Pelo menos axé é cantado em português, coisa que funk não é.

Anônimo disse...

Venci, certa vez, usando Pavaroti versus chatonejas do meu vizinho.

Túlio disse...

Odeio gente. Principalmente vizinhos. Por isso moro em casa com terrenão em volta. E posso escutar Cid Moreira no mais alto volume.

andrea disse...

cheguei de um show, sentei aqui na frente do com´putador e pensei: vou ler o marconi, faz séculos! li e pronto, nao quero ler mais nada. vc é bom nisso, que mestre!
beijo da fã

andrea disse...

ah, mentira, quero ler O Saci, que tá na minha cabeceira! Monteiro Lobato reina soberano, como diz o nosso caro blogueiro a. do carne crua bj

Serbão disse...

anos 80 no ultimo volume??? então vc já está sentindo saudades dos pombos!!!!!

Dimas Lins disse...

Caro Marconi,

Cheguei ao teu blog por indicação de dois grandes amigos em comum: Josias de Paula Jr, o popular Geó, e Artur Perrusi.

Ontem, nós três estávamos bebericando num boteco em Recife e seu nome surgiu na conversa. Por isso, hoje estou aqui.

Excelente blog, excelente verve. Os dois estavam certíssimos nos elogios. Passarei por aqui outras vezes.

Aproveito para dizer que coloquei um link do seu blog em meu espaço.

Um abraço,

Dimas Lins

Moacy Cirne disse...

Seu pacifismo tem limites, é verdade. Mas o seu humor, não. O que também é verdade. Um abraço.