11 fevereiro, 2008

DO POLITICAMENTE CORRETO


— Eu não fiz nada não, eu juro!
— Ah, não? Toma de novo! E essa, e mais essa. E então, refrescou a memória agora?
— Ai! Mas o que você tá fazendo? Quem são vocês, afinal?
— CPI.
— Ué? Mas eu nem sou filiado ao PT!
— CPI. Central de Patrulhamento Ideológico, canalha! Toma, toma!
— Ai! Isso dói. Cadê os meus direitos?
— Os seus direitos tão por aqui. Mas se continuar negando, vai perder os dois: o pé e a mão. Vai falar ou não vai, engraçadinho?
— Tudo bem, eu confesso: eu queria comprar aquela calcinha de renda. Foi um desejo repentino, uma coisa que me passou assim pela cabeça. Fui lá na loja e pronto, comprei. É proibido comprar calcinha por acaso? Todo mundo agora tem que se vestir feito atriz da Globo em festa? Mas eu não sou veado, eu juro!
— Homossexual.
— Não sou!
— Gay.
— É você!
— Toma, toma! “Homossexual” ou “gay”, você deveria ter dito “homossexual” ou “gay”, seu calhorda, e não usado esse termo preconceituoso que você usou! Por essas e outras é que você tá aqui. Agora confesse: que palavra você empregou na loja pra descrever a calcinha?
— Renda, ué. Calcinha de renda. Por quê? Deveria usar “pecúnia”?
— A cor!
— Preta...
— Toma, toma! Como é que você tem coragem?
— Ai! Tá, tá, não precisa bater. Se o senhor prefere, eu troco por vermelha.
— Você me dá nojo. Toma! Que espécie de ser humano é você? Calcinha de rendas afro-coloridas. Dói dizer isso?
— Se o senhor não bater enquanto eu falo, até que não.
— Jorjão, coloca o homem no falo-de-arara!
— Não, por favor! Eu juro que nunca mais conto piada de anão! Gente burra pra mim, de agora em diante, é neuronialmente desfalcada! Vou passar férias na Argentina e até usar mesóclise! Não, pelo amor de Deus! Ele tá vendo o que você tá fazendo!
— Quem disse a você que Deus é homem, seu sexista? Misógino! Toma! Jorjão!
— Disse “ele” no sentido de “ela”! Quem sou eu pra falar mal de Deus, um ser infinito? Eu respeito as minorias!
— Isso, Jorjão! Despe o homem. Hoje ele vai aprender a chamar urubu de meu caucasiano.
— Não! Socorro! Eu tenho nordestino na família: minha empregada é baiana!
— Muito bem, agora que o sujeito tá nu, amarra ele ali.
— Eu sou judeu!
— Sem circuncisão?
— Quer subgrupo mais discriminado?
— Leva o cara, Jorjão. Agora ele... Ahn? Mas o que é isso? Não acredito! Esquece, Jorjão. Solta o homem.
— Por quê, chefe? Ele é branco, rico, de olhos azuis e toma banho todos os dias!
— Eu sei, eu sei. Mas tem um micropênis. Solta.
(irado) Seu filho de uma comerciante de sexo! Me dê uma taça de vinho e coloque Roberto Carlos pra você ver! Te mato, te mato!

6 comentários:

Carol "Mozão" Mendes disse...

Ai, ficou
adjetivo relativo ao líquido liberado do falo após satisfação sexual (ah, sim, e é um neologismo).

samya disse...

Eu gostaria de ter escrito isto. Por um milhão e meio de motivos pelo menos.
Otima semana para você.

Jens disse...

Camarada Marconi.
Porra, cada vez melhor. Não sei o que andastes fazendo durante as férias. Mas te fez bem.
Um abraço. Boa semana.

GUGA ALAYON disse...

meu, genial

Neo-cid disse...

muito boa!

chest disse...

Lembra o Monty Python, porém...
http://www.youtube.com/watch?v=8tmLvzubP3I&feature=related