30 janeiro, 2008

JEITINHO


— Alô? É o senhor Adroaldo?
— Infelizmente.
— Senhor Adroaldo, nós estamos com sua sogra, sua mulher e seus três filhos. Isso aqui é um seqüestro, tá me entendendo?
— Que absurdo! Deve tá havendo algum engano.
— Como assim? O senhor não tem mulher e filhos?
— Ter, tenho. Mas eu já fui seqüestrado semana passada, companheiro. Duas semanas atrás, foi a minha mãe. Isso já é abuso. Vou ligar pro sindicato de vocês!
— Não vai adiantar, seu Adroaldo. O senhor não tem lido jornais?
— Claro que não. Fiz a assinatura há um mês, porque a moça insistiu tanto, me oferecendo uma promoção em que ganharia patins de gelo e duas clepsidras, mas até agora não chegou nada. Queria até reclamar, mas por algum motivo, logo depois que adquiri uma outra promoção pra essa linha telefônica, em que ganhei dois micos-leões e um moto-contínuo, ela parou de funcionar. Aliás, será que você poderia...
— Não, seu Adroaldo. Isso não é conosco. Nosso departamento é o de seqüestro. O que ia dizer é que não adianta ligar pro sindicato. Ele tá nos apoiando nessa.
— Sei. Em troca de cargos na administração, né? Tudo bem, mas você há de convir que eu já fiz minha parte pelo bem do país. Ontem mesmo levaram meu carro. Três dias atrás paguei os juros do cheque especial. As mensalidades do plano de saúde e da escola das crianças estão em dia!
— Já disse que isso não é conosco, seu Adroaldo. Nós somos do departamento de seqüestro, o senhor é surdo?
— De um ouvido. Tudo bem, eu admito. Não tenho plano de saúde pra mim, meu dinheiro não daria pra família toda. Perdi a audição num atendimento do SUS e...
— Seu Adroaldo! Pela última vez: nós estamos ligando pra pedir o resgate pelos seus familiares! Vamos logo com isso. O senhor sabe quanto custa um interurbano?
— Claro, claro. Eu tenho uma adolescente em casa. Ou melhor, tinha. Quanto é que vocês querem?
— Um milhão.
— Ha, ha, ha! Ai, assim você me mata de rir. Ui, essa foi boa.
— Seu Adroaldo? O senhor tá bem?
— Com certa dificuldade pra respirar. Não ria assim desde que quitei a última parcela do IPTU. Você é bom nisso. Sabia que podia fazer humor?
— Já disse que esse não é o nosso departamento, senhor Adroaldo. Isso aqui é uma organização bem fundada. Deixamos o humor pra ministros e outras autoridades. Como é que é? Quer a família de volta ou não?
— Amigo, vamos ser razoáveis. Eu não trabalho em ONG ou qualquer outra organização sem fins lucrativos pra ter todo esse dinheiro. Será que não podemos negociar? Por exemplo, qual é o preço sem minha sogra?
— O senhor tá pensando que isso aqui é brincadeira, seu Adroaldo? Só negociamos o pacote fechado. O máximo que podemos fazer é dar umas porradas na velha.
— Tudo bem. E divide em quantas vezes?
— Já que o senhor aceitou colaborar, fazemos em seis parcelas.
— Que é isso! Vamos fazer em doze, ahn? E num precinho camarada. Aceita cartão?
— Todos os com juros escorchantes.
— Perfeito. Vamos fazer o seguinte, então: doze mensalidades de cinco mil, no cartão, pode ser?
— A partir do próximo mês?
— Próximo mês, não. Levaram o carro, mas deixaram o IPVA. Vamos fazer pra abril, que tal?
— Eita gente pechincheira! Por essas e outras é que às vezes penso em transferir a empresa pra Escandinávia! Tudo bem, senhor Adroaldo. Doze mensalidades de dez mil, no cartão.
— Oito mil, ahn? Oito mil é um preço justo. Vocês dão nota?
— Por esse preço? O senhor tá louco!
— Certo, certo. Eu entendo. Com uma carga tributária dessas não há ambiente para negócios. Sete mil, sem nota, então. Pagamento pra abril. Tá fechado.
— Oito mil!
— Sete mil e uma orelha a menos de minha sogra. Não se fala mais nisso.
— Ok. Mas o senhor paga o frete. Entregamos a mercadoria amanhã. (desliga)
— Amanhã? (colocando o fone no gancho) Duvido. Daqui a quinze dias mandam um e-mail pedindo desculpas pelo atraso ou dizendo que não havia a mercadoria no depósito. Seja como for, me dei bem. O país pode não ser organizado, mas pelo menos a gente conta com o nosso jeitinho.

7 comentários:

Ane Brasil disse...

Grande Marconi!
Bom texto.
E tens razão, do jeito que as coisas vão, nada tem jeito mesmo!
(e nem adiant o jeittinho)
Sorte e saúde pra todos!

disse...

Pela-minha-maezinha-que-está-no-céu!!
Estamos quase lá...

Franciel disse...

Além de ignorar a obra do glorioso Gordurinha, vejo agora você também desconhece outro gênio, Raimundo Sordado. Caso contrário, saberia que "não tem jeito que dê jeito".

Carlos (a.k.a. Dogmático) disse...

Hahaha! Ótimo texto! Voltou em 2008 com tudo, hein?

Abraço,
Carlos

Anny disse...

Muito bom. O Ulisses me indicou e vim dar uma conferida.
Até mais.

Jens disse...

Porra, viadão, eu também voltei pra atazanar a tua existência.
Muito legal a crônica. Prontinha pra ser copiada, sem o devido crédito.
Um tapaço nas costelas.
Até o próximo post aí em cima.

Pablo Pamplona disse...

Genial esses seus contos!!! Acabo de conhecer seu blog, via um conto do Mão Branca... já está favoritado :D
abs,