01 fevereiro, 2008

COMO LIDAR COM POMBOS – UM ESTUDO DE CASO


Eu era um feliz morador de Moema, dos poucos bairros paulistanos onde ainda é possível ver flora e fauna: passarinhos que acordam você pela manhã, árvores que se espalham pelas ruas e jumentos que compram pão ao cair da tarde, chamando Lula de ladrão e, coerentemente, votando de quatro em quatro anos em Maluf.

Ao contrário dos torneios medievais, no entanto, a vida não é justa. E os credores, seres sem coração, levam tudo ao pé da letra de câmbio. De maneira que tive de me mudar recentemente para Santa Cecília, localidade perto do centro. Pelo menos é o que me dizem, e eu, cujo senso de localização se assemelha ao de um hebreu no deserto, acredito. Deve se situar, ao menos, ali pelo segundo ou terceiro círculo.

O apartamento é bom. Para se ter uma idéia, conta com um sistema de drenagem bastante eficiente, o qual canaliza os pequenos dilúvios que caem sobre a cidade no verão, criando cachoeiras que não fariam feio se comparadas aos jardins da Casa da Dinda. Não apareceu nenhuma carpa por aqui ainda. Mas, em compensação, quando vemos a chuva escorrer pelo taco e lembramos do aluguel, temos certeza de que fomos roubados.

Quanto ao verde, se é verdade que o bairro não o tem em abundância, o prédio possui uma pequena reserva de vida silvestre no mofo que embeleza sua fachada. Além disso, é sempre possível matar a saudade da cor em dias de jogo do Palmeiras. E, assim, íamos levando tranqüilamente a vida, sem reclamações ou nostalgia, entre uma tentativa de suicídio e outra.

Contudo, a biodiversidade em São Paulo é gigantesca. Destarte, ainda que seja possível ver quadrúpedes da mesma qualidade dos de Moema, por aqui os animais são um pouco diferentes. Tínhamos trocado de bom grado os beija-flores por baratas, os pintassilgos por ratos e os novos ricos por velhos pobres. Porém, não contávamos com a existência por essas bandas de um bicho asqueroso, típico da cidade. Não, não me refiro ao Otávio Mesquita e, sim, aos pombos.

O pombo, como se sabe, surgiu no sétimo dia da Criação, quando Deus tinha ido para Ilhabela, mas o diabo, que trabalha sob o regime da CLT, estava desperto e pronto a se vingar de sua queda. Daí terem surgido o pombo, o Chávez e o IR Pessoa Física. Sendo que, dos três, o Chávez e o pombo são os únicos que grulham.

Ora, após duas semanas acordando ao som de pombos é que me dei conta do motivo por que a humanidade, inovando o sistema de correios, criou o sedex. E, confesso, passei a escutar com outros ouvidos o rap, o funk e a música sertaneja. As harpias não me pareciam mais criaturas tão horrendas e, às vezes, me pegava pensando com carinho na sogra.

Vendo que minhas olheiras atingiam dois UJVM (Unidade Jarbas Vasconcelos de Medida), minha mulher me sugeriu que tentasse criar amizade com as aves, comprando algo para elas comerem.

Não sou muito sociável e o máximo que chegara de confraternizar com aves insuportáveis até então tinha sido ouvir discursos de tucanos. No entanto, como último recurso, resolvi, uma bela tarde, ir ao supermercado e comprar alimento apropriado aos bichos.

Ah, irmãos, que atitude sábia! São Francisco não obteria resultado mais satisfatório com essas amáveis espécies. Imaginem que, desde que lhes dei de comer, faz cinco dias agora, não ouvimos mais um único som. E isso tudo — oh, bichinhos frugais! — sem que eu tenha lhes dado mais que 100ml de arsênico.

15 comentários:

Taxitramas disse...

Fazia tempo que não dava as caras por aqui. Continuas com a pena afiada, meu caro Marconi.
Há braços!!
Mauro Castro

blogdocejunior disse...

Pombos são ratos com asas... e se deixar emporcalham tudo!
Para um problema radical, nada como uma solução idem!!! rsrs
Um abração.

Diego Jock disse...

Marconi,

Morei um ano em Santa Cecília, na pracinha do metrô mesmo. É próximo daí?

iagê disse...

Marconi,

A tua definição de pombo me foi mais prazerosa que a época em que suspendi minha convicção sobre o desarmamento e comecei a descer chumbo nesses bichos (eram 6 casais na minha casa, mais os respectivos filhotes que pipocavam a cada dia).

Ah, tente sagu também. Não, não precisa cozinhar: apenas deixa as bolinhas pra eles comerem. E incharem. Incharem. Icharem. Incha... BOOM!

Um abraço!

Ulisses Adirt disse...

Suas desgraças fazem um bem danado aos seus escritos...

Sofia disse...

HAHAHA... parece que tô vendo tua cara e tua casa! Ficou massa! beijo, saudade.

Prof Toni disse...

Marconi, teu recesso tá mais para Forense do que professor. Nós, humildes lacaios da pedagogia, costumamos trabalhar nas férias, enquanto os doutos causídicos...

Ane Brasil disse...

BAh, mermão, lamento te dizer mas cê tá fudido.
Morando no centro de São Paulo (aliás, qualquer lugar de São Paulo...) e com pombos na volta...
Ainda bem que você é um homem sábio hehehe
Sorte e saúde pra todos - menos pros pombos!

Saramar disse...

Não sei como sobrevivi esse tempo sem ler suas sábias postagens!

Perdoe-me pela ausência. o trabalho está me tomando os dias, as noites e as madrugadas.
Mas, agora, volto, para chorar de rir e me encantar com seu talento ímpar.

beijos, bom carnaval

Vives disse...

Na qualidade - qualidade? - de também morador do Santa Cecília, digo que endosso os problemas acima listados, que compactuo com a solução apresentada e que, acima de tudo, rolei de rir com o texto.

Serbão disse...

marconi, me junto a você no clube dos que abominam esta praga.
uma das coisas que vieram há 200 anos junto com a corte de dom João VI.
e tem gente que festeja a chegada da família real...

Moacy Cirne disse...

Como lidar com pombos? Aqui, na Cinelândia, alguns sabem fazê-lo. Mas essa é outra história. Ah, sim: a postagem anterior, sobre apelidos, está absolutamente hilária. Um grande abraço.

adelaide amorim disse...

Tudo que falta a eles é um objetivo, coisa que você pode resolver facinho. Experimenta fritar ou assar alguns, vai ver que delícia.

Jens disse...

Aqui também tinha uns pombos que me enchiam o saco. Alimentei-os e, depois que estavam bem gordinhos, comi-os (mãe, filho e pai) assados no espeto. É uma delícia, como bem observou a Adelaide. Caso não tenhas predileção por carne de pombo, congele-os, depois de devidamente abatidos e depenados, e envia-os pra mim por Sedex (paga aí que eu estou sem grana). Serei eternamente grato.
Um chute nas canelas. Vou pro outro post.

Túlio disse...

Aqui é no chumbinho(não aquele pra matar ratos, bem entendido)!