31 janeiro, 2008

DIANTE DA TV – APELIDOS


— Como assim? Separou por quê, cara? Vocês pareciam se dar tão bem...
— A Marly, ela...
— Quer um filho? Toca a bola, toca a bola!
— Que nada! Você não vai acreditar.
— Te traiu?
— Pior. Muito pior. Chuta! Pra fora... A Marly... A Marly me chamou de “Nhonhonga”, cara. Pronto, disse.
— Nononga?
— Antes fosse! “Nhonhonga” mesmo. Com “h” e tudo.
— Peraí, bicho, tu tá me dizendo que separou porque a Marly te colocou um apelido? Ih, lá vem o contra-ataque!
— Desarmou. Apelido? “Nhonhonga”? Isso é apelido que se me apresente? Se ainda fosse “Xurungo” ou “Pitoca”... “Nhonhonga” não dá! Não tem volta.
— Tu ficou louco, Abelardo? Tu vai jogar fora 5 anos de casamento por causa de um Ninhonga à toa?
— Nhonhonga! Nho! Se fosse Ninhonga ainda haveria diálogo. O “i” tem lá sua aplicabilidade. Agora, “Nhonhonga”, francamente... É chamar o sujeito de débil mental, no mínimo. Assim ele vai matar o goleiro.
— De rir. Isso não é motivo, rapaz, não é motivo mesmo. A Graziela chama o Zé Augusto de “Sartrinho” e nem por isso eles se separam.
— “Sartrinho” é elogio, Pereira. Quer dizer que o sujeito é culto, gosta de filosofia e...
— O Zé Augusto nunca abriu um livro na vida, Abelardo. Sartrinho é porque ele é zarolho e parece um sapo, ou tu nunca percebeu? Cavalo!
— Cavalo é você! Não admito que...
— Chamei de cavalo o zagueiro, abilolado. Botou a bola pra escanteio. E outra: nunca ouvi dizer, por exemplo, que o Toquinho ia deixar de fazer música com o Vinícius porque chamava ele por esse apelido depreciativo.
— Grande comparação! Me admira você, Pereira, que acabou o relacionamento com a Ana Rita só porque a moça era lacaniana. E ainda veio com aquela história de incompatibilidade de gênios.
— E não foi? Eu gosto do Freud, ela do Lacan. Incompatibilidade de gênios mais literal, eu desconheço. Isso é coisa que...
— Derruba.
— Que derruba qualquer relação, exatamente.
— Não, derruba o atacante, ele vai marcar o gol. Tira! Isso... Você não conhece a Marly, Pereira. Ela tem mania de apelidos. Sabe como ela chama a nossa casa?
— Residência?
— Não. Lança pro ataque, imbecil! Olha aí, o jumento.
— Lateral... Moradia?
— “Ninho de amor”.
— Não acredito.
— Pois pode acreditar, “ninho de amor”. Ou “ninho”, para os íntimos. “Vamo voltar pro nosso ninho?”
— Não, não acredito que o juiz marcou pênalti, ah lá. Pênalti. Isso não é motivo.
— Como não? O cara só faltou esfaquear o centroavante!
— Não é motivo pra se separar, Abelardo. Se você não gosta de algumas palavras que ela usa, que sentem e conversem sobre o assunto. A Maga, por exemplo. Perdeu o pênalti, uh, uh! Pra fora... A Maga, lembra da Maga? Pois então, ela chamava uísque de “vísque”, pra parecer engraçadinho, sabe como é? Um dia disse pra ela que não gostava e...
— A Maga aceitou? Duvido. Com aquele gênio dela. Fala a verdade: ela parou de falar “vísque”?
— Não, parou de beber. Ih, olha lá, falta pra gente na meia-lua.
— Não vou nem olhar. Com esse daí não vai ser gol nunca. Pra encerrar o assunto de uma vez por todas, Pereira. Sabe como a Marly chama o meu pinto? Adivinha.
— Ah, cara, apelido pra pinto toda mulher...
— “Pimpolho”.
— Não acredito!
— Que foi? Perdeu o gol?
— Não, no apelido. Separa.

30 janeiro, 2008

JEITINHO


— Alô? É o senhor Adroaldo?
— Infelizmente.
— Senhor Adroaldo, nós estamos com sua sogra, sua mulher e seus três filhos. Isso aqui é um seqüestro, tá me entendendo?
— Que absurdo! Deve tá havendo algum engano.
— Como assim? O senhor não tem mulher e filhos?
— Ter, tenho. Mas eu já fui seqüestrado semana passada, companheiro. Duas semanas atrás, foi a minha mãe. Isso já é abuso. Vou ligar pro sindicato de vocês!
— Não vai adiantar, seu Adroaldo. O senhor não tem lido jornais?
— Claro que não. Fiz a assinatura há um mês, porque a moça insistiu tanto, me oferecendo uma promoção em que ganharia patins de gelo e duas clepsidras, mas até agora não chegou nada. Queria até reclamar, mas por algum motivo, logo depois que adquiri uma outra promoção pra essa linha telefônica, em que ganhei dois micos-leões e um moto-contínuo, ela parou de funcionar. Aliás, será que você poderia...
— Não, seu Adroaldo. Isso não é conosco. Nosso departamento é o de seqüestro. O que ia dizer é que não adianta ligar pro sindicato. Ele tá nos apoiando nessa.
— Sei. Em troca de cargos na administração, né? Tudo bem, mas você há de convir que eu já fiz minha parte pelo bem do país. Ontem mesmo levaram meu carro. Três dias atrás paguei os juros do cheque especial. As mensalidades do plano de saúde e da escola das crianças estão em dia!
— Já disse que isso não é conosco, seu Adroaldo. Nós somos do departamento de seqüestro, o senhor é surdo?
— De um ouvido. Tudo bem, eu admito. Não tenho plano de saúde pra mim, meu dinheiro não daria pra família toda. Perdi a audição num atendimento do SUS e...
— Seu Adroaldo! Pela última vez: nós estamos ligando pra pedir o resgate pelos seus familiares! Vamos logo com isso. O senhor sabe quanto custa um interurbano?
— Claro, claro. Eu tenho uma adolescente em casa. Ou melhor, tinha. Quanto é que vocês querem?
— Um milhão.
— Ha, ha, ha! Ai, assim você me mata de rir. Ui, essa foi boa.
— Seu Adroaldo? O senhor tá bem?
— Com certa dificuldade pra respirar. Não ria assim desde que quitei a última parcela do IPTU. Você é bom nisso. Sabia que podia fazer humor?
— Já disse que esse não é o nosso departamento, senhor Adroaldo. Isso aqui é uma organização bem fundada. Deixamos o humor pra ministros e outras autoridades. Como é que é? Quer a família de volta ou não?
— Amigo, vamos ser razoáveis. Eu não trabalho em ONG ou qualquer outra organização sem fins lucrativos pra ter todo esse dinheiro. Será que não podemos negociar? Por exemplo, qual é o preço sem minha sogra?
— O senhor tá pensando que isso aqui é brincadeira, seu Adroaldo? Só negociamos o pacote fechado. O máximo que podemos fazer é dar umas porradas na velha.
— Tudo bem. E divide em quantas vezes?
— Já que o senhor aceitou colaborar, fazemos em seis parcelas.
— Que é isso! Vamos fazer em doze, ahn? E num precinho camarada. Aceita cartão?
— Todos os com juros escorchantes.
— Perfeito. Vamos fazer o seguinte, então: doze mensalidades de cinco mil, no cartão, pode ser?
— A partir do próximo mês?
— Próximo mês, não. Levaram o carro, mas deixaram o IPVA. Vamos fazer pra abril, que tal?
— Eita gente pechincheira! Por essas e outras é que às vezes penso em transferir a empresa pra Escandinávia! Tudo bem, senhor Adroaldo. Doze mensalidades de dez mil, no cartão.
— Oito mil, ahn? Oito mil é um preço justo. Vocês dão nota?
— Por esse preço? O senhor tá louco!
— Certo, certo. Eu entendo. Com uma carga tributária dessas não há ambiente para negócios. Sete mil, sem nota, então. Pagamento pra abril. Tá fechado.
— Oito mil!
— Sete mil e uma orelha a menos de minha sogra. Não se fala mais nisso.
— Ok. Mas o senhor paga o frete. Entregamos a mercadoria amanhã. (desliga)
— Amanhã? (colocando o fone no gancho) Duvido. Daqui a quinze dias mandam um e-mail pedindo desculpas pelo atraso ou dizendo que não havia a mercadoria no depósito. Seja como for, me dei bem. O país pode não ser organizado, mas pelo menos a gente conta com o nosso jeitinho.

28 janeiro, 2008

FÉ, HERESIARCAS!

Senhores, sei que havia grande esperança da parte de vocês, mas o fato é que não morri. Depois de amanhã, dia 30/01, este blog voltará a suas atividades anormais. E quero que a Dercy Gonçalves morra algum dia se eu estiver mentindo. Aguardem.