DEPRESSÃO
Nessas ocasiões, costumo ficar tão comunicativo quanto um peixe. Com a diferença de que não abro a boca e, deprimido, tampouco consigo tomar banho. Uma montanha seria capaz de se movimentar mais do que eu no auge da crise — e isso, mesmo sem o auxílio de Maomé. O Gianecchini seria mais expressivo, o ex-ministro Waldir Pires teria um poder de reação maior do que o meu.
Especialmente anteontem, o surto depressivo fez-me sentir como a máquina estatal: totalmente paralisado. Tinha a sensação de que estava dentro de um filme Sueco. Cogitei mesmo da possibilidade de ser pura criação de um escritor eslavo.
A coisa chegou a tal ponto que, num esforço extremo, resolvi me olhar no espelho para conferir se acaso não me transformara num blatídeo. Em seguida, imaginando algo ainda pior, verifiquei se meus cabelos continuavam na testa, de maneira a constatar não haver me metamorfoseado em Paulo Polzonoff.
Mas não. Quanto ao aspecto exterior, era visível apenas um certo olhar apertado. Deitado, mirava a distância. O que me fez suspeitar ter, na realidade, virado Dorival Caymmi — em razão disso, até principiei a composição de um pedaço de uma sílaba de uma palavra que iniciaria um futuro começo de verso.
Em suma, trancado no quarto, com a disposição para viver da hiena Hardy e me alimentando como um sudanês, fatalmente passaria desta para, senão pior, ao menos mais brega: uma série de mensagens póstumas seriam escritas na minha página de recados do Orkut.
No entanto se, como diz o vulgo, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, aparentemente por trás dos pequenos e gordos também. Prendado com mais de um dos dons de Asclépio, nem só de polichineloterapia vive o meu bem. Criatura sensível e maternal, além de extremamente criativa, descobri que também para a depressão desenvolveu ela um método terapêutico bastante eficaz, o qual, em atual processo de patenteamento, dentro em breve será a salvação de deprimidos de todo o mundo.
Ao me ver jogado na cama, freudianamente recolhido sobre o próprio corpo e repetindo mentalmente a frase “eu não passo de um Morrissey, eu não passo de um Morrissey”, em vez de usar do procedimento dos ignorantes e supersticiosos, administrando-me carinho, atenção e outras mezinhas da inculta medicina popular, de péssimas conseqüências para a saúde do doente, entrou ela a fazer uma grande faxina na casa.
— Você vai se sentir melhor — afirmou, colocando o avental.
De fato. Escorraçando-me de um cômodo a outro, juntamente com móveis, gatos e tapetes, eventualmente passando a vassoura sobre minha cabeça ou batendo com o pano de chão no meu olho sem querer, produziu-me minha querida e adorada, ao longo de todo o dia, um estado de bem-estar com que os teóricos do welfare state jamais sonharam.
Não cheguei a perguntar, mas ao que tudo indica, a terapia foi baseada no atendimento do Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ou de algum outro hospital público. E, de tão boa, já despertou o interesse do governo americano, que pensa adaptá-la a Guantánamo.





















