DESMEMORIADOS E DISTRAÍDOS ANÔNIMOS
O problema a que aludo e que, quando menos, me dá de antemão a oportunidade de realizar um sonho de infância ao usar o verbo “aludir”, é este: por que será que, existindo instituições sérias e louváveis como os Alcoólicos Anônimos (AA) e os Cocainômanos Anônimos (CA), não se seguiu o seu exemplo para criar no país os Desmemoriados e Distraídos Anônimos (DDA)?
Quanto a mim, que parei de beber faz tempo, dedicando-me atualmente apenas à ingestão do álcool diluído em farinha, e que só encaro pó em ocasiões especiais, como o dia da faxina, não sentiria falta dos dois primeiros. Mas, sendo portador de uma memória e de uma percepção de ameba morta (sem ofensa aos rizópodes), confesso que me incluiria resignado entre os freqüentadores do último grupo.
Claro que o maior entrave a uma reunião do DDA seria fazer com que os associados se lembrassem da data e do local das assembléias. Nada, contudo, que com um pouco de boa vontade, determinação, desprendimento e, por fim, a implantação de um chip no cérebro e o direcionamento por GPS não pudessem resolver.
Uma vez retirado o empecilho, seria preciso também fazer pequenas adaptações no auditório reservado ao encontro. Como, por exemplo, pregar plaquetas nas paredes com dizeres simples, do tipo: “Aquele negócio preto, com braços, ali, é uma poltrona” ou “O auditório fica ali na frente, ó”, ou ainda “Não faça xixi no companheiro do lado, para isso temos o banheiro”.
É bem verdade que haveria os recalcitrantes, os quais insistiriam em passar todo o tempo de pé, com o olhar perdido, tirando meleca do nariz, introduzindo-a na boca e cantando “Adocica”. Mas, para esses haveria, como nos anfiteatros gregos, um profissional responsável por guiá-los gentilmente até seus lugares e, em casos extremos, impedir que lambessem as poltronas.
Iniciada a reunião, um orador faria a explanação habitual, ressaltando a importância de separar o lixo orgânico e não jogar senão detritos biodegradáveis no solo, e alertaria para os males causados por uma dieta transgênica. Nesse momento, seria cutucado por um colega, que lhe lembraria ser a palestra sobre a falta de memória e atenção, e ele mudaria de assunto.
Consertado o erro, a certa altura do discurso convidaria a subir ao palco aqueles que estivessem dispostos a dar um depoimento sobre a amnésia. Então, animado, um cidadão de nome Oblívio de Souza se levantaria e se encaminharia para a saída, retornando minutos depois com a ajuda do profissional responsável pela contenção dos desatentos, que o levaria para o lugar indicado. Ali, depois de dar duas mordidas no microfone, Oblívio finalmente declararia:
— Hoje faz 112 dias, duas horas, quinze minutos e três segundos, digo, quatro, digo, cinco, digo, seis...
Alguém tossiria para chamar sua atenção. Despertando, Oblívio iria se recompor:
— Enfim, digo com orgulho que hoje faz 112 dias que eu não esqueço o nome da minha mulher!
A platéia ficaria em silêncio absoluto. Mas um dispositivo colocado embaixo das poltronas seria acionado, dando-lhe um choque que a faria lembrar de bater palmas, entusiasticamente. Ao que Oblívio prosseguiria:
— Obrigado, obrigado. Bom, mas, sendo assim, eu trouxe minha mulher aqui para dizer a ela, ao vivo, que... Ué, cadê a minha mulher? Alguém viu minha mulher aí? Ô! Cristina! Digo, Sandra! Quer dizer, Paula! Helenilda, meu bem, cadê você?
A princípio, a situação seria um pouco embaraçosa. Porém, no minuto seguinte, ninguém se lembraria mais da gafe. Depois, outros bravos desmemoriados e distraídos dariam também seu depoimento, o que contribuiria definitivamente para o aumento da cultura geral de seus pares, uma vez que raramente falariam sobre o assunto em pauta.
No final do encontro, todos se abraçariam e, renovados, sentindo retornar aquela vontade de viver há tanto perdida e motivados para perseguir seus projetos pessoais e profissionais, voltariam a seus lugares, onde permaneceriam até a próxima reunião, pois ninguém saberia onde deixou a chave do carro.



















