13 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (FIM DA PRIMEIRA PARTE)


Diante daquela cena, Jesus, cujos recentes acontecimentos [Atendendo a pedidos de fãs do presidente, explicamos: "acontecimento", em linguagem culta, também tem o sentido de "peripécia", "façanha", "aventura"] haviam deixado completamente confuso, se viu como se inteiramente dentro de um livro de Milton: no Paraíso, perdido. Estava certo de que através de algum processo taumatúrgico próprio dos deuses pagãos, o filósofo tinha se metamorfoseado no dramaturgo. Em profundo choque, parecia o governo ou o cabelo de Tônia Carrero: não conseguia se mexer. Somente após alguns instantes, levantando-se, falou:
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— Só... Sócrates?
— Xingamento não, hein? — rebateu Aristófanes, aproximando-se do Senhor. — Tô morto, mas exijo respeito.
— Quem é você?
— Quem é você pergunto eu. Peraí. Essa barba, esses pés, esses cabelos longos... Safo, como você emagreceu!
— Hilário. Prazer, Jesus.
— Ah, o filho do Homem.
— Não, o Filho do homem, a maiúscula é no “f”.
— Taí uma coisa que nunca entendi. Isso e a Santíssima Trindade. Vocês fizeram uma religião muito complicada, rapaz.
— Vocês, vírgula. Culpa de Paulo. Por mim, tinha me mantido no judaísmo mesmo, sabe? Tudo bem, tem aquele lance de não comer carne de porco mas, enfim, é melhor do que comemorar o Natal em família. Peraí, você é grego?
— Um dos últimos. Aristófanes.
— O comediógrafo? Cê sabe que na Índia eu assisti a uma montagem de “Lisístrata”? Lembro até que, na época, Madalena comentou: “Tá vendo o que eu vou fazer se você resolver salvar o mundo de novo?”
— Boa. Você não teria visto Ésquilo por aí?
— Não. Mas, vem cá, você pode me explicar o que tá acontecendo por aqui? Sério. Agora entram maometanos, gregos, até deuses pagãos no Céu!
— Eu entendo a sua revolta. Venho lutando contra o relativismo cultural você não era nem nascido, meu jovem. Depois do século XIX , nem Deus escapou. Dizem até que Nietzsche teria acorrentado teu pai e agora seria o comandante do Paraíso...
— Impossível, falei com Papai há pouco.
— Bom, é o que espalham por aí. Eu também não dou ouvidos à Fama.
— Tá, tudo bem. E como é que você veio parar aqui, pode dizer?
— Então... Há alguns séculos já os caminhos que ligam o Hades ao Céu cristão foram desimpedidos. Que se há de fazer? Há muito antropólogo no mundo.
— Isso quer dizer que você sabe como sair do Céu?
— Ora, mas é claro. Por quê?
— E saberia como chegar à Terra?
— Não diga! Você quer voltar lá? Que é que você quer fazer lá, por Apolo?!
— Ajuda ou não ajuda?
— Claro. Com uma condição.
— Qual?
— No caminho eu te explico...
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Aristófanes indicou a ponta da praia oposta à praça em que o Senhor estivera antes com os patriarcas, e os dois seguiram caminhando pela beira da praia. Já tinham se afastado bastante quando a cabeça de Sócrates ressurgiu de debaixo da terra. Cuspindo areia, o filósofo lamentou:
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— Por Atena! Antigamente eles pelo menos ofereciam cicuta antes de enterrar a gente!

CAPÍTULOS ANTERIORES
Capítulo 14
Capítulo 13
Capítulo 12
Capítulo 11
Capítulo 10

10 comentários:

Anônimo disse...

Como assim, "cujos recentes acontecimentos"? Recentes acontecimentos de quem? Pô, já não chega o Lula? Pobre língua portuguesa...

Marconi Leal disse...

Até hoje, nunca vi ninguém falar da ingnorância de Lula, que não é pequena, sem em seguida cometer uma maior ainda. Você não é exceção, Anônimo, meu cavalo. Não é à toa que tem medo de assinar o nome. Faça a pergunta mais mil vezes, reze a Deus e tente a análise sintática. Talvez você obtenha a resposta. Dou uma dica: "cena" não é uma pessoa.

Anônimo disse...

O que o anônimo tapado lá de cima não entende, Marconi, é que acontecimento tem também o sentido de "peripécia", "sucesso". As peripécias de Jesus, ô anta!

Rodrigo Dantas

Anônimo disse...

Mas é isso que eu estou dizendo, ô gênios! Já viu alguém ficar confuso com os próprios acontecimentos? Só se estiver agindo sob hipnose...

Marconi Leal disse...

Sua emenda foi pior do que o soneto, Anônimo, minha besta. Primeiro é patente que não era isso o que você estava dizendo. Você achava, em sua ignorância lulista, que acontecimentos não tinham dono. Mas, mesmo que eu acreditasse na sua tentativa de sair por cima, ainda assim você estaria errado: pode-se sim ficar confuso com as próprias peripécias, aventuras, acontecimentos. Só um debilóide da sua marca, que ainda por cima tem medo de assinar o próprio nome, não entende isso. Vá ler o Jacaré Banguela ou o Kibe Louco que são sites mais para o seu bico, jumento.

Houaiss disse...

As peripécias de alguém são aquelas por que se passou ou de que se utilizou. Logo, acontecimentos podem, sim, deixar o próprio feitor delas confuso. Donde se conclui que o Anônimo medroso é meu filho.

Rodrigo Dantas disse...

Essa da hipnose mostrou toda a sapiência do medroso anônimo, grande filólogo da nossa língua. Meu Deus, mas tem idiota pra tudo nesse mundo!

Anônimo disse...

Está certo, está certo: “Jesus, cujos sucessos haviam deixado completamente confuso…”; “Jesus, cujas peripécias haviam deixado completamente confuso…”; “Jesus, cujas façanhas haviam deixado completamente confuso…”; “Jesus, cujas peripécias por que passou ou de que se utilizou haviam deixado completamente confuso…”;

Maravilhas de estilo e clareza, certamente. Dignas de deixar o Padre Vieira com inveja...

Marconi Leal disse...

Ué? Já mudou de novo, anonimozinho medrosinho, minha égua? Primeiro, era a palavra "acontecimento" que não podia ser usada. Depois, vendo que tinha falado lulice, mudou para "já viu alguém ficar confuso com os próprios acontecimentos". Vendo que mais uma vez lulara, se sai agora com crítica ao estilo. Desista, meu velho. Ninguém aqui se convenceu. Vá ler a Capricho ou a Caras. Lá os textos são claros e diretos.

Rodrigo Dantas disse...

Da próxima vez ele vai reclamar da fonte, que é Trebuchet!