10 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (13)


— Alguém me ajude! Socorro! Por favor, alguém me ajude! — expunha silogisticamente sua posição Sócrates.
Mas, experimentado em dialética desde os tempos de Ulisses, o mar o envolvia com líquidos argumentos por todos os lados e o fazia debater em vão. Ao final da peleja oratória, teria findado fatalmente por calar o filósofo. Isso, caso Jesus, que via a cena de longe, não tivesse falado:
— Levanta-te e anda!
— Ha! — respondeu o filósofo, ainda se afogando. — Pra você é fácil falar. Mas eu sou cético.
— Não, sua besta! Não se trata de milagre. É que a gente tá no raso. Já dá pé.
— Ah... — sorriu amarelo o zetético, cessando o desespero e fazendo em seguida o que o Mestre lhe havia dito.
Chegando à praia, Sócrates tirou a túnica e se jogou na areia, resfolegando. O Filho do homem juntou-se a ele pouco depois, algo irritado:
— Por que vocês gregos têm essa mania de tirar a roupa o tempo todo, hein? Será possível que vou ser obrigado a ficar vendo o teu não-circuncidado aí?
— Grande coisa!
— Grande? É fácil dizer isso quando se tem prepúcio. Queria ver você diante de São Serapião. Agora, vem cá, será que você pode me explicar uma coisa? Que esculhambação é essa, ahn? Primeiro Maomé, depois Vênus...
— Afrodite! Olha o romanismo.
— Afrodite, tudo bem. Mas será que você pode me explicar o que é que tá fazendo aqui?
— Ué? O que eu tô fazendo aqui! O que é que você tá fazendo aqui! Nunca te vi por essas bandas...
— Bom, eu estar aqui talvez tenha certa relação com o fato de ser o filho de Deus e estarmos no paraíso cristão.
— Iiiihhh... Lá vem ele com esse papo de religião.
— Era só o que faltava. Você vai me dizer que a gente tá no Hades, por acaso?
— Que mané Hades! Tu ainda tá nessa, rapaz? Não nega que é um cristão do primeiro século, todo influenciado por helenismos.
— Tá, tá. Agora, quer me fazer o favor de dizer o que você tá fazendo aqui?
— Como você é mal-agradecido! Depois de tudo o que Platão e Aristóteles fizeram por você, graças a mim! É assim que você me recebe? Nietzsche me livre!
— Tudo bem. Não precisa se irritar. Só quero entender o que tá acontecendo.
— Você seria capaz de manter um segredo mesmo sob tortura?
— Sim.
— Duvido. Foi só os romanos darem algumas porradas pra você ir logo confessando ser Filho de Zeus, rei dos judeus, o escambau.
— Verdadeiramente hilário. Agora, diga: que segredo é esse?
— Antes, responda: qual é a prerrogativa de todo segredo?
— Prerrog... Que ele permaneça secreto, claro.
— Logo, se um segredo é contado, o que acontece?
— Ele deixa de ser secreto.
— Donde se conclui que um segredo não pode ser transmitido, certo?
— Certo.
— Ora, sendo assim, como você pede que faça algo que, uma vez realizado, destruirá a própria essência do ato? (CONTINUA)

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Capítulo 11
Capítulo 10

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