20 dezembro, 2007

FÉRIAS

Este blog não é professor, mas também ganha pouco e entra em recesso, de maneira que armarei a rede hoje e só voltarei a desarmá-la em janeiro, se o bom Pai assim desejar.

Aliás, por falar n’Ele, caso ainda acreditem no Senhor, peçam ao Onipotente, em suas orações, para não usar tanto de sua caridade e misericórdia para comigo no ano vindouro. Sei que o pobre está um tanto velho, mas tentem explicar a Ele que não sou Jó, por obséquio.

Espero que tenham umas boas entradas e felizes bandeiras. Abraço a todos — sobretudo a todas — e até o próximo ano.

13 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (FIM DA PRIMEIRA PARTE)


Diante daquela cena, Jesus, cujos recentes acontecimentos [Atendendo a pedidos de fãs do presidente, explicamos: "acontecimento", em linguagem culta, também tem o sentido de "peripécia", "façanha", "aventura"] haviam deixado completamente confuso, se viu como se inteiramente dentro de um livro de Milton: no Paraíso, perdido. Estava certo de que através de algum processo taumatúrgico próprio dos deuses pagãos, o filósofo tinha se metamorfoseado no dramaturgo. Em profundo choque, parecia o governo ou o cabelo de Tônia Carrero: não conseguia se mexer. Somente após alguns instantes, levantando-se, falou:
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— Só... Sócrates?
— Xingamento não, hein? — rebateu Aristófanes, aproximando-se do Senhor. — Tô morto, mas exijo respeito.
— Quem é você?
— Quem é você pergunto eu. Peraí. Essa barba, esses pés, esses cabelos longos... Safo, como você emagreceu!
— Hilário. Prazer, Jesus.
— Ah, o filho do Homem.
— Não, o Filho do homem, a maiúscula é no “f”.
— Taí uma coisa que nunca entendi. Isso e a Santíssima Trindade. Vocês fizeram uma religião muito complicada, rapaz.
— Vocês, vírgula. Culpa de Paulo. Por mim, tinha me mantido no judaísmo mesmo, sabe? Tudo bem, tem aquele lance de não comer carne de porco mas, enfim, é melhor do que comemorar o Natal em família. Peraí, você é grego?
— Um dos últimos. Aristófanes.
— O comediógrafo? Cê sabe que na Índia eu assisti a uma montagem de “Lisístrata”? Lembro até que, na época, Madalena comentou: “Tá vendo o que eu vou fazer se você resolver salvar o mundo de novo?”
— Boa. Você não teria visto Ésquilo por aí?
— Não. Mas, vem cá, você pode me explicar o que tá acontecendo por aqui? Sério. Agora entram maometanos, gregos, até deuses pagãos no Céu!
— Eu entendo a sua revolta. Venho lutando contra o relativismo cultural você não era nem nascido, meu jovem. Depois do século XIX , nem Deus escapou. Dizem até que Nietzsche teria acorrentado teu pai e agora seria o comandante do Paraíso...
— Impossível, falei com Papai há pouco.
— Bom, é o que espalham por aí. Eu também não dou ouvidos à Fama.
— Tá, tudo bem. E como é que você veio parar aqui, pode dizer?
— Então... Há alguns séculos já os caminhos que ligam o Hades ao Céu cristão foram desimpedidos. Que se há de fazer? Há muito antropólogo no mundo.
— Isso quer dizer que você sabe como sair do Céu?
— Ora, mas é claro. Por quê?
— E saberia como chegar à Terra?
— Não diga! Você quer voltar lá? Que é que você quer fazer lá, por Apolo?!
— Ajuda ou não ajuda?
— Claro. Com uma condição.
— Qual?
— No caminho eu te explico...
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Aristófanes indicou a ponta da praia oposta à praça em que o Senhor estivera antes com os patriarcas, e os dois seguiram caminhando pela beira da praia. Já tinham se afastado bastante quando a cabeça de Sócrates ressurgiu de debaixo da terra. Cuspindo areia, o filósofo lamentou:
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— Por Atena! Antigamente eles pelo menos ofereciam cicuta antes de enterrar a gente!

CAPÍTULOS ANTERIORES
Capítulo 14
Capítulo 13
Capítulo 12
Capítulo 11
Capítulo 10

11 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (14)


Sócrates olhou para todos os lados, certificando-se de que estavam sozinhos. Em seguida, sussurrou:
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— Trata-se de uma disputa.
— Disputa? Bem que eu desconfiava. Os hereges e pagãos querem tomar de assalto o nosso Paraíso.
— Não é nada disso.
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O filósofo voltou a perscrutar ao redor. Após o quê, sussurrou novamente: .
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— Cartas...
— Cartas conspiratórias, é isso? Você vem trazendo cartas conspiratórias do Hades. Meu Deus! O Pai precisa ser avisado. O profeta tá envolvido nisso?
— Tá.
— Meu próprio primo!
— Primo? Não sabia que você e Maomé eram parentes.
— Maomé? Então, Maomé faz parte da sedição? Claro! Tudo faz sentido. Acabo de descobrir, sem querer. Na verdade, quando disse “profeta”, tava me referindo a João.
— O Batista também joga?
— Não se faça de desentendido. Por isso Karl Marx tava com ele essa manhã...
— Marx? Peraí, mas desse jeito já tem seis. É gente demais.
— Que seis? Sei o quê?
— Seis jogadores: eu, Maomé, João Batista, Marx, Moisés e Abraão.
— Do que é que você tá falando, afinal?
— Do jogo de cartas que a gente tem toda semana! Eu, Maomé, Moisés e Abraão. Que é que você pensava?
— Esquece...
— Bom, tenho que ir. Pela montanha estacionada, vejo que Maomé já chegou. Lembrança aos seus pais.
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Sócrates se levantou, repôs a túnica no corpo e, apertando a mão de Jesus, se preparava para retirar-se quando se ouviu um grito:
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— Olha a cabeça!
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Pensando que era Deus com sua mania de se disfarçar de nuvem e lançar raios sobre os outros em momentos de raiva, Jesus se atirou de lado e rolou pelo chão. Sócrates, por sua vez, permaneceu no mesmo lugar.
Talvez por estar acostumado, afinal Javé pode até ser um tanto ou quanto irado, mas em matéria de lançar raios, como é notório, não há páreo para Zeus. Intrigado, o filósofo apenas levantou a cabeça na direção da voz, perguntando:
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— Quando você diz “cabeça” se refere à minha própria? Ou estaria você falando da de...
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Não chegou a completar a frase, porque naquele instante, não um raio, mas um homem despencou das nuvens e atingiu em cheio o cocuruto do filósofo, que desapareceu sob a areia.
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Qual não foi, portanto, o assombro do Nazareno quando, reabrindo os olhos e procurando o grego, viu, em seu lugar, o sujeito que caíra sobre ele e que, já de pé e batido o pó da túnica, mirava as nuvens, em posição muito semelhante àquela em que estava o outro antes de ser tragado pelo chão.
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— Sóc... Sócrates? — perguntou o Senhor, cabreiro.
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E mais surpreso ficou quando, ao virar-se o homem para ele, constatou estar diante de Aristófanes. (CONTINUA)

10 dezembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (13)


— Alguém me ajude! Socorro! Por favor, alguém me ajude! — expunha silogisticamente sua posição Sócrates.
Mas, experimentado em dialética desde os tempos de Ulisses, o mar o envolvia com líquidos argumentos por todos os lados e o fazia debater em vão. Ao final da peleja oratória, teria findado fatalmente por calar o filósofo. Isso, caso Jesus, que via a cena de longe, não tivesse falado:
— Levanta-te e anda!
— Ha! — respondeu o filósofo, ainda se afogando. — Pra você é fácil falar. Mas eu sou cético.
— Não, sua besta! Não se trata de milagre. É que a gente tá no raso. Já dá pé.
— Ah... — sorriu amarelo o zetético, cessando o desespero e fazendo em seguida o que o Mestre lhe havia dito.
Chegando à praia, Sócrates tirou a túnica e se jogou na areia, resfolegando. O Filho do homem juntou-se a ele pouco depois, algo irritado:
— Por que vocês gregos têm essa mania de tirar a roupa o tempo todo, hein? Será possível que vou ser obrigado a ficar vendo o teu não-circuncidado aí?
— Grande coisa!
— Grande? É fácil dizer isso quando se tem prepúcio. Queria ver você diante de São Serapião. Agora, vem cá, será que você pode me explicar uma coisa? Que esculhambação é essa, ahn? Primeiro Maomé, depois Vênus...
— Afrodite! Olha o romanismo.
— Afrodite, tudo bem. Mas será que você pode me explicar o que é que tá fazendo aqui?
— Ué? O que eu tô fazendo aqui! O que é que você tá fazendo aqui! Nunca te vi por essas bandas...
— Bom, eu estar aqui talvez tenha certa relação com o fato de ser o filho de Deus e estarmos no paraíso cristão.
— Iiiihhh... Lá vem ele com esse papo de religião.
— Era só o que faltava. Você vai me dizer que a gente tá no Hades, por acaso?
— Que mané Hades! Tu ainda tá nessa, rapaz? Não nega que é um cristão do primeiro século, todo influenciado por helenismos.
— Tá, tá. Agora, quer me fazer o favor de dizer o que você tá fazendo aqui?
— Como você é mal-agradecido! Depois de tudo o que Platão e Aristóteles fizeram por você, graças a mim! É assim que você me recebe? Nietzsche me livre!
— Tudo bem. Não precisa se irritar. Só quero entender o que tá acontecendo.
— Você seria capaz de manter um segredo mesmo sob tortura?
— Sim.
— Duvido. Foi só os romanos darem algumas porradas pra você ir logo confessando ser Filho de Zeus, rei dos judeus, o escambau.
— Verdadeiramente hilário. Agora, diga: que segredo é esse?
— Antes, responda: qual é a prerrogativa de todo segredo?
— Prerrog... Que ele permaneça secreto, claro.
— Logo, se um segredo é contado, o que acontece?
— Ele deixa de ser secreto.
— Donde se conclui que um segredo não pode ser transmitido, certo?
— Certo.
— Ora, sendo assim, como você pede que faça algo que, uma vez realizado, destruirá a própria essência do ato? (CONTINUA)

CAPÍTULOS ANTERIORES
Capítulo 12
Capítulo 11
Capítulo 10

07 dezembro, 2007

CLÁSSICO MITOLÓGICO (2)


— Mino, independentemente do resultado do jogo de hoje, o fato é que você tem fãs espalhados por todas as ilhas, todo o mundo te teme. Tenho impressão de que o público se interessaria por ver seu lado mais humano...
— Bom, Apô, meu lado mais humano tá aqui, ó: ali temos os pés, aqui as coxas, o pinto...
— Não, não! Quer dizer, gostaria de saber o que você faz nos momentos de folga, por exemplo.
— Ah, eu gosto de comer uma virgem. Ou melhor, sete virgens.
— Assim, de cara? Você não toca uma lira, não toma uma cratera de vinho de Falerno, não passa uma cantada...?
— Bom, cantar eu canto. Veja bem, gosto muito daquela música do Monsueto: (cantando) “Mora... na mitologia...”
— Sei. E você curte a night?
— Não, prefiro curtir pela manhã. Abro meu coração com você, Apolodoro, que é um homem que tem história. Ultimamente, não tenho visto a luz no fim do túnel, sabe?
— Que é isso. Relaxa, bicho. Boa sorte pra você. Bom, Hê, dá pra perceber duas pontas de melancolia nas palavras do Minotauro. É com você.
— Muito obrigado, Apolodoro. Do que acabamos de escutar, uma certeza ao menos fica: o Minotauro certamente está com uma pulga atrás da orelha. Ou isso ou berne, o certo é que deu para ouvir daqui ele se coçando. Mas agora está com o heróico Teseu aquele que é o mais dialético dos repórteres esportivos: Zenão de Eléia. Não é isso, Zenão?
— Estaria, Hesíodo. Isso, se eu conseguisse me deslocar até ele.
— Muita gente atrapalhando o caminho?
— Não, ninguém. Mas o fato é se pegarmos a distância que vai de mim até onde tá o filho de Parsifae e separá-la em pequenos espaços do tamanho dos meus pés, cada passo equivaleria...
— Tá, tá. Tudo bem, Zenão, então pergunta daí mesmo!
— Muito bem, vou gritar. Teseu! Teseu! A pitonisa disse que você vai sair vencedor da batalha. Como você se sente?
— Bem, Zenão, você sabe perfeitamente que a mitologia é uma anforazinha de surpresas. Ora, se os mistérios ganhassem jogo, os campeonatos em Delfos terminariam sempre empatados.
— Verdade. Mas qual será sua estratégia para esta tarde?
— Tentaremos entrar na cancha adversária com cuidado. A princípio, vamos ser colocados contra a parede, eu sei, mas vamos tentar não perder a linha e ir avançando de pouco em pouco.
— Você conta com a impaciência do Minotauro, então?
— Sem dúvida. No final, quem mantiver a cabeça no lugar sairá vencedor.
— Para terminar, uma última pergunta, Tesa: quais são os afluentes da margem esquerda das amazonas? Uh, uh. Sacaneei. É com você, Hesíodo.
— Muito bem, amigos, o arconte vai apitar e... é iniciada a partida. Teseu parte para o ataque, entra no campo adversário e... Ué? Onde é que eles tão? Os dois oponentes andam muito sumidos no jogo, Eurípides.
— Oh, Hê, tenho um terrível pressentimento!
— Aristófanes?
— A culpa é de Cleon! A culpa é de Cleon!

05 dezembro, 2007

CLÁSSICO MITOLÓGICO


— Muito bem, amigos helenos, eu sou Hesíodo e você está ligado na Rádio Atlas. (entra vinheta da rádio) “Rádio A-tla-tla-tlas. Levamos o mundo do esporte greco-romano até você. E levamos sobre os ombros”. (voltando a falar) Estamos aqui hoje em mais uma epopéia esportiva para transmitir direto de Creta aquele que é um clássico da mitologia contemporânea. Nesta tarde, a equipe de Teseu enfrenta a do Minotauro. Irá o herói ático derrotar a fera insular e interromper sua seqüência de vitórias que já dura anos? É o que todos se perguntam. Aqui, ao meu lado, o comentarista do hexâmetro abalizado, Eurípides. E então, Eurípides, que você acha do enfrentamento de logo mais?
(com uma máscara teatral no rosto) Oh, Zeus, calar-me-ei, ó Heríodo! Nada direi de momento tão desazado, pelos deuses inclementes!
— Deixa de tragédia, Eurípides.
— Ó Hêsi, digo que teremos de esperar até o último momento para afirmar que este ou aquele foi feliz! Que os deuses a ambos sejam propícios!
— Não quer arriscar um vencedor, então?
— Quem vence, não sei. Mas o perdedor sofrerá e lamentar-se-á bastante no final. Oh!
— Muito bem. À minha esquerda, a língua mais afiada do mundo banhado por Oceano: Aristófanes. E aí, Ari, quais são suas impressões?
— Minha impressão, aliás, minha certeza é que a culpa é de Cleon, aquele demagogo.
— Como? Não, digo, a respeito do jogo de logo mais. Quem sairá vencedor?
— Acho que perde Atenas.
— O Minotauro vence, então?
— Sei lá. Mas com a subida de Cleon ao poder, Atenas perde, isso é certo.
— Não quer arriscar? Vai fazer como Eurípides?
— Não me xinga, hein? Você por acaso tá me vendo com gestos efeminados, compondo maus versos ou querendo dar a...
— Err... Bom... Os dois times adentram o anfiteatro. Vamos até lá, ao palco do espetáculo, onde está Apolodoro. Apolodoro, é com você.
— Boa tarde, ouvintes. Me permitam, antes de mais nada, meter a mão nessa discussão, pois os talheres não são usados ainda. Começo dizendo que o mundo dá muitas voltas, porque...
— Desculpe, Apolodoro, mas o mundo é plano.
— Não, meu caro Hesíodo, o mundo gira ao redor do sol, já dizia Aristarco de Samos.
— É plano!
— Gira!
— Gira é você! Maluco!
— Posso ser maluco, mas pelo menos não sou cego!
— Cego? Cego é Homero, seu animal! De mim, o máximo que se pode dizer é que seja beócio! Você... (constrangido, percebendo que está no ar) Hum... Peço desculpas, Apolodoro.
— Não hades ser nada. Bem, por falar em animal, estou aqui com ele que é conhecido por não ter hierofantes na língua, the one and only...
(interrompendo) Por favor, Apolodoro, peço em nome dos ouvintes que não use a língua dos bárbaros.
— Ora, tô aqui com o Minotauro. E então, Mino, como vão as coisas?
— Olha, mais ou menos. Às vezes, eu me sinto assim meio sem saída...
— E esse babado aí?
— Desculpe, não foi minha intenção.
— Não, digo, esse babado, esses boatos que andam espalhando sobre seu pai.
— Olha, Apô, Teseu pode dizer que meu pai tinha cornos, eu aceito. Mas, pelo menos minha mãe não era uma vaca, como a dele. (CONTINUA NA SEXTA-FEIRA)

03 dezembro, 2007

NICOMAR LAEL

Conheço o dr. Nicomar Lael há cerca de 33 anos. Tempo suficiente para que nossa amizade tivesse pregado a paz, sido perseguida pelos hereges e morrido na cruz.

No entanto, infelizmente, não foi o que aconteceu. Assim, sou obrigado a suportar o sujeito até nossos dias, sem que conte ao menos com um mísero seguidor.

Trata-se o dr. Nicomar Lael de gente de hábitos os mais esquisitos, ainda que o leitor encontre quem diga ser eu o estranho e o dr. Nicomar Lael, pelo contrário, a mais normal das criaturas — coisa que contesto veementemente, só não tomando as medidas cabíveis porque a esta hora os portões do manicômio já estão fechados.

Ora, passaria dias escrevendo sobre a ignóbil criatura, caso não tivesse ojeriza a palavrões e, sobretudo, a processos por calúnia e difamação. Pouco acrescentaria ao quase nada que dele já se sabe, é verdade. Afinal, ainda que tenha sido obrigado a suportá-lo por décadas, dele sei tanto quanto consigo calcular uma matriz.

Digo isso para deitar a crônica de hoje na gaveta e convidar o leitor a, em lendo o facínora, tirar suas próprias conclusões.
Sim, eis que cansado da vida nababesca de magistrado dedicado a causas solertes, o dr. Nicomar Lael acaba de abrir
uma bodega.