05 novembro, 2007

UM JULGAMENTO LENDÁRIO


PROMOTOR: Matou o pai e manteve intercurso sexual com a mãe, excelência.

ADVOGADO: Protesto. Meu cliente é um personagem mitológico, excelência. O caso dele deve ser levado às Erínias e não a um tribunal comum.

PROMOTOR: Personagem mitológico o Maluf também é, meu filho, e nem por isso...

CORO: Ó Édipo, qual será teu futuro? Ó Édipo, homem assinalado pelos deuses! Ó Édipo, que será de ti?

JUIZ: Peço que a acusação observe o linguajar no tribunal. Nada de palavrões.

PROMOTOR: Perdão, excelência. Prossigamos. O réu, para cúmulo da afronta, teve um filho com a própria mãe. Se vira moda, como é que a gente vai conseguir distinguir e nomear nossos parentes de agora em diante? Um filho que ao mesmo tempo é neto! Tem gente que já faz confusão com genro e nora, excelência!

CORO: Ó Édipo, que destino cruel! Ó Édipo, que deus zangado levou-te a fornicar com a própria mãe?

ADVOGADO: Lembro, excelência, dos grandes serviços prestados à cidade pelo meu cliente quando esta se encontrava aterrorizada pela Esfinge.

PROMOTOR: Cá pra nós, excelência, a Esfinge, com aqueles segredos ridículos dela? Ora, todo mundo sabe o que é que pela manhã tem quatro pés, à tarde dois e à noite três.

JUIZ: Eu, não. E olha que adoro adivinhas.

ADVOGADO: É o homem, excelência.

JUIZ: Ahn...

ADVOGADO: Queria ver era o Édipo dizer o que é que cai em pé e corre deitado, isso sim. Além do mais, a Esfinge era mulher. Não conseguiria segurar o segredo por muito tempo.

CORO: Ó Édipo, o fado não leva ao menos teus trabalhos em conta! As Moiras já abrem as tenazes para cortar o fio da tua vida, ó Édipo!

JUIZ: Seja mais claro. O que você quer dizer com isso?

PROMOTOR: Quero dizer que as mulheres...

JUIZ: Danem-se as mulheres. Agora você me deixou curioso. Quero saber é o que é que cai em pé e corre deitado.

ADVOGADO: Meu cliente pede para comunicar ao tribunal que é a chuva, excelência.

JUIZ: A chuva! Isso mesmo. Esse menino é bom.

PROMOTOR: Tudo bem, excelência. Quero ver agora ele adivinhar o que é que tem escama e não é peixe, coroa e não é rei.

CORO: Ó Édipo, põem-te à prova como um reles criminoso! Ó Édipo, querem...

JUIZ: Silêncio no tribunal! Por favor, alguém pode tirar o coro dali? Meu Zeus do céu, ninguém agüenta mais essa ladainha!

CORO: Ó nobre mantenedor das leis, então é assim que reages? Ó homem ímpio, calar-te-ás a respeito do incesto que cometes com a tua própria irm...

JUIZ: Pssss! Levem o coro para fora, agora!

CORO: Nada falarás sobre teu caso extraconj...

JUIZ: Fora! Ótimo. Podem prosseguir.

ADVOGADO: Meu cliente diz que a pergunta é capciosa. Os gregos ainda não conhecem a fruta em questão, excelência, pois que é originária de regiões para além do Oceano, desconhecidas dos povos antigos. No entanto, afirma que a resposta é: abacaxi.

JUIZ: Uh, uh! Muito bom. O garoto é um gênio.

PROMOTOR: Tem muitos dentes e não consegue morder?

ADVOGADO: Meu cliente diz que é o alho, excelência.

JUIZ: Muito bem!

PROMOTOR: Quanto mais se perde, mais se tem?

ADVOGADO: Sono.

PROMOTOR: Quanto mais se tira, maior fica.

ADVOGADO: Buraco.

JUIZ: Grande! Olha, sr. Édipo, estou inclinado a aliviar sua pena. Uma inteligência como a sua... O senhor não é um beócio qualquer!

PROMOTOR: Calma, excelência. Por favor, só mais uma. Uma só, excelência! O que é que se parte e se reparte e fica sempre do mesmo tamanho?

ADVOGADO: Uhm... Meu cliente diz que é amor de esposa, excelência.

PROMOTOR: Ha, ha, ha. Errou, excelência! É amor de mãe!

JUIZ: Ah!... Que pena, sr. Édipo! Nesse caso, infelizmente, terei que condená-lo ao desterro. Guardas! Levem-no. Até lá, aviso: não tiraremos os olhos do senhor.

2 comentários:

Ane Brasil disse...

heheheheh!
Pobre Edipo...
Agora, que juís, hein? não deixa nada a dever a alguns deste mundo não vulgar.
sorte e saúde pra todos!

Luciana G. disse...

Nota 10, novamente.

É por essa e por tantas outras que mantenho o blog devidamente linkado, que é pra não perder o rumo.

Beijo,

Luciana