29 novembro, 2007

NO CORREDOR


— Ai, meu pé!
— Você diz isso por preconceito.
— Como? Você pisou no meu pé, Armina!
— Tudo bem. Mas precisava reagir desse jeito?
— Você preferia que eu dissesse “uh”, por acaso? Uh, continua doendo! Foi bem no ded...
— Não é o “ai”, Botero, é a maneira como você fala.
— Que é que você disse? Ai, digo, uh, essa agora foi...
— Eu disse que esse seu “ai” tá carregado de preconceito sexual.
— Se tem uma coisa contra a qual não tenho preconceito é sexo, Armina. Pelo contrário, gosto muito. Você é que às vezes...
— Preconceito contra o sexo! Machismo! Você é contra o meu sexo!
— Se é o que eu prefiro!
— Olha a brincadeira. Tô falando sério. Através desse seu “ai” se vê toda a sua misoginia.
— Duvido.
— Pois saiba que é verdade.
— Não, duvido que você saiba o significado de misoginia.
— Isso, brinca, vai brincando.
— Armina, pelo amor de Deus, Armina, eu não acredito que você... Essa agora, a pessoa inferir uma série de... Pfff.
— Olha aí!
— Ahn?
— Esse seu “pfff”, Botero. É disso que venho falando. Dessa sua dificuldade para aceitar o outro.
— Que outro? Fala, Armina! Tem alguma coisa que você quer me contar?
— O outro, a alternativa, Botero. Isso tem tudo a ver com a sua criação.
— Não bota a mãe no meio que eu boto no meio da sua.
— Quanta maturidade!
— Tudo bem, Armina, prometo que da próxima vez eu uso uma interjeição nova no lugar de “pfff”. Quem sabe “splectpei” ou coisa do tipo. Agora, por favor, será que eu posso passar pra cozinha pra pegar gelo e evitar que meu dedão fique igual ao busto do Marco Maciel? Puxa!
— Incrível.
— Que foi, agora? O “puxa”? Vai implicar com meu “puxa”? Vai me dizer o quê? Que ele demonstra todo o meu desprezo pelos manetas?
— Seu desprezo pelo diferente, Botero.
— Entendo. Já você tem amor ao igual, né? Por exemplo, quer que meu dedão fique igual ao joelho. Será que dá pra sair da frente?
— Sinceramente.
— Putz!
— Olha aí!
— Sai.
— Não.
— Armina, eu... Uaia! Uaia! Você pisou no meu dedão de novo!
— Uaia, não, hein? Uaia, não!

15 comentários:

Magui disse...

A Guerra dos Sexos continua.

Ane Brasil disse...

Humpf, seu misógino!
Há horas que venho sentindo uma hostilidade para com o feminino aqui neste blog... agora, tudo se confirma.
E assim, nos pequenos posts que a gente descobre quem são (e o que pensam) as pessoas.

Ane Brasil disse...

kuaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Brincadeirinha!
Sorte e saúde pra todos!

Túlio disse...

Muito bom!

Marcelo disse...

UUUUUUUUUUUUi meu dedo!

abs

Jens disse...

Legal. Gostei tanto que vou copiar. Como, ao contrário de outros escribas, sou uma pessoa educada,
apresento antecipadamente minhas desculpas:
Pô, Marconi, foi mal. Foi sem querer.
Um abraço. Passar bem.

Adriano disse...

Marconi,

Parabéns pelo blog também. É como o Polzonoff disse, v. é uma das melhores leituras "na blogosfera atualmente de hoje".

Cabamacho disse...

Eu prefiro chamar só de pederasta e já tá bom. Misógino parece aquele macarrão.

Franciel disse...

Voto com o relator Cabamacho.

Serbão disse...

Marconi, se o sujeito é o Botero, a Armina é gordinha?
então a pisada doeu mesmo!

Joel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joel disse...

Marconi Leal, sou um reticente no mundo da blogosfera, quase nunca comento o que leio, mesmo que seja algo espetacular. Farei um hiato para elogiar a sua verve. Os seus textos - são puro entretenimento útil - No seu humor há sempre algo importante, mas não panfletário, é subliminar. Sobre este testo "NO CORREDOR", por exemplo, fez-me recordar do livro de Susan Forward e Joan Torres, cujo título é “Homens que odeiam suas mulheres & mulheres que os amam”, a conclusão da autora Susan Foward sobre esses homens, chamados misóginos é mais ou menos isto: À medida que a mulher evita confrontá-lo tentando ser boa para preservar a relação, ela está estabelecendo um tópico contratual que configura o contexto para a atuação do misógino, ao tempo em que ela vai enfraquecendo. Como diz Susan Foward: “ela contrata amor e ele controle”.
A mulherada vai lendo essas teorias psicológicas atribuídas aos homens e acreditam que qualquer coisa que se faça ou se diga numa conversa seja misoginia. Cruz credo, vai que a moda pega geral?

Joel disse...

Onde está escrito "TESTO", leia-se "TEXTO".

Michele disse...

Hahahaha... boua!

Tatiana disse...

hahahahahahah
Tô adorando isso aqui