09 novembro, 2007

MARCONÍADA (ÚLTIMO CANTO)


Em São Paulo, saber se o céu existe não é uma questão metafísica, mas puramente astronômica. De um lado, somos beneficiados pelo fato de uma agência estadual regular rigidamente a qualidade do ar, evitando que entre muito oxigênio em sua composição. De outro, contamos com um fator econômico ancilar: o oxigênio paulista é tão pobre que não consegue passar no pedágio da Dutra.

Essa combinação venturosa tem como principal conseqüência, segundo comprovei, o despertar de uma irrefreável nostalgia. No meu caso, a nostalgia de uma asma esquecida na adolescência e que voltou fulminante para ter sobre mim um efeito singular — singularíssimo: de pulmões, passei a ter pulmão.

Foi, portanto, com esse potencial de lhama subindo os Andes carregada de mantimentos que saí do supermercado. Já ao final do primeiro quarteirão, tal era meu aperto que, sem estorvo, conseguiria coçar a sobrancelha com a língua. Meu elegante caminhar me credenciaria a ser adotado pelo arquidiácono de Notre-Dame.

Alcançada a segunda esquina, o placar era de seis a zero para a lei da gravidade e a força de atrito nem tinha entrado em campo ainda. Improperei Newton e o Parlamento inglês que aprovou medida tão arbitrária, sem a qual os objetos ainda hoje estariam todos flutuando por aí. E só não soltei um palavrão porque, exposta ao frio, minha língua estava tomada pela cãibra.

Porém, homem usado a esportes radicais — entre eles, beber leite diariamente no Brasil —, avancei, intrépido. Dado meu empenho, tudo levava a crer que ao fim me caberia o sucesso obtido, no mar, por Ulysses. Não o herói épico, mas o Guimarães.

Ao chegar a minha rua, trajava roxo, a cor da estação. Sem fôlego, tive um insight digno de Eratóstenes: descobri que a Terra não é plana e gira. Aliás, modestamente, devo dizer que também no que diz respeito à visão, a minha possuía a mesma profundidade da do sábio. Isso, a se confiar nas fontes que dizem ter ele terminado a vida cego.

Quando finalmente cheguei em frente ao meu prédio e com a ajuda do porteiro entrei no átrio e no elevador, perseverante, só via uma coisa na minha frente: o chão.
.
Uma vez no meu andar, joguei os sacos pelo corredor (menos o imanente, que não sabia onde estava), abri a porta com os caninos e engatinhei até o sofá, onde me quedei, trêmulo como o falecido João Paulo II, mas dominando menos idiomas.

Duas horas depois, foi ali que minha mulher me encontrou, ainda sem conseguir coordenar os movimentos, no entanto já conseguindo respirar sem emular o Francisco Cuoco.

— Ai, meu Deus! Que foi, que foi? Fala! Falta de ar? — perguntou ela, alarmada.
— Não — respondi assim que pude, na manhã seguinte. — De clorofila.

Contudo, como a prolongada ausência de oxigênio me deixou um pouco esverdeado, dormirei toda a semana de luz acesa. Mantenho esperanças de, até as próximas compras, lograr fazer fotossíntese.

3 comentários:

Jens disse...

Depois ainda há quem diga que o sertanejo é um forte. Tsc, tsc, tsc...
***
Depois desta, fazer sexo nem pensar, né?
***
Semana que vem me atraco com o Timbu, se meus empregadores permitirem.
***
Bom findi. Um abraço pra patroa.

sergio disse...

Muito bom, ótima descoberta esse blog. Dei boas risadas...

Ane Brasil disse...

Marconi, meu bruxo, se lograres realizar fotossíntese, e passares a se alimentar de CO2, vivendo em sampa, corres o sério risco de ficar obeso... (mas pense na economia com o supermercado...)
Sorte e saúde pra todos - sobretudo pra você, meu bruxo!