08 novembro, 2007

MARCONÍADA (2)


Segundo Sun Tzu, fazer supermercado é uma atividade de caráter bélico que pode ser dividida em cinco etapas: recolher as mercadorias, levá-las à caixa mais vazia, ultrapassar a velhinha que segue a passos lentos com o mesmo objetivo, pagar e, por fim, trazer os artigos adquiridos para casa.

Das cinco, a primeira e a segunda causam dor moral. A terceira é perigosa, pois sempre há a possibilidade de a velhinha saber caratê. E a quarta provoca dor física. A única de que me desincumbo com facilidade e sem reclamar é a última. Afinal, moramos a três quadras da loja e há entregadores para fazer o serviço. Não que fique de mãos abanando. Vocês precisam ver a habilidade com que forneço o endereço de casa.

Acontece que, talvez porque só estejamos realizando compras no mesmo lugar há escassos dois anos, não sabia que o serviço de entrega se encerra às oito horas da noite. Detalhe só observado por mim às oito e vinte, após pagar todas as compras — cuja quantidade, com alguma economia, daria para alimentar durante um mês o Diabo da Tasmânia.

Olhei para os sacos plásticos, eles olharam para mim. A princípio, assobiando e fingindo não me ver. Depois, rindo desabridamente. O repolho, diga-se em sua honra, foi o único que apresentou algo semelhante a compadecimento. Ele e os aspargos.

Já eu estampava no rosto a felicidade do último ato da Traviata. Arranquei alguns fios de cabelo do sovaco e xinguei por ordem alfabética e com sobrenomes em caixa-alta toda a árvore genealógica da família Diniz.

Mais que isso, lamentei profundamente o fato de não ter no bolso o “Dicionário Brasileiro de Insultos” de Altair Aranha, que roubei há pouco da Paula
. Mas lembro de ter usado “mancípio” e “punga” para me referir a um ou dois funcionários.

Transcorridos alguns minutos, disse de mim para comigo ser homem o suficiente para encarar o problema sem rodeios. Concordei com meu interlocutor, fazendo algumas ressalvas. E recobrei o ânimo, convencido de que precisava agir como um adulto.

Comecei então a arrastar a perna, retorcer o braço, mancar e babar, alternadamente, forjando uma deficiência física para que alguém se predispusesse a me ajudar a carregar as compras.

O plano de despertar compaixão era bom. Pena que estou em São Paulo, onde não há nada mais dessueto que o PSDB perder uma eleição ou alguém se emocionar. Em 1978, segundo dizem, um aposentado do Brás chegou a derramar uma lágrima de alegria, mas foi multado pela prefeitura, sob violentas imprecações dos vizinhos.

Assim, resignado, restou-me arrepanhar os sacos todos — inclusive o meu que, devido ao peso, recolheu-se um pouco — e pôr-me em marcha para casa, com o equilíbrio de um discurso do presidente e a capacidade respiratória do Volpone.

(TERMINA AMANHÃ)

4 comentários:

Jens disse...

Li o de ontem e o de hoje. Aguardo o de amanhã.
Quando era pequeno quem fazia as compras do mês era eu. Até que gostava de passear pelos corredores atento à lista de compras. No final ganhava um presente: um livro da minha escolha. Foi assim que conheci O Grande Gatsby e O Velho e o Mar.
Depois que casei passei a fugir do super com a mesma agilidade que os gatos da minha ex-mulher fugiam do meus pontapés.
Cara, mulheres no supermercado são um saco, não têm a mínima objetividade, são incapazes de restringir-se a lista de compras. Não fui feito para este vida. Eu gosto é de buteco e armazém de secos e molhados (bem molhadinhos...)
Hoje, faço às compras no minimercado da esquina e ainda pago dois real pro guri nos levar em casa (eu e as compras, ambos confortavelmente acomodados em um carrinho de mão).
***
Agora, sou obrigado a reconhecer que um troço bom é secar a mulherada se shortinho debruçando-se sobre as gôndolas. Nhamnham...
***
Fui dormir. Um abraço.
***
Teus últimos textos estão bons de copiar. Abre os olhos (os três).

Gustavo Chaves disse...

Veja bem meu caro, apesar de saber o exorbitante preço do táxi em são paulo, moro em salvador onde a kilometragem não chega a ser 10 centavos mais barata, e a bandeira 10%, portanto é que vos digo que nos reuniremos para marcar uma reunião de deliberação da reunião (tô copiando de você) que arrecadará o simbólico valor de 100 reais para que você atravesse de taxi a longíqua distancia de tres quadras até chegar em sua casa!
Ou então 2 real pra pagar o guri como disse o JENS

Durval disse...

Já ouviu falar de supermercado online? Se não quiser prestigiar a família Diniz, experimente esse outro. Os preços são semelhantes ou menores, e os caras entregam até aos domingos.

Luciana G. disse...

Me identifiquei totalmente!

A coisa que mais ODEIO é fazer supermercado...

A sensação é a da mais pura perda de tempo. E você ainda esqueceu de citar a última parte: subir com aqueles sacos todos (eu moro no terceiro andar de um prédio antigo e simpático e, por isso mesmo, sem o bendito elevador...) e depois guardar aquilo tudo nos armários e na geladeira!

Pois tenho feito greve: não vou mais ao supermercado, quem sentir fome que vá, eu como na rua. Está dando certo!!