07 novembro, 2007

MARCONÍADA (1)


Fazer supermercado é, para mim, um gênero incontroverso e ainda não catalogado de tortura. Com a diferença de que a gente não sente cosquinhas. Em compensação, precisa pagar na saída.

Excetuando-se a ida a uma palestra do Gilberto Kassab, ignoro o que mais pode haver de tão calino e humilhante quanto passar uma hora empurrando um carrinho e enfiando produtos dentro dele.

No entanto, como espécime dos mais involuídos da cadeia alimentar, o ser humano necessita de enorme variedade de comidas para sobreviver. Tivéssemos atingido o estágio das plantas e no máximo procuraríamos um supermercado em dias de pouco sol. Ainda assim, só utilizaríamos as prateleiras das lâmpadas.

Uma alternativa seria os produtos virem caminhando ou rolando sozinhos até nossas residências. Dessa maneira, teríamos apenas o trabalho de deixar a porta aberta e, eventualmente, prestar auxílio a uma lata de extrato de tomate mais desastrada que não conseguisse escalar o armário.

Mas, apesar de não falarem — um evidente sinal de superioridade —, aparentemente as mercadorias são mais atrasadas que o ser humano (há certa disputa nos meios científicos sobre se ministros do atual governo entram na classificação). O que aprenderam até agora em matéria de cinética foi cair das gôndolas, causando maior prejuízo ao cliente.

Segue que, não havendo outra opção, semanalmente sou obrigado a “fazer Bompreço”, como se diz lá no Recife. No caso, “fazer Pão de Açúcar”, pois inexiste em São Paulo aquele estabelecimento e, sendo um homem altruísta, gosto de ajudar o Abílio Diniz a ganhar um pouco de dinheiro.

Para tanto, conto com a inestimável ajuda de minha cônjuge. Afinal, senão a primeira — não menosprezemos o coçar as costas um do outro —, uma das bases eviternas do casamento saudável é, sem dúvida, ter alguém para fazer feira conosco.

Nos dias em que meu bem está de TPM, então, sua prestança duplica. Vendo a bravura com que recolhe as provisões, posso atestar: estivesse ela ao lado de El Cid, os mouros não apenas teriam sido expulsos da península ibérica, mas perdido também o Oriente Médio, todo o norte da África e mais dois territórios a sua escolha.

Porém, ultimamente minha amada tem se dedicado a tarefa quase tão árdua quanto aumentar o lucro de varejistas: estuda para concurso público. E como, a não ser ela a nos sustentar com seu salário de estatutária, a probabilidade de vermos dinheiro nos próximos seis meses é tanta quanto a do América de Natal fugir do rebaixamento, ontem peguei a listinha e me dirigi sozinho às compras.
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(CONTINUA AMANHÃ)

8 comentários:

Gustavo Chaves disse...

marconinho vai parar de escrever no blog com o dinheiro do concurso publico. Pow, tem uns que pagam mutcho bien.

Jens disse...

E aí, seu fresco, tudo bem?
Porra, cara, estou me jodendo nos últimos dias. Primeiro um ataque de bichas (tu sabes que fico meio mulherzinha quando bate a deprê - choramingando pelos cantos e reclamando que ninguém me ama, ninguém me quer). Depois a bosta de um trabalho monstro de 40 páginas que eu não consigo terminar (é uma merda sobre segurança pública, no qual não posso chamar bandido de bandido, ladrão de ladrão, sem que meu empregador me enfie nas fuças a cartilha dos direitos humanos - e os esquerdos? Como preciso da grana, haja saco e sinônimos palatáveis. Espero me livrar desta porra hoje. Ou amanhã.
Por conta destes motivos, afastei-me daqui nos últimos dias, com a certeza incômoda que estou perdendo coisas boas.
Sentiu a minha falta, benzinho?
***
Ah, sim. Ainda não comi ninguém este ano. Só promessas... Começou a sair um troço branco dos meus olhos. Acho que é p...
***
Fui. Arriba, seu fresco.

Milton Ribeiro disse...

Bá, bá, incrível como me identifiquei. Grande post.

(continua logo, porra)

Serbão disse...

também sou eu quem faz compras no meu lar, devido a uma separação de tarefas. gostei da idéia das compras virem sozinhas para casa. eu só não deixaria o vidro de alcaparras subir no meu prédio.

Jens disse...

Vai começar o jogo São Paulo X Juventude. Porra, a bandeirinha Katiuscha é boa pra c... E eu aqui, na mão...

Costajr disse...

"Fazer feira" e "fazer bompreço", expressões mais recifense, impossível. Compartilho da angústia. Nada é mais irritante que fazer compras.
Há seis meses, além de empurrar o carrinho, acoplo a esse carro de mão mais organizado, uma cadeirinha de bebê. É o pequeno e bravo Estêvão vendo in loco o que a vida lhe reserva.

Ane Brasil disse...

E, fazer supermercado é mesmo um saco!

Ane Brasil disse...

E, fazer supermercado é mesmo um saco!