22 novembro, 2007

LUGAR COMUM (TEXTO FEITO SOB MEDIDA PARA SER COPIADO, COLADO E ENVIADO POR E-MAIL COM ASSINATURA DO VERISSIMO)


Astafânio Carlos sempre foi uma figura tão macavenca que, ao nascer, em vez de chorar, ele olhou para o médico e ameaçou:

— Se tocar em mim, recorro ao Estatuto da Criança e do Adolescente, hein?

No colégio, enquanto todos os meninos seguravam a bolinha de gude entre o indicador e o polegar, ele a atirava pressionando o mínimo da mão esquerda sobre o médio da direita, e gritava:

— Curucucu, curucucu!

No futebol, rolava no chão às gargalhadas ao ver seu time perder um gol.

Mais tarde, quando passou no vestibular para o bacharelado em Espinografia Retrativa Infotérmica, os colegas de faculdade sofreram para convencê-lo de que deixariam de sair com ele caso continuasse a tomar cerveja na palma das mãos e, principalmente, a comer o tira-gosto lançando a língua diretamente no prato.

— Posso usar os cotovelos? — apelou.

Ao contrário dos outros, Astafânio Carlos aprendeu a tocar violão. Quando pediam Legião Urbana, atacava de Villa-Lobos, tendo sido expulso mais de uma vez pelo próprio dono do bar ao executar uma modinha que ficou popularmente conhecida na universidade como “Garçom, a Conta”.

Nas rodas de literatura, jamais elogiou os russos, nunca disse que Borges era um gênio. Não compunha poesia alternativa, seus olhos não brilhavam quando falava de Kafka. Em matéria de mulher, preferia as feias. No que tange à política, acreditava que a melhor forma de governo era a ditadura democrática de centro.

Aos vinte e cinco anos de idade, Astafânio Carlos tinha um emprego de controlador de freqüência espermatogênica em eqüinos malhados e nenhum amigo. Nunca afirmava nada sem que os estranhos ao redor discordassem veementemente ou fizessem a pior cara de Jefferson Péres.

Àquela época Astafânio Carlos que, diferentemente de todo o mundo, nunca lera “Vou-me embora pra Pasárgada”, começou a elaborar sua única obra, aquilo com que conseguiu, segundo vejo, justificar sua existência: uma antiutopia intitulada “Lugar Comum”.

No conto, Astafânio Carlos trata de uma sociedade no futuro onde as pessoas estariam separadas por um abismo eterno, pois só possuíam um dos hemisférios cerebrais (excetuando-se as louras, que tinham os dois).

Em Lugar Comum, por exemplo, a opinião do grupo A era a de que Hugo Chávez representava, como ditador, grande ameaça à democracia. O grupo B discordava, afirmando ser Chávez um iluminado, verdadeiro redentor da Terra. (O grupo C era composto pelas louras, mas nunca se soube sua opinião, porque elas na hora da pesquisa estavam no motel.)

As divergências continuavam: o grupo A dizia do grupo B que se compunha inteiramente de burrões irremediáveis. O grupo B, por sua vez, opinava que os componentes do grupo A não passavam de exploradores vendidos ao sistema (não fica claro, na narrativa, se o autor se referia ao Windows ou ao Linux).

Ideologia, para o grupo A, era uma doença exclusiva do grupo B e substituía o raciocínio. Já para o grupo B, a ausência de ideologia significava, pelo contrário, incapacidade de enxergar a realidade.

Essas e outras incoerências estavam em “Lugar Comum”, opúsculo de lauda e meia que não fez o menor sucesso entre crítica e público, mas que na minha opinião tem lá os seus méritos, ainda que peque pela inverossimilhança.

Seja como for, encerro dizendo que Astafânio Carlos colocou o ponto final no conto no dia mesmo de sua morte, aos 32 anos, quando tentava, usando apenas uma touca creme e por pura diversão, subir as Cataratas do Iguaçu.
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Astafânio Carlos nunca foi bom no nado de costas.
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3 comentários:

Franciel disse...

É mentira. Eu não sou Astafânio. E ainda continuo vivo, apesar desta Província de Piratininga.

Jens disse...

Macavenca é a mãe!
Não tem no Aurelinho e eu não vou procurar no dicionário da Globo. Passar bem!

Josias de Paula Jr. disse...

Na verdade Astafânio está vivinho ainda, nadando cachorrinho no Tietê...