GERUNDISMO
— Boas tardes. Com quem poderia ter o prazer de estar a falar neste aprazível lar? E já me adianto a pedir perdão pela péssima e involuntária rima. Encontrar-se-á o dono da residência nela, hodiernamente?
— Quê?
— Pergunto se Vossa Senhoria acaso não saberia dizer-me se há alguém na habitação?
— Que habitação?
— Esta em que vos encontrais. Seria Vossa Senhoria o proprietário dela ou pertence a outrem tal prerrogativa?
— Depende. A senhora é da Receita?
— Não, porém, se me permite um rasteiro jeu de mot, como dizem os franceses, ou pun, caso Vossa Senhoria seja anglófila: possuo a receita para vosso sucesso. Isto, posto ser Vossa Senhoria o pater familias. Estou certa? É a Vossa Senhoria que procuro?
— Não, eu não sou o Rui Barbosa. A senhora pode me dizer do que se trata, hein?
— Dir-lhe-ei, caso me informe ser Vossa Senhoria possuidora do predicado correto.
— Olha, digo a Vossa Portuguescência que faz vinte anos que deixei o colégio, de maneira que não sei se o predicado tá correto. Ainda mais que Vossa Gramaticância colocou a frase na ordem inversa. Nunca fui bom de passiva, modéstia à parte. Sem falar que a oração é coordenada.
— Subordinada adverbial condicional, se me permite. Mas Vossa Senhoria não precisa exaltar-se. Agradar-me-ia saber tão-somente se habita esta casa.
— Aha! “Esta” se refere à mais próxima, logo a senhora está falando da sua casa. Se eu responder “sim”, a senhora dirá que estou errado, porque não moro na sua casa e sim na minha. O certo então seria que usasse “essa”. Então respondo: “não”. Uhu! Botei pra lascar. Gramática é comigo, minha filha. De quanto é o prêmio?
— Infiro do que diz ser Vossa Senhoria cabeça da família. Informo-lhe, portanto: o prêmio são uma casa ou dois carros. Vossa Senhoria escolhe.
— Peraê. Essa eu vou ter que pensar. O prêmio “são” uma casa ou dois carros... Onde tá a casca de banana? No “ou”. Se o “ou” tem sentido de “e”... Mas não, o “ou” aí conota alternativa. “O prêmio é uma casa” seria o correto. Acertei?
— Creio ter Vossa Senhoria acertado. Estivesse em vosso lugar e minha escolha seria a mesma: uma casa, um lar antes de tudo. Depois haveríamos de dar conta do como nos transportar. Não é vero?
— Não, é Luiz, a seu dispor.
— Pois muito bem, senhor Luiz, para encurtarmos esta pálrea...
— Epa, minha pálrea, não! Se o preço pra ter a casa é esse, eu...
— Não, senhor Luiz, perdoe-me. Falo pálrea não no sentido de logomaquia ou bocagem, mas exclusivamente no de... como posso dizer-lho?
— Sei lá. Bocage, eu até conheço, um ou dois versos. Agora, desse tal de Logomaquia nunca ouvi falar. É espanhol?
— Cavaco.
— Cavaco? Como assim? Nasceu na Caváquia?
— Não, senhor Luiz, digo para encurtarmos o cavaco, a conversação... Enfim, para encurtá-la, digo que o senhor terá o prêmio de uma casa, ao final de breves cinco anos aplicando na Poupança Setentrional-Sul do Banco Austral do Norte, o único que sabe sempre onde você está.
— Aaaahhh... Agora entendi. A senhora é operadora de telemarketing!
— Prefiro “televendedora”. Conserva a origem greco-romana e...
— Pra cima de mim? Operadora de telemarketing? Ha! Cadê o gerúndio? E o “do qual” fora de lugar? E os erros de concordância? Conta outra, minha querida!
— Na verdade, senhor Luiz, temos passado por um longo processo cognitivo e...
— Desculpe, minha filha. Não caio nessa. Isso pra mim é golpe. Você quer meus dados bancários. Se ao menos cometesse um gerundismo! Não, não. Passar bem. (desliga)
— (para si) Epf... Os pessoal tá ficando cada vez mais esperto hoje em dia. Do qual, de agora em diante, vou ter de tá adotando outro plano.
— Quê?
— Pergunto se Vossa Senhoria acaso não saberia dizer-me se há alguém na habitação?
— Que habitação?
— Esta em que vos encontrais. Seria Vossa Senhoria o proprietário dela ou pertence a outrem tal prerrogativa?
— Depende. A senhora é da Receita?
— Não, porém, se me permite um rasteiro jeu de mot, como dizem os franceses, ou pun, caso Vossa Senhoria seja anglófila: possuo a receita para vosso sucesso. Isto, posto ser Vossa Senhoria o pater familias. Estou certa? É a Vossa Senhoria que procuro?
— Não, eu não sou o Rui Barbosa. A senhora pode me dizer do que se trata, hein?
— Dir-lhe-ei, caso me informe ser Vossa Senhoria possuidora do predicado correto.
— Olha, digo a Vossa Portuguescência que faz vinte anos que deixei o colégio, de maneira que não sei se o predicado tá correto. Ainda mais que Vossa Gramaticância colocou a frase na ordem inversa. Nunca fui bom de passiva, modéstia à parte. Sem falar que a oração é coordenada.
— Subordinada adverbial condicional, se me permite. Mas Vossa Senhoria não precisa exaltar-se. Agradar-me-ia saber tão-somente se habita esta casa.
— Aha! “Esta” se refere à mais próxima, logo a senhora está falando da sua casa. Se eu responder “sim”, a senhora dirá que estou errado, porque não moro na sua casa e sim na minha. O certo então seria que usasse “essa”. Então respondo: “não”. Uhu! Botei pra lascar. Gramática é comigo, minha filha. De quanto é o prêmio?
— Infiro do que diz ser Vossa Senhoria cabeça da família. Informo-lhe, portanto: o prêmio são uma casa ou dois carros. Vossa Senhoria escolhe.
— Peraê. Essa eu vou ter que pensar. O prêmio “são” uma casa ou dois carros... Onde tá a casca de banana? No “ou”. Se o “ou” tem sentido de “e”... Mas não, o “ou” aí conota alternativa. “O prêmio é uma casa” seria o correto. Acertei?
— Creio ter Vossa Senhoria acertado. Estivesse em vosso lugar e minha escolha seria a mesma: uma casa, um lar antes de tudo. Depois haveríamos de dar conta do como nos transportar. Não é vero?
— Não, é Luiz, a seu dispor.
— Pois muito bem, senhor Luiz, para encurtarmos esta pálrea...
— Epa, minha pálrea, não! Se o preço pra ter a casa é esse, eu...
— Não, senhor Luiz, perdoe-me. Falo pálrea não no sentido de logomaquia ou bocagem, mas exclusivamente no de... como posso dizer-lho?
— Sei lá. Bocage, eu até conheço, um ou dois versos. Agora, desse tal de Logomaquia nunca ouvi falar. É espanhol?
— Cavaco.
— Cavaco? Como assim? Nasceu na Caváquia?
— Não, senhor Luiz, digo para encurtarmos o cavaco, a conversação... Enfim, para encurtá-la, digo que o senhor terá o prêmio de uma casa, ao final de breves cinco anos aplicando na Poupança Setentrional-Sul do Banco Austral do Norte, o único que sabe sempre onde você está.
— Aaaahhh... Agora entendi. A senhora é operadora de telemarketing!
— Prefiro “televendedora”. Conserva a origem greco-romana e...
— Pra cima de mim? Operadora de telemarketing? Ha! Cadê o gerúndio? E o “do qual” fora de lugar? E os erros de concordância? Conta outra, minha querida!
— Na verdade, senhor Luiz, temos passado por um longo processo cognitivo e...
— Desculpe, minha filha. Não caio nessa. Isso pra mim é golpe. Você quer meus dados bancários. Se ao menos cometesse um gerundismo! Não, não. Passar bem. (desliga)
— (para si) Epf... Os pessoal tá ficando cada vez mais esperto hoje em dia. Do qual, de agora em diante, vou ter de tá adotando outro plano.

3 comentários:
Perfeito!
Agora dá licença que eu vou ter que consultar o amansa...
sorte e saúde pra todos!
PQP!
Não entendi a metade. Perdi meu Aurélio. (Aposto que passaste o prolongado feriado com o dicionário em punho, só para escrever esta crônica. Exibido!).
Um abraço.
Fantástico!
O que me faz pensar:
Pq será que não falam como gente de verdade? Incrível que onde não se pode colocar um robô ou um programa, dão um jeito de parecer que falamos como um :)
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