29 novembro, 2007

NO CORREDOR


— Ai, meu pé!
— Você diz isso por preconceito.
— Como? Você pisou no meu pé, Armina!
— Tudo bem. Mas precisava reagir desse jeito?
— Você preferia que eu dissesse “uh”, por acaso? Uh, continua doendo! Foi bem no ded...
— Não é o “ai”, Botero, é a maneira como você fala.
— Que é que você disse? Ai, digo, uh, essa agora foi...
— Eu disse que esse seu “ai” tá carregado de preconceito sexual.
— Se tem uma coisa contra a qual não tenho preconceito é sexo, Armina. Pelo contrário, gosto muito. Você é que às vezes...
— Preconceito contra o sexo! Machismo! Você é contra o meu sexo!
— Se é o que eu prefiro!
— Olha a brincadeira. Tô falando sério. Através desse seu “ai” se vê toda a sua misoginia.
— Duvido.
— Pois saiba que é verdade.
— Não, duvido que você saiba o significado de misoginia.
— Isso, brinca, vai brincando.
— Armina, pelo amor de Deus, Armina, eu não acredito que você... Essa agora, a pessoa inferir uma série de... Pfff.
— Olha aí!
— Ahn?
— Esse seu “pfff”, Botero. É disso que venho falando. Dessa sua dificuldade para aceitar o outro.
— Que outro? Fala, Armina! Tem alguma coisa que você quer me contar?
— O outro, a alternativa, Botero. Isso tem tudo a ver com a sua criação.
— Não bota a mãe no meio que eu boto no meio da sua.
— Quanta maturidade!
— Tudo bem, Armina, prometo que da próxima vez eu uso uma interjeição nova no lugar de “pfff”. Quem sabe “splectpei” ou coisa do tipo. Agora, por favor, será que eu posso passar pra cozinha pra pegar gelo e evitar que meu dedão fique igual ao busto do Marco Maciel? Puxa!
— Incrível.
— Que foi, agora? O “puxa”? Vai implicar com meu “puxa”? Vai me dizer o quê? Que ele demonstra todo o meu desprezo pelos manetas?
— Seu desprezo pelo diferente, Botero.
— Entendo. Já você tem amor ao igual, né? Por exemplo, quer que meu dedão fique igual ao joelho. Será que dá pra sair da frente?
— Sinceramente.
— Putz!
— Olha aí!
— Sai.
— Não.
— Armina, eu... Uaia! Uaia! Você pisou no meu dedão de novo!
— Uaia, não, hein? Uaia, não!

28 novembro, 2007

LUTA DE CLASSES NA VILA MADALENA

A crônica de hoje se encontra no Culturando.com, site que tem toda a programação gratuita ou a preços marconianos de São Paulo. Para lê-la, clique aqui.

Para não lê-la, clique aqui. Ou aguarde na linha dizendo Für Elise bem alto que um dos nossos funcionários irá atendê-lo.

27 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (7)


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Tudo bem que na República de Platão não havia poetas. Mas também não havia jornalistas.

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Lulistas e antilulistas têm pelo menos uma coisa em comum: a fé.

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O Ministério Público é a salvação da pátria. Desde que persiga apenas nossos inimigos.


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Como assim não dou amor ao próximo? Por acaso você conhece alguém que esteja mais perto de mim do que eu mesmo, minha filha?
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Existe apenas um tipo mais americano que o próprio estadunidense: o brasileiro em férias nos Estados Unidos.

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Se fosse você teria mais cuidado comigo, beibe. Sabe com quem está falando? Eu sofro de complexo de inferioridade!

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Se não entender uma obra, chame o artista de “gênio”. É mais fácil. Você não passa vexame e o autor sempre acredita.

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Se tem uma passagem bíblica com que não posso concordar é aquela que afirma estarem salvos os pobres de espírito. Não caberia tanta gente no Céu.
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Dize com quem andas e te direi: “Grande coisa!”

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O mundo é habitado por três tipos de pessoas: as que fazem amizades ou inimizades por razões ideológicas, as que assumem ideologias em função de amizades ou inimizades e as adultas.

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A exemplo do papa, só aceito o aborto se for espontâneo. Ninguém deve forçar a mãe a ir à clínica sem que ela queira.
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26 novembro, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM PETISTA


No princípio era a mais-valia e Marx disse:

— Que la assemblée soit!

Porque vinha numa péssima tradução francesa. E ninguém entendeu, já que o lumpemproletariado estava falando muito alto e poucos dominavam o idioma.

E Marx impacientou-se:

— Ach! Hágase la cita, carajo!

E todos correram ao dicionário português-espanhol, mas a consulta demorou um pouco, pois houve alguma discussão sobre se a ordem alfabética deveria ser respeitada ou segui-la seria um passo neoliberal.

Ao que Marx gritou:

— Fiat lux! Fiat lux!

E lhe trouxeram uma caixa de fósforos.

E Marx suspirou e catou dois piolhos da barba para se acalmar. E em seguida, no escuro mesmo, fez uma parede. E separou uma parede da outra e ambas do teto. E, após alguma deliberação, fez o sindicato e achou bom. E foi este o milésimo primeiro dia da criação.

— Agorra, o luiz, porrr favorrr.

E lhe trouxeram o Lula. E Lula disse:

— Nunca antes na história desse país.

E Marx irritou-se:

— O luiz, apertem o interruptorr porr amorr de... do... Light! Turn the light on! Now! I’m loosing my opium of the people!

E fizeram circular uma ata de presença. E houve assinaturas. E após alguma exposição de argumentos, finalmente se fez uma segunda ata. E houve novas assinaturas. E a Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procedeu a algum debate, depois do qual iniciou conversações tendo em vista estabelecer regras claras para o exame daquelas. Comprovada a autenticidade das mesmas, fez-se uma ata. E após alguma troca de idéias, fez-se uma segunda ata corroborando a primeira. E os membros da Comissão Imbuída da Tarefa de Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procederam a alguma excogitação. E lavrou-se uma ata. E a Comissão com a Atribuição de Revalidação das Assinaturas da Comissão Encarregada da Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas se reuniu. E foi este o bilionésimo segundo dia da criação.

E Marx, para conter a raiva, deu dois cascudos em Engels. E depois, desistindo de vez do homem, criou o marxismo vulgar. E para puni-lo por sua insubmissão, fez a língua presa e acrescentou mais quinhentas páginas a “O Capital”.
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22 novembro, 2007

LUGAR COMUM (TEXTO FEITO SOB MEDIDA PARA SER COPIADO, COLADO E ENVIADO POR E-MAIL COM ASSINATURA DO VERISSIMO)


Astafânio Carlos sempre foi uma figura tão macavenca que, ao nascer, em vez de chorar, ele olhou para o médico e ameaçou:

— Se tocar em mim, recorro ao Estatuto da Criança e do Adolescente, hein?

No colégio, enquanto todos os meninos seguravam a bolinha de gude entre o indicador e o polegar, ele a atirava pressionando o mínimo da mão esquerda sobre o médio da direita, e gritava:

— Curucucu, curucucu!

No futebol, rolava no chão às gargalhadas ao ver seu time perder um gol.

Mais tarde, quando passou no vestibular para o bacharelado em Espinografia Retrativa Infotérmica, os colegas de faculdade sofreram para convencê-lo de que deixariam de sair com ele caso continuasse a tomar cerveja na palma das mãos e, principalmente, a comer o tira-gosto lançando a língua diretamente no prato.

— Posso usar os cotovelos? — apelou.

Ao contrário dos outros, Astafânio Carlos aprendeu a tocar violão. Quando pediam Legião Urbana, atacava de Villa-Lobos, tendo sido expulso mais de uma vez pelo próprio dono do bar ao executar uma modinha que ficou popularmente conhecida na universidade como “Garçom, a Conta”.

Nas rodas de literatura, jamais elogiou os russos, nunca disse que Borges era um gênio. Não compunha poesia alternativa, seus olhos não brilhavam quando falava de Kafka. Em matéria de mulher, preferia as feias. No que tange à política, acreditava que a melhor forma de governo era a ditadura democrática de centro.

Aos vinte e cinco anos de idade, Astafânio Carlos tinha um emprego de controlador de freqüência espermatogênica em eqüinos malhados e nenhum amigo. Nunca afirmava nada sem que os estranhos ao redor discordassem veementemente ou fizessem a pior cara de Jefferson Péres.

Àquela época Astafânio Carlos que, diferentemente de todo o mundo, nunca lera “Vou-me embora pra Pasárgada”, começou a elaborar sua única obra, aquilo com que conseguiu, segundo vejo, justificar sua existência: uma antiutopia intitulada “Lugar Comum”.

No conto, Astafânio Carlos trata de uma sociedade no futuro onde as pessoas estariam separadas por um abismo eterno, pois só possuíam um dos hemisférios cerebrais (excetuando-se as louras, que tinham os dois).

Em Lugar Comum, por exemplo, a opinião do grupo A era a de que Hugo Chávez representava, como ditador, grande ameaça à democracia. O grupo B discordava, afirmando ser Chávez um iluminado, verdadeiro redentor da Terra. (O grupo C era composto pelas louras, mas nunca se soube sua opinião, porque elas na hora da pesquisa estavam no motel.)

As divergências continuavam: o grupo A dizia do grupo B que se compunha inteiramente de burrões irremediáveis. O grupo B, por sua vez, opinava que os componentes do grupo A não passavam de exploradores vendidos ao sistema (não fica claro, na narrativa, se o autor se referia ao Windows ou ao Linux).

Ideologia, para o grupo A, era uma doença exclusiva do grupo B e substituía o raciocínio. Já para o grupo B, a ausência de ideologia significava, pelo contrário, incapacidade de enxergar a realidade.

Essas e outras incoerências estavam em “Lugar Comum”, opúsculo de lauda e meia que não fez o menor sucesso entre crítica e público, mas que na minha opinião tem lá os seus méritos, ainda que peque pela inverossimilhança.

Seja como for, encerro dizendo que Astafânio Carlos colocou o ponto final no conto no dia mesmo de sua morte, aos 32 anos, quando tentava, usando apenas uma touca creme e por pura diversão, subir as Cataratas do Iguaçu.
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Astafânio Carlos nunca foi bom no nado de costas.
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21 novembro, 2007

GERUNDISMO


— Boas tardes. Com quem poderia ter o prazer de estar a falar neste aprazível lar? E já me adianto a pedir perdão pela péssima e involuntária rima. Encontrar-se-á o dono da residência nela, hodiernamente?
— Quê?
— Pergunto se Vossa Senhoria acaso não saberia dizer-me se há alguém na habitação?
— Que habitação?
— Esta em que vos encontrais. Seria Vossa Senhoria o proprietário dela ou pertence a outrem tal prerrogativa?
— Depende. A senhora é da Receita?
— Não, porém, se me permite um rasteiro jeu de mot, como dizem os franceses, ou pun, caso Vossa Senhoria seja anglófila: possuo a receita para vosso sucesso. Isto, posto ser Vossa Senhoria o pater familias. Estou certa? É a Vossa Senhoria que procuro?
— Não, eu não sou o Rui Barbosa. A senhora pode me dizer do que se trata, hein?
— Dir-lhe-ei, caso me informe ser Vossa Senhoria possuidora do predicado correto.
— Olha, digo a Vossa Portuguescência que faz vinte anos que deixei o colégio, de maneira que não sei se o predicado tá correto. Ainda mais que Vossa Gramaticância colocou a frase na ordem inversa. Nunca fui bom de passiva, modéstia à parte. Sem falar que a oração é coordenada.
— Subordinada adverbial condicional, se me permite. Mas Vossa Senhoria não precisa exaltar-se. Agradar-me-ia saber tão-somente se habita esta casa.
— Aha! “Esta” se refere à mais próxima, logo a senhora está falando da sua casa. Se eu responder “sim”, a senhora dirá que estou errado, porque não moro na sua casa e sim na minha. O certo então seria que usasse “essa”. Então respondo: “não”. Uhu! Botei pra lascar. Gramática é comigo, minha filha. De quanto é o prêmio?
— Infiro do que diz ser Vossa Senhoria cabeça da família. Informo-lhe, portanto: o prêmio são uma casa ou dois carros. Vossa Senhoria escolhe.
— Peraê. Essa eu vou ter que pensar. O prêmio “são” uma casa ou dois carros... Onde tá a casca de banana? No “ou”. Se o “ou” tem sentido de “e”... Mas não, o “ou” aí conota alternativa. “O prêmio é uma casa” seria o correto. Acertei?
— Creio ter Vossa Senhoria acertado. Estivesse em vosso lugar e minha escolha seria a mesma: uma casa, um lar antes de tudo. Depois haveríamos de dar conta do como nos transportar. Não é vero?
— Não, é Luiz, a seu dispor.
— Pois muito bem, senhor Luiz, para encurtarmos esta pálrea...
— Epa, minha pálrea, não! Se o preço pra ter a casa é esse, eu...
— Não, senhor Luiz, perdoe-me. Falo pálrea não no sentido de logomaquia ou bocagem, mas exclusivamente no de... como posso dizer-lho?
— Sei lá. Bocage, eu até conheço, um ou dois versos. Agora, desse tal de Logomaquia nunca ouvi falar. É espanhol?
— Cavaco.
— Cavaco? Como assim? Nasceu na Caváquia?
— Não, senhor Luiz, digo para encurtarmos o cavaco, a conversação... Enfim, para encurtá-la, digo que o senhor terá o prêmio de uma casa, ao final de breves cinco anos aplicando na Poupança Setentrional-Sul do Banco Austral do Norte, o único que sabe sempre onde você está.
— Aaaahhh... Agora entendi. A senhora é operadora de telemarketing!
— Prefiro “televendedora”. Conserva a origem greco-romana e...
— Pra cima de mim? Operadora de telemarketing? Ha! Cadê o gerúndio? E o “do qual” fora de lugar? E os erros de concordância? Conta outra, minha querida!
— Na verdade, senhor Luiz, temos passado por um longo processo cognitivo e...
— Desculpe, minha filha. Não caio nessa. Isso pra mim é golpe. Você quer meus dados bancários. Se ao menos cometesse um gerundismo! Não, não. Passar bem. (desliga)
(para si) Epf... Os pessoal tá ficando cada vez mais esperto hoje em dia. Do qual, de agora em diante, vou ter de tá adotando outro plano.

20 novembro, 2007

QUEM MANDOU O MEU QUEIJO?


Senhores, este blog, apesar de não ser um deputado, é republicano e tem a consciência negra, de modo que só estaremos voltando às atividades amanhã, 21/11.
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Dia que a partir de 2008 também será considerado feriado, ao menos municipal, posto que o ingresiástico Franciel Carlos Magalhães estará nesta serrista cidade.

Por hoje, leiam a excelente crônica de um queijo anunciado, em que meu amigo Galvão narra suas peripécias para enviar-me um coalho desde a progressista Valença, BA.

E agora vou-me embora pois, como já dizia aquela tradução francesa do Novo Testamento, nem só de queijo vive o homem. Preciso alimentar minha má-consciência.
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Até amanhã.

13 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (6)


O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.

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Que nós temos ínfima importância nos planos divinos e possuímos a única missão de reproduzir, eu sei. O que me deixa indignado é que Deus faz tão pouco caso da nossa espécie que nem ao menos se digna a explicar por quê.

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O único mérito da sociologia, a meu ver, foi ter impulsionado o comércio de boinas.

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O diabo não é páreo para Deus. Trata-se de uma criatura ainda muito humanizada. Em termos de mal absoluto, aposto mais nos vilões de telenovela.

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Deus está em tudo, é verdade. Mas confesso que gosto mais d’Ele quando vem em cápsulas de 20 mg de fluoxetina.

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Não é que Deus não exista. Você é que jejuou pouco.

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Sou agnóstico, com alguma — pouca — propensão à crença. Isso, se a televisão estiver desligada.

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Não tenho aptidão ou habilidade para coisa alguma. Qualquer dia, em nome da sobrevivência, serei forçado a abraçar a carreira de artista plástico.

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O mínimo que se espera numa relação é reciprocidade. Eu até acreditava em Deus. Mas que posso fazer se ele é ateu com relação a mim?

12 novembro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (5)


Concordamos inteiramente com a tendência da crítica especializada a achar que o humor, em literatura, é algo menor. Eu, Plauto, Shakespeare e Cervantes.

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A maior prova de que Orfeu não existe sou eu cantando.

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O Brasil já teve o ciclo da cana, do café, do ouro e da borracha. O único que permanece é o ciclo vicioso.

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Apesar de pródiga em inventar tragédias e crueldades, nem mesmo a mitologia greco-romana chegou a projetar o cúmulo da tortura e o abismo do tédio que são passar uma hora numa fila de banco apinhada de gente, no verão, sem ar-condicionado, escutando Jorge Vercilo.

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Para ser arrogante, o sujeito ao menos precisa ser inteligente. Não existe nada esteticamente mais deplorável do que um burro esnobe. À exceção, talvez, de um burro sem dentes.

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Faça uma boa ação. Ensine um crítico literário a ler.

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Para agradar a amigos que reclamam da minha neofobia literária, resolvi comprar os últimos romances publicados. E confesso que gostei. Aliás, não foi surpresa. Sempre fui fã da literatura do século XIX.

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Quantos quilos de Will Self, Brad Buchanan, Don DeLillo, Pat Barker, Tim O’Brian, Kazuo Ishiguro, Philip Roth e congêneres valem um hexâmetro de Ovídio?

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Sou a favor do aborto, mas com restrições. Para mim, o procedimento só deveria ser permitido nos casos de fetos maiores de vinte anos que escutam heavy metal.

09 novembro, 2007

MARCONÍADA (ÚLTIMO CANTO)


Em São Paulo, saber se o céu existe não é uma questão metafísica, mas puramente astronômica. De um lado, somos beneficiados pelo fato de uma agência estadual regular rigidamente a qualidade do ar, evitando que entre muito oxigênio em sua composição. De outro, contamos com um fator econômico ancilar: o oxigênio paulista é tão pobre que não consegue passar no pedágio da Dutra.

Essa combinação venturosa tem como principal conseqüência, segundo comprovei, o despertar de uma irrefreável nostalgia. No meu caso, a nostalgia de uma asma esquecida na adolescência e que voltou fulminante para ter sobre mim um efeito singular — singularíssimo: de pulmões, passei a ter pulmão.

Foi, portanto, com esse potencial de lhama subindo os Andes carregada de mantimentos que saí do supermercado. Já ao final do primeiro quarteirão, tal era meu aperto que, sem estorvo, conseguiria coçar a sobrancelha com a língua. Meu elegante caminhar me credenciaria a ser adotado pelo arquidiácono de Notre-Dame.

Alcançada a segunda esquina, o placar era de seis a zero para a lei da gravidade e a força de atrito nem tinha entrado em campo ainda. Improperei Newton e o Parlamento inglês que aprovou medida tão arbitrária, sem a qual os objetos ainda hoje estariam todos flutuando por aí. E só não soltei um palavrão porque, exposta ao frio, minha língua estava tomada pela cãibra.

Porém, homem usado a esportes radicais — entre eles, beber leite diariamente no Brasil —, avancei, intrépido. Dado meu empenho, tudo levava a crer que ao fim me caberia o sucesso obtido, no mar, por Ulysses. Não o herói épico, mas o Guimarães.

Ao chegar a minha rua, trajava roxo, a cor da estação. Sem fôlego, tive um insight digno de Eratóstenes: descobri que a Terra não é plana e gira. Aliás, modestamente, devo dizer que também no que diz respeito à visão, a minha possuía a mesma profundidade da do sábio. Isso, a se confiar nas fontes que dizem ter ele terminado a vida cego.

Quando finalmente cheguei em frente ao meu prédio e com a ajuda do porteiro entrei no átrio e no elevador, perseverante, só via uma coisa na minha frente: o chão.
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Uma vez no meu andar, joguei os sacos pelo corredor (menos o imanente, que não sabia onde estava), abri a porta com os caninos e engatinhei até o sofá, onde me quedei, trêmulo como o falecido João Paulo II, mas dominando menos idiomas.

Duas horas depois, foi ali que minha mulher me encontrou, ainda sem conseguir coordenar os movimentos, no entanto já conseguindo respirar sem emular o Francisco Cuoco.

— Ai, meu Deus! Que foi, que foi? Fala! Falta de ar? — perguntou ela, alarmada.
— Não — respondi assim que pude, na manhã seguinte. — De clorofila.

Contudo, como a prolongada ausência de oxigênio me deixou um pouco esverdeado, dormirei toda a semana de luz acesa. Mantenho esperanças de, até as próximas compras, lograr fazer fotossíntese.

08 novembro, 2007

MARCONÍADA (2)


Segundo Sun Tzu, fazer supermercado é uma atividade de caráter bélico que pode ser dividida em cinco etapas: recolher as mercadorias, levá-las à caixa mais vazia, ultrapassar a velhinha que segue a passos lentos com o mesmo objetivo, pagar e, por fim, trazer os artigos adquiridos para casa.

Das cinco, a primeira e a segunda causam dor moral. A terceira é perigosa, pois sempre há a possibilidade de a velhinha saber caratê. E a quarta provoca dor física. A única de que me desincumbo com facilidade e sem reclamar é a última. Afinal, moramos a três quadras da loja e há entregadores para fazer o serviço. Não que fique de mãos abanando. Vocês precisam ver a habilidade com que forneço o endereço de casa.

Acontece que, talvez porque só estejamos realizando compras no mesmo lugar há escassos dois anos, não sabia que o serviço de entrega se encerra às oito horas da noite. Detalhe só observado por mim às oito e vinte, após pagar todas as compras — cuja quantidade, com alguma economia, daria para alimentar durante um mês o Diabo da Tasmânia.

Olhei para os sacos plásticos, eles olharam para mim. A princípio, assobiando e fingindo não me ver. Depois, rindo desabridamente. O repolho, diga-se em sua honra, foi o único que apresentou algo semelhante a compadecimento. Ele e os aspargos.

Já eu estampava no rosto a felicidade do último ato da Traviata. Arranquei alguns fios de cabelo do sovaco e xinguei por ordem alfabética e com sobrenomes em caixa-alta toda a árvore genealógica da família Diniz.

Mais que isso, lamentei profundamente o fato de não ter no bolso o “Dicionário Brasileiro de Insultos” de Altair Aranha, que roubei há pouco da Paula
. Mas lembro de ter usado “mancípio” e “punga” para me referir a um ou dois funcionários.

Transcorridos alguns minutos, disse de mim para comigo ser homem o suficiente para encarar o problema sem rodeios. Concordei com meu interlocutor, fazendo algumas ressalvas. E recobrei o ânimo, convencido de que precisava agir como um adulto.

Comecei então a arrastar a perna, retorcer o braço, mancar e babar, alternadamente, forjando uma deficiência física para que alguém se predispusesse a me ajudar a carregar as compras.

O plano de despertar compaixão era bom. Pena que estou em São Paulo, onde não há nada mais dessueto que o PSDB perder uma eleição ou alguém se emocionar. Em 1978, segundo dizem, um aposentado do Brás chegou a derramar uma lágrima de alegria, mas foi multado pela prefeitura, sob violentas imprecações dos vizinhos.

Assim, resignado, restou-me arrepanhar os sacos todos — inclusive o meu que, devido ao peso, recolheu-se um pouco — e pôr-me em marcha para casa, com o equilíbrio de um discurso do presidente e a capacidade respiratória do Volpone.

(TERMINA AMANHÃ)

07 novembro, 2007

MARCONÍADA (1)


Fazer supermercado é, para mim, um gênero incontroverso e ainda não catalogado de tortura. Com a diferença de que a gente não sente cosquinhas. Em compensação, precisa pagar na saída.

Excetuando-se a ida a uma palestra do Gilberto Kassab, ignoro o que mais pode haver de tão calino e humilhante quanto passar uma hora empurrando um carrinho e enfiando produtos dentro dele.

No entanto, como espécime dos mais involuídos da cadeia alimentar, o ser humano necessita de enorme variedade de comidas para sobreviver. Tivéssemos atingido o estágio das plantas e no máximo procuraríamos um supermercado em dias de pouco sol. Ainda assim, só utilizaríamos as prateleiras das lâmpadas.

Uma alternativa seria os produtos virem caminhando ou rolando sozinhos até nossas residências. Dessa maneira, teríamos apenas o trabalho de deixar a porta aberta e, eventualmente, prestar auxílio a uma lata de extrato de tomate mais desastrada que não conseguisse escalar o armário.

Mas, apesar de não falarem — um evidente sinal de superioridade —, aparentemente as mercadorias são mais atrasadas que o ser humano (há certa disputa nos meios científicos sobre se ministros do atual governo entram na classificação). O que aprenderam até agora em matéria de cinética foi cair das gôndolas, causando maior prejuízo ao cliente.

Segue que, não havendo outra opção, semanalmente sou obrigado a “fazer Bompreço”, como se diz lá no Recife. No caso, “fazer Pão de Açúcar”, pois inexiste em São Paulo aquele estabelecimento e, sendo um homem altruísta, gosto de ajudar o Abílio Diniz a ganhar um pouco de dinheiro.

Para tanto, conto com a inestimável ajuda de minha cônjuge. Afinal, senão a primeira — não menosprezemos o coçar as costas um do outro —, uma das bases eviternas do casamento saudável é, sem dúvida, ter alguém para fazer feira conosco.

Nos dias em que meu bem está de TPM, então, sua prestança duplica. Vendo a bravura com que recolhe as provisões, posso atestar: estivesse ela ao lado de El Cid, os mouros não apenas teriam sido expulsos da península ibérica, mas perdido também o Oriente Médio, todo o norte da África e mais dois territórios a sua escolha.

Porém, ultimamente minha amada tem se dedicado a tarefa quase tão árdua quanto aumentar o lucro de varejistas: estuda para concurso público. E como, a não ser ela a nos sustentar com seu salário de estatutária, a probabilidade de vermos dinheiro nos próximos seis meses é tanta quanto a do América de Natal fugir do rebaixamento, ontem peguei a listinha e me dirigi sozinho às compras.
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(CONTINUA AMANHÃ)

06 novembro, 2007

PORQUE NEM SEMPRE SE ACORDA DE BOM HUMOR


— Bom dia, senhor. Tudo bem? Aqui é a Nadja, da ***. Com quem eu vou estar falando, por favor?
— Olha, Nadja, com quem você vai falar por favor, eu não sei. Agora, que você deveria, por obrigação, estar falando com Celso Cunha, Rocha Lima ou qualquer outra gramática do tipo, não resta a menor dúvida.
— Desculpe, senhor, não entendi. O senhor poderia estar repetindo?
— Eu, não, que já passei pelo segundo grau. Agora você, Nadja, pelo visto, deveria repetir pelo menos umas cinco vezes a quarta série do ensino fundamental.
— Como, senhor?
— Se quiser comer, tanto melhor. Grama, gramática, o radical é praticamente o mesmo, de maneira que você não mudará muito sua dieta.
— Desculpe, senhor, com quem eu vou estar falando mesmo?
— Celso Cunha, Rocha Lima ou quem sabe o Bechara. Ainda que, no seu caso, talvez a questão seja mais de raciocínio lógico. Daí por que talvez fosse melhor começar com aulas de silogismo. Em casos extremos, a transfusão cerebral tem se mostrado uma boa alternativa.
— Bom dia, senhor Silogismo, meu nome é Nadja e eu represento a ***. O motivo da minha ligação é que a *** vai estar promovendo uma promoção...
— De gerúndios, eu imagino?
— Não, senhor, na verdade vai estar sendo de assentos de acrílico para privada. Na assinatura de um ano da revista ***, o senhor vai estar ganhando um assento de acrílico inteiramente gratuíto. O senhor estaria interessado em estar participando de nossa promoção?
— Infelizmente não, Nadja.
— E eu poderia estar sabendo o porquê, senhor?
— Olha, o caso é que eu gosto de fazer meu cocô confortavelmente, sentado no vaso. E pelo que depreendo do que você diz, vou acabar caindo no chão. Vocês empregam os acentos fora de lugar, Nadja.
— O senhor já teve a oportunidade de estar experimentando um dos nossos assentos, senhor? De qual tipo, exatamente?
— Do que dói nos ouvidos quando a gente escuta, Nadja.
— Desculpe, senhor, mas o senhor deve estar enganado, a colocação do assento vai estar sendo rápida e prática, do qual o cliente vai estar tendo plena satisfação.
— Bom, quanto ao Duqual, não sei, Nadja, faz tempo que não converso com ele, anda meio sumido, só aparece fora de hora ultimamente. Geralmente querendo me vender alguma coisa. Quanto a mim, não estou interessado.
— Então o senhor não vai querer estar adquirindo a promoção, sr. Silogésio?
— Não, Nadja, obrigado.
— E eu poderia estar sabendo o porquê?
— Depende. Você tá usando “por que” junto ou separado?
— O quê?
— “O quê” com ou sem circunflexo?
— Ahn... Err... Obrigado pela sua atenção, senhor. O senhor não teria um conhecido que poderia estar me indicando para a promoção?
— O Aurélio.
— O senhor teria o telefone dele, senhor?
— Ah, desde o começo suspeitei que você não o conhecesse. Que pena. A que ponto chegam algumas relações familiares!
— Não tô entendendo, senhor.
— Você e o Aurélio, seu próprio pai, sem se falarem. Isso é um absurdo. Tá aqui o número, ó: **78.3454.
— Obrigado, senhor. A *** agradece e vai estar lhe desejando um bom-dia. Mais alguma coisa?
— Sim. Se o Aurélio não estiver, aproveite para falar com o Houaiss, ele também pode ser de grande valia.
— Moram juntos, senhor?
— Não sei se juntos. O Houaiss tinha mania de comer pratos exóticos, de maneira que talvez esteja no inferno.
— Zona Leste?
— Não, não. O inferno é ruim, mas não chega a ser a Zona Leste. É mais pavimentado.
— Não, senhor, eu tô perguntando se o prefixo é da Zona Leste.
— Ah, sim. Mas você vai encontrá-los mesmo é no centro.
— Perto da Luz?
— O Aurélio, pelo menos, acho que sim. Foi um grande homem. Em todo o caso, ligando pro centro, peça pra falar com a mãe-de-santo de plantão. É uma bela profissional. Vai chamar os dois pra você.
— Obrigado, senhor. A *** agradece e vai estar lhe desejando um bom-dia.
— Um bom-dia pra você também, Nadja. E que Rui Barbosa a acompanhe.
— Amém, senhor.

05 novembro, 2007

UM JULGAMENTO LENDÁRIO


PROMOTOR: Matou o pai e manteve intercurso sexual com a mãe, excelência.

ADVOGADO: Protesto. Meu cliente é um personagem mitológico, excelência. O caso dele deve ser levado às Erínias e não a um tribunal comum.

PROMOTOR: Personagem mitológico o Maluf também é, meu filho, e nem por isso...

CORO: Ó Édipo, qual será teu futuro? Ó Édipo, homem assinalado pelos deuses! Ó Édipo, que será de ti?

JUIZ: Peço que a acusação observe o linguajar no tribunal. Nada de palavrões.

PROMOTOR: Perdão, excelência. Prossigamos. O réu, para cúmulo da afronta, teve um filho com a própria mãe. Se vira moda, como é que a gente vai conseguir distinguir e nomear nossos parentes de agora em diante? Um filho que ao mesmo tempo é neto! Tem gente que já faz confusão com genro e nora, excelência!

CORO: Ó Édipo, que destino cruel! Ó Édipo, que deus zangado levou-te a fornicar com a própria mãe?

ADVOGADO: Lembro, excelência, dos grandes serviços prestados à cidade pelo meu cliente quando esta se encontrava aterrorizada pela Esfinge.

PROMOTOR: Cá pra nós, excelência, a Esfinge, com aqueles segredos ridículos dela? Ora, todo mundo sabe o que é que pela manhã tem quatro pés, à tarde dois e à noite três.

JUIZ: Eu, não. E olha que adoro adivinhas.

ADVOGADO: É o homem, excelência.

JUIZ: Ahn...

ADVOGADO: Queria ver era o Édipo dizer o que é que cai em pé e corre deitado, isso sim. Além do mais, a Esfinge era mulher. Não conseguiria segurar o segredo por muito tempo.

CORO: Ó Édipo, o fado não leva ao menos teus trabalhos em conta! As Moiras já abrem as tenazes para cortar o fio da tua vida, ó Édipo!

JUIZ: Seja mais claro. O que você quer dizer com isso?

PROMOTOR: Quero dizer que as mulheres...

JUIZ: Danem-se as mulheres. Agora você me deixou curioso. Quero saber é o que é que cai em pé e corre deitado.

ADVOGADO: Meu cliente pede para comunicar ao tribunal que é a chuva, excelência.

JUIZ: A chuva! Isso mesmo. Esse menino é bom.

PROMOTOR: Tudo bem, excelência. Quero ver agora ele adivinhar o que é que tem escama e não é peixe, coroa e não é rei.

CORO: Ó Édipo, põem-te à prova como um reles criminoso! Ó Édipo, querem...

JUIZ: Silêncio no tribunal! Por favor, alguém pode tirar o coro dali? Meu Zeus do céu, ninguém agüenta mais essa ladainha!

CORO: Ó nobre mantenedor das leis, então é assim que reages? Ó homem ímpio, calar-te-ás a respeito do incesto que cometes com a tua própria irm...

JUIZ: Pssss! Levem o coro para fora, agora!

CORO: Nada falarás sobre teu caso extraconj...

JUIZ: Fora! Ótimo. Podem prosseguir.

ADVOGADO: Meu cliente diz que a pergunta é capciosa. Os gregos ainda não conhecem a fruta em questão, excelência, pois que é originária de regiões para além do Oceano, desconhecidas dos povos antigos. No entanto, afirma que a resposta é: abacaxi.

JUIZ: Uh, uh! Muito bom. O garoto é um gênio.

PROMOTOR: Tem muitos dentes e não consegue morder?

ADVOGADO: Meu cliente diz que é o alho, excelência.

JUIZ: Muito bem!

PROMOTOR: Quanto mais se perde, mais se tem?

ADVOGADO: Sono.

PROMOTOR: Quanto mais se tira, maior fica.

ADVOGADO: Buraco.

JUIZ: Grande! Olha, sr. Édipo, estou inclinado a aliviar sua pena. Uma inteligência como a sua... O senhor não é um beócio qualquer!

PROMOTOR: Calma, excelência. Por favor, só mais uma. Uma só, excelência! O que é que se parte e se reparte e fica sempre do mesmo tamanho?

ADVOGADO: Uhm... Meu cliente diz que é amor de esposa, excelência.

PROMOTOR: Ha, ha, ha. Errou, excelência! É amor de mãe!

JUIZ: Ah!... Que pena, sr. Édipo! Nesse caso, infelizmente, terei que condená-lo ao desterro. Guardas! Levem-no. Até lá, aviso: não tiraremos os olhos do senhor.

01 novembro, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM JOGADOR DE FUTEBOL


No princípio era a bola e Deus disse:

— Faça-se o gol!

Mas não tinha ninguém para chutar. E Deus pegou um punhado de grama, passou saliva para dar a liga e depois soprou. E Deus criou o primeiro jogador de futebol: Cláudio Adão. E Deus achou bom. E foi esse o primeiro tempo da criação.

Em seguida, separou Deus a pequena da grande área e ambas da intermediária, e passou cal nas laterais do campo elísio. E foram esses os acréscimos do primeiro tempo da criação.

E depois fez Deus as traves, o círculo central, a arquibancada, os anjos para pôr na arquibancada para torcer pelo seu time e o ingresso a R$ 30. E Deus achou bom, porque tinha carteira de estudante e pagava meia. E foi esse o intervalo do primeiro para o segundo tempo da criação.

Mas como Deus achasse que o jogador de futebol estava muito só e não teria com quem gastar seus dólares ou a quem dar carona em seu carro importado, do cérebro do jogador de futebol, fez a maria-chuteira. E Deus achou boa. E foi esse o segundo tempo da criação.

Então Deus perguntou ao jogador:

— Preparado?

E o jogador ficou mudo, pois o verbo não habitava nele. Então, Deus, em sua infinita bondade, criou as expressões “caixinha de surpresa”, “a gente vamos”, “o professor”, “respeitar o adversário”, “vai ser um jogo difíce” e mais umas duas ou três. E foram esses os acréscimos do segundo tempo da criação.

Então Deus soprou do seu apito. E o jogador de futebol correu e, com classe, chutou a bola no ângulo. Mas o diabo foi lá e defendeu. E Deus, em sua equanimidade, mandou voltar o lance. Mas o diabo contestou:

— Roubo não, hein? Eu nem me mexi!

E Deus, em sua infinita bondade, deu um cartão amarelo para o diabo. E o diabo insistiu:

— Que marmelada! Só porque é o dono da bola!

E Deus reagiu e, com um cartão vermelho, mandou o diabo para o fogo eterno mais cedo. E o primeiro jogador chutou e marcou. E Deus comemorou:

— Goool! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso!

E, na comemoração, o primeiro jogador tirou a folha de parreira que cobria as suas vergonhas, rodou-a sobre a cabeça e jogou para a maria-chuteira que estava na arquibancada.

E Deus não achou nada bom. E deu um vermelho para ele. E foi assim que, punido por conta da mulher e da cobra, o primeiro jogador foi expulso do campo elísio e teve que treinar de sol a sol para conseguir fazer gols com o suor do próprio rosto em um time da Segunda Divisão.
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OUTROS MITOS DA CRIAÇÃO
Sob a Perspectiva de um Deputado Federal
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(ANTES DE COPIAR E COLAR ESTE TEXTO ONDE QUER QUE SEJA SEM PEDIR AUTORIZAÇÃO OU DAR A AUTORIA, PARE, PENSE DUAS VEZES, PULE UMA CASA, PENSE MAIS TRÊS VEZES, REBOBINE A FITA E PENSE DE NOVO. OS TEXTOS DESTE BLOG ESTÃO DEVIDAMENTE REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL. PARECE INCRÍVEL E TALVEZ JÁ HAJA NO BRASIL UM MOVIMENTO CONTRA ESSA ARBITRARIEDADE, MAS POR ENQUANTO PLÁGIO AINDA É CRIME PREVISTO NO CÓDIGO PENAL. É VERDADE QUE ESTRANHOS FENÔMENOS DE CRÔNICAS APARECENDO PRONTAS EM COMPUTADORES NOS MAIS DIFERENTES RECANTOS DO PAÍS VÊM SENDO RELATADOS. MAS, AVISO AOS CRENTES: CUIDADO, ESTE BLOG É ATEU. EM MATÉRIA DE RELIGIÃO, SÓ ACREDITA MESMO EM ADVOGADOS, JUÍZES, NA POLÍCIA E NO SISTEMA PENITENCIÁRIO.)