26 outubro, 2007

POLICHINELOTERAPIA


Venho de uma terra onde as quatro estações são bem definidas: de dezembro a março, temos o verão; de março a junho, é a vez do verão; de junho a setembro, o verão dá lugar ao verão; e, por fim, de setembro a dezembro, quando o verão vai embora, o verão retorna, reabrindo o ciclo.

Não tenho dúvidas de que os antigos tinham em mente o Recife quando falavam nos Hiperbóreos ou, antes, que o diabo tenha construído o Inferno tomando como base o projeto da cidade maurícia e procedendo a pequenas alterações: substituiu o fedor de esgoto pelo de enxofre, deixou a temperatura um pouco mais agradável, instituiu um mínimo de moralidade, diminuiu os índices de violência.

Em suma, situação atmosférica mais estável que a recifense só se viu antes em Gibeão, quando Josué parou o sol. Com a vantagem de que, até onde sei, a maioria dos pernambucanos ainda conserva os prepúcios.

É certo que Vivaldi não acharia muito estimulante morar em lugar assim e talvez caísse numa crise criativa sem precedentes, largando o violino, tingindo a peruca com água oxigenada e se integrando como bailarino a uma banda de forró eletrônico. Mas a pessoa a tudo se acostuma. E, afinal, existem coisas piores no mundo do que ter de usar absorventes íntimos sob os sovacos para estancar a transpiração. Prova disso é o seriado Antônia.

Há dois anos, porém, mudei-me para São Paulo, lugar onde as estações são tão incertas que até as de metrô de vez em quando afundam. Clima constante por estas bandas, só o de insegurança. Aqui, em termos de previsibilidade, o máximo que se pode dizer é que o PSDB ganhará as próximas vinte e cinco eleições.

Em função disso e porque tenho tanta simpatia por baixas temperaturas quanto Maria I tinha por anglicanos, carregava sempre à mão, para caso de necessidade, casacos, abrigos, jaquetas, gorros, cobertores, meias e uma lente de aumento. Esta última, para matar a nostalgia do pinto em épocas de profunda algidez.

Todo esse trabalho vinha enfrentando por me recusar a aderir ao que, segundo minha mulher, é um antigo método espartano de combate ao frio. Não, não me refiro à pederastia. Tampouco aludo à luta greco-romana, esporte viril cujo objetivo é derrubar o adversário através de violentos golpes de oratória.

A técnica usada por minha mulher e, ao que parece, por grande parte da comunidade sul-rio-grandense para evitar o arrefecimento do corpo é a polichineloterapia. Ao longo dos últimos anos, ao passar pelo sofá e descobrir que a criatura gemedora, tiritante, entanguida debaixo de um monte de panos que ali se encontrava era eu, ela não se cansava de repetir: “Faz polichinelo que passa”.

Não apenas insistia na medicação como, com o tempo, passou a prescrevê-la para os males mais variados. De tal maneira que, a se crer nela, havia descoberto algo melhor que o emplastro Brás Cubas: uma maneira de enfiar todos os males humanos de volta na boceta. (Boceta de Pandora, leitor. Quem fala é Hesíodo, não sou eu. E se não foi Hesíodo, me perdoe. Também Machado trocou Heráclito por Empédocles e nem por isso deixou de figurar no cânone de Harold Bloom.)

Ora, minha mulher conversa com plantas. Com uma mulher que conversa com plantas e, ainda por cima, infla as narinas sem mover um músculo do rosto, não se discute. Porém, homem de princípios atravincados, mantive sempre em mente não haver nada no mundo tão grave que me levasse a praticar algo estranho e nojoso como o exercício físico.

Ontem, contudo, como visse que a temperatura não apenas despencava, mas certamente rolava pela escada abaixo e, batendo a cabeça no último degrau, fraturava umas cinco vértebras, resolvi tomar medida drástica. Testei o remédio e, boquiaberto, descobri que ele funciona.

Sim, em nome da verdade, que atualmente, segundo se diz, encontra-se refém de deputados num edifício escuso de Brasília, afirmo: tão-logo concluí cinqüenta polichinelos, o frio simplesmente desapareceu. Sumiu. O processo é, de fato, milagroso.
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Resta agora saber se na cura de enfermidades a polichineloterapia mantém a mesma eficácia. Pelo que apurei, logo após o experimento de ontem à noite, posso garantir que, ao menos contra asma, arritmia, taquicardia, tremedeira, câimbra, deslocamento de bacia, tontura, dor nas costas e distensão muscular, ela não surte o menor efeito.
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15 comentários:

Diego Jock disse...

Marconi,

Fico sem palavras com seus textos. Principalmente pelas crises de riso que eles proporcionam!

Abraços,

Diego, vulgo Daniel

edu disse...

"Vulgo Daniel" é nome de guerra dele? :-) Amigo... amiiiigo...

Será que a Dona Clodoalda obriga o Mr. Bean a polichinelar? Sei que ele mata aranhas com chinelo... Hmmmm...

Gustavo Chaves disse...

Viva o polichinelamento então!

Jens disse...

Na minha juventude dourada e transviada, tinha um amigo que falava com postes, depois de fumar umas folhas de bananeiras. O nome dele era Matusco, vulgo Prepúcio - ou o contrário. Bons tempos aqueles.
***
Depois dos católicos, do Papa e do Sarney, compraste briga com os recifenses e os paulistas - tua lista de desafetos está crescendo.
***
Bom findi. Se a lente de aumento ajudar, manda bala!
***
Um abraço.

Professor disse...

Então. Viva o polichinelo.

João disse...

Cara, aquele texto seu que o Fausto plagiou está circulando na internet como se fosse do Verissimo.

Anita disse...

estou justamente pulando corda hoje porque 'tá bastante frio por aqui, bruh, bruh, bruh

Bom fim-de-semana,

A.

Moacy Cirne disse...

"Princípios atravincados"... não sei exatamente o que quer dizer, mas gostei um bocado. De resto, no meu Seridó, temos uma estação (a seca) e, de tempos em tempos, duas: inverno (um ou dois meses) e seca (11 ou 10 meses). Um abraço.

Ana Maria disse...

Hahaha, asma, arritmia, taquicardia, tremedeira, câimbra, deslocamento de bacia, tontura, dor nas costas e distensão muscular? Tô fora da polichineloterapia. :-)

Costajr disse...

Não sei se você conhece Brasília, mas para quem veio do Recife como eu, garanto: JK criou um inferno muito pior. Recife ao menos é úmido. Aqui, está tão seco que até o leite da vaca já sai em pó! Será por isso que andam pondo água oxigenada, ácido nítrico e soda cáustica no leite?

Ane Brasil disse...

Marconi, meu bruxo, o dia em que você cair em Porto alegre, tá lascado!
olhá só, nem todo o gaúcho é doido de ficar fazendo polichinelo toda a vez que cai a temperatura... eu hien? Se assim fosse, sei lá onde teria parado o meu cérebro.
ah, e não esquenta com o Jeans não, ele tá numa fase fiadaputa... tu acredita que ele foi lá no meu blogue me zuar, dizendo que eu tenho um coração meigo? ah!
sorte e saúde pra todos - até pros doidos que fazem polichinelo!

Ane Brasil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo disse...

Muito bom, o melhor dos últimos tempos..

Anônimo disse...

Voltei a te encontrar depois que desapareceste de OLobo.
Humor de primeira, como sempre.
� bom voltar a ser teu leitor.
Araken Vaz Galv�o

Ulisses Adirt disse...

Surte efeito sim... vc é que fez poucos polichinelos. Eu sei que depois dos 500 a tontura passa (pode apostar que vc já vai estar deitado no chão).