30 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (4)


Perguntam-me se não leio os autores contemporâneos. Mas é claro que sim. Sobretudo os contemporâneos de Voltaire, Dickens, Horácio e Aristófanes.

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Do ponto de vista da evolução lingüística, o século XXI ficará conhecido como aquele em que, para falar ou escrever sobre "subliteratura", críticos literários passaram a dispensar o prefixo.

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Quem passa horas conversando sobre literatura em mesa de bar são os chatos. Escritores de verdade falam mesmo é de dinheiro e de mulher.

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Outro dia estive com literatos. Falou-se do mais recente livro de um célebre autor de Uganda. Comentou-se a próxima obra a ser lançada por um notório escritor manco tailandês. Discutiu-se se o melhor romance de capa vermelha com bolinhas roxas do ano havia sido aquele lançado na Letônia ou o da Bolívia. Sobre os clássicos, nada ouvi. Perguntei, me disseram não haver pressa. Reservarão os próximos dois mil anos para lê-los.

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Não vejo incoerência alguma em ex-prostitutas virarem escritoras. O que ocorre, na verdade, é uma simples mudança de foco. Elas deixam de fazer com os clientes o que passam a fazer com a gramática.

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Eu podia estar roubando, estuprando, matando ou abrindo uma empresa de plano de saúde, mas estou tentando ganhar a vida honestamente.

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Existem inúmeras atividades mais promissoras que a de venda de livros no Brasil. A de aluguel de aquecedores elétricos em Teresina, por exemplo.

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Sei de alfabetizadores que trocaram a profissão pela de assistente de atirador de facas. Não se pode dizer que estejam satisfeitos. Mas o novo trabalho, quando pouco, é menos insalubre.

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“Preconceito ideológico” é o nome que se dá a uma forma distorcida e parcial de apreensão da realidade e ocorre em função de certos interesses ou inclinações. Desde que estes não sejam os nossos, claro. Se forem, o preconceito ideológico é chamado de “verdade absoluta”.

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Em retribuição aos belos serviços de cura de homossexuais divulgados por certas igrejas, acho que os grupos gays deveriam fazer sessões semelhantes para sarar quem deseja se livrar da condição de evangélico.

11 comentários:

Marcelo F. Carvalho disse...

Porra, Marconi, este "parágrafo" é brilhante:
"Não vejo incoerência alguma em ex-prostitutas virarem escritoras. O que ocorre, na verdade, é uma simples mudança de foco. Elas deixam de fazer com os clientes o que passam a fazer com a gramática."

Muito bom!

Ane Brasil disse...

Porra, Marconi, assim não dá!
Você disse tudo o que eu queria e mais um pouco... assim falta idéia pros outros! Depois reclama de ser plagiado...
sorte e saúde pra todos!

Jens disse...

E aí, viadão, tudo bem? (nada de preconceito, apenas uma forma carinhosa de tratamento usada pelos baguais do Sul com aqueles que moram em outras localidades e não tem o privilégio de viver no RS. Existem variações: "e aí, seu corno?", "e aí, sua bichona?", "e aí, seu porra?". Somos assim, carinhosos.
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Concordo contigo: o negócio é grana e mulher. Acrescentaria também o viagra.
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Começou a Feira do Livro e eu tô sem grana. Não tem algum aí pra emprestar? Não é para comprar livros. É pra beber beber choppe e tequila e ficar me exibindo para as mulheres no bar do Margs. Ainda tô invicto este ano.
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Porra, agora arranjaste bronca com com os evangélicos. Em breve não poderás mais sair de casa.
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Fui. Tenho de trabalhar. Um abraço.

Josias de Paula Jr. disse...

Quanto ao último tópico, parece já haver um exemplo na Bahia. A cura é empreendida pelo ativo (e passivo) grupo de homossexuais de Salvador,e se intitula:
"Não precise de pastores, tenha você próprio(a) uma pomba do Senhor".
Não peguei detalhes sobre o método.

Ana Maria disse...

essa dos evangélicos tá ótima, sem desmerecer as outras, claro. :-)

Moacy Cirne disse...

Gousps empmigeps, isto é, aplausos demorados - em gaderipolutês. Ogigbdns!

Serbão disse...

bom, quando tomarmos aquela cerveja com o Franciel aqui em SP, deveremos conversar sobre livros ou sobre dinheiro e muié???

Mani disse...

Adorei a ultima sugestão!!!

edu disse...

Sobre este último pensamento, todos sabemos que teríamos muuuuuito mais sucesso em CUrar os evangélicos. Não existem ex-gays, existem machos-que-ainda-não-deram! :-)

sandra camurça disse...

Se teu pensamento é "sub" o meu é pura quinquilharia... Beijo.

Anita disse...

Marconi,

você precisava vir aqui falar com uns ditos "brasilianistas" (eufemismo para "feministas" - ouch!agora me crucificam! Que ninguém leia isso!) que querem que alunos de pós-graduação leiam Patrícia Galvão (Pagu, é isso mesmo). O cânone? Who cares? O negócio é pop culture. Fui a única aluna (do sexo femininino, hehehe) que não fez aulas de "women studies".

Disse: "ué, acho ótimo, mas o meu negócio é literatura". Interdisciplinaridade? (isso é palavra em português?) Acho ótimo também. Mas o meu negócio ainda é literatura. De vez em quando lingüística. Literatura engajada? Ah não! Os bons portugueses é quem diziam "não dá para misturar alhos com abrolhos"

Bjs.