18 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (12)


— Como pura criação do engenho humano? — indagou Sócrates. — Ou materialmente, a exemplo do cavalo e da vaca?
— Tá me chamando de vaca, feioso? — quis saber Afrodite.
— Não. O que digo é que uma vaca...
— De novo? Então você acha que minhas tetas são muito grandes? Ou é meu comportamento sexual que você crê devasso?
— Longe de mim, Cípria. Na verdade...

Sem querer ouvir seus argumentos, nesse instante, a Calipígia desferiu um estrepitoso tapa no rosto do mestre de Platão, fazendo sua cabeça girar sobre o pescoço. Em seguida, vermelha de raiva, cruzou os braços e perguntou:

— E esse tapa, você diria que existiu ou não, meu querido Sócrates?
— Bom — argüiu o filósofo, massageando o pômulo esquerdo —, seria correto dizermos que uma galinha, mesmo depois de comida, continua existindo em nosso corpo? Ou uma galinha apenas existe enquanto pudermos contemplá-la?
— Galinha? Repita, se você for homem!
— Pois não. A galinha, dizia eu...

Aqui a cipriota agarrou-se às barbas do pensador, gritando:

— Galinha é a vó!
— Ai! ai! ai!
— Ué? Tá doendo? Mas se esses puxões nem existem! São produto apenas de minha técnica maiêutica de pôr à luz tufos de cabelo!

— Socorro!

Certamente a divina Afrodite teria derrotado dialeticamente o pai da filosofia, em função da consistência de seus argumentos. De fato, ouso dizer que o venceria de maneira fragorosa, fazendo barba e bigode, caso as ninfas e Eros não houvessem intervindo.

No entanto, apesar destes terem conseguido apartar os dois, não puderam impedir que, num último acesso de raiva, ela aproveitasse uma ocasião em que o filósofo estivesse de costas para dar-lhe um arrepelão, dizendo:

— Confiram agora se o mar existe!
— Confiram? — estranhou Sócrates, caindo na água. — Por que o plura... glub?
— Confiram — reafirmou a deusa. — Você e seu demônio.

E quando ele reapareceu na superfície, debatendo-se, ainda emendou, desdenhosa:

— Coitada de Xantipa. Aquela moça merecia coisa menos pior...

Em seguida, o marisco se fechou rapidamente, por pouco não levando um ou dois dedos do Senhor. E, impulsionado por um estrondeante pum de Zéfiro, desapareceu na direção oposta, deixando Sócrates, prestes a se afogar. (CONTINUA)

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2 comentários:

Moacy Cirne disse...

Cr$isto é a solução, como já poetava Décio Pignatari, nos velhos tempos de uma moeda chamada "cruzeiro". Como assim? O comentário não tem nada a ver com retornos frustrados e outras bossas? Consultando Sócrates, o próprio respondeu: "Claro que tem! Depois de uma goleada do Brasil, tudo é possível".

Jens disse...

Esse troço tá muito louco. E eu tô de ressaca. Portanto: passar bem. Dê lembranças à família.
(Tem um engov aí?)