15 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (11)


O bom Senhor afundou muitos metros até que, de repente, uma espécie de força superior começou a impulsioná-lo para cima. Em poucos segundos, se viu na superfície de novo, de pé sobre as ondas. E sorriu, orgulhoso, torcendo a túnica para tirar o excesso de água:

— Os milênios passam, mas eu mantenho a forma.

Tão-logo pronunciou essas palavras, no entanto, foi violentamente lançado para cima, deu uma milagrosa cambalhota no ar e caiu belamente de queixo na água, de tal maneira que se o lançamento de avatares fosse esporte olímpico, teria conseguido ao menos um bronze.

Voltou a mergulhar, porém não foi muito fundo e, pondo a cabeça mais uma vez para fora da água, deparou-se com a seguinte cena: uma concha enorme acabava de se abrir e, dentro dela, a dos risos amante, Afrodite, seminua, falava para Sócrates:

— E agora? Acredita que eu existo?
— Por São Botticelli! — exclamou o Messias, pois a concha moveu-se em sua direção, soprada por Zéfiro, e, talvez por ter mais fé em São João Batista do que no Nazareno, fatalmente teria arrancado sua sagrada cabeça, caso este não houvesse submergido.

O Senhor voltou à tona com presteza suficiente para se segurar no veículo bivalve e pegar carona nele, que se dirigia para a praia. Dali, pôde ver e ouvir o filósofo, após alguns instantes de meditação, olhar para a deusa, que estava ladeada por Eros e belas ninfas, e responder:

— Você diria que existir é o mesmo que respirar? Ou certamente há coisas que existem sem necessariamente respirar?
— Como? — arregalou os olhos, de Zeus a donzela, Afrodite.
— Uma poça d’água existe, ou um monte? — insistiu ele. — Ou apenas aqueles seres que têm vida em si, como o homem e o animal, podem ser considerados existentes?
— Por Zeus, Sócrates, é claro que uma poça d’água e um monte existem também.
— E quanto a uma pedra ou uma árvore?
— Diria a mesma coisa, que existem.
— O mesmo poderia ser dito dos objetos criados pelo homem, como a cadeira e a mesa?
— Certamente.
— E uma flecha ou um elmo, você diria que são providos de existência?
— É o que decorre do mesmo raciocínio.
— Logo, o que os homens produzem de não-material caberia na mesma definição?
— Que diz você?
— Pergunto se aquelas coisas que o homem cria e que não têm corpo visível podem ser consideradas ou não como existentes. Por exemplo, seria acertado afirmarmos que o pensamento, a virtude e os juízos existem, apesar de não podermos tocá-los?
— Sem dúvida.
— E que se atestará de outras invenções do intelecto humano, como o raciocínio e os sonhos?
— Podemos dizer o mesmo.
— Sendo assim, estaríamos fugindo à verdade se estabelecêssemos que os objetos gerados pela mente humana têm vida, apesar de não serem encontrados na natureza?
— Creio que não.
— Portanto, deusa, caso os seres divinos houvessem sido produzidos pelas artes do intelecto humano e apenas por elas, não seria certo, do mesmo jeito, dizermos que eles têm vida, de acordo com o que você disse?
— Bom... é... quer dizer... Sócrates, eu não sei se você reparou, mas eu sou loura. Dá pra você concluir esse interrogatório logo de uma vez e dizer se acredita que eu existo ou não? (CONTINUA)
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3 comentários:

Moacy Cirne disse...

Insisto, meu caro: Só um livro dará conta de tão frustrado (e hilário) retorno de Jota Cê - Cêzinho, para os íntimos - ao nosso planeta. Abração.

Jens disse...

Bivalve?
PQP! Decoraste o Aurélio, a exemplo do Jaguar?

Serbão disse...

por São Botticelli digo eu, Marconi: vc me fez lembrar minas aulas de Filosofia na Cásper Libero, a Arcada do Saber, com o mestre Elzo Cizzotto, que nos propunha:"cadeira não é mesa, e mesa não é cadeira?".

passados 20 anos, assim como Afrodite, ainda não cheguei a nenhuma conclusão.