02 outubro, 2007

INTERREGNO (OU AOS AMIGOS, TUDO; AOS INIMIGOS, MAIS QUE A LEI)


Decepcionado há algum tempo com política, meu passatempo predileto atualmente é observar como direita e esquerda agem ou, antes, reagem exatamente da mesma maneira nas mais variadas situações da vida nacional.
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Falo isso porque, sob esse ponto de vista, o episódio do plágio de Fausto Wolff tem sido um prato cheio para mim. Eis que, chocado, vejo agora gente da melhor qualidade, cuja inteligência é incontestável, defender, por amizade, partidarismo ou qualquer outro tipo de conveniência, conceitos absurdos como, no caso de um plágio, a distinção entre “erro” ou "mal-entendido" e “crime”.

Abobado por natureza, mas mais ainda diante de tal raciocínio, me pergunto: que será que essas mesmas pessoas diriam, se o plágio ao meu texto tivesse sido feito por Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi?

Já vejo a multidão com machados e lanças nas mãos, exigindo de mim, irada, o comportamento cabível ao caso: “Processo! Processo, já! É um canalha! É um calhorda!”
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Imagino a reação dessa mesma turba, caso o Reinaldo Azevedo resolvesse se explicar da seguinte maneira: “Olha, gente, desculpa. É que eu recebi um e-mail com o texto e, então, achei que ele não tinha autoria. Sabia lá, um negócio que vem pela internet, como é que eu ia adivinhar?”

Berrariam os mesmos que agora defendem a distinção entre “crime” e “erro”: “Forca! Cadeira elétrica! Mata o direiteca! Como é que um cara que é jornalista não vai saber que deve dar as fontes nem que seja dizendo: ‘texto de autor desconhecido’? Pô, até as rubricas do texto Tio Rei deixou! Deixou trechos completos! Pfff! Essa foi boa! O cara transcreve parágrafos inteiros, se faz passar por autor da crônica e vem com papo de ‘erro’? Que piada! Canalha! Morte ao canalha!’”

No entanto, a coisa muda inteiramente de figura quando o caso é Fausto Wolff. “Mas claro”, insistirá a malta como um coro grego de língua presa. “O Fausto? O Fausto tem passado! O Fausto é uma referência moral, rapaz! O Fausto, ha! Olha aí, o cara falando de um sujeito como Fausto Wolff como se ele pudesse cometer um crime! Conta outra, bicho.”

Aí eu, que sou dado a um diálogo, como vocês sabem, digo de volta: “Então vamos absolver o FHC, gente. O FHC tem passado, ués! Cometeu um errozinho de nada na presidência, que é que há! Chhh! O FHC... Mó íntegro! Quê? Comprar deputado pra aprovar o quê? Ahn? Reeleição? Como? Não tô ouvindo. Alô?”

Curioso é o momento em que isso acontece, porque também em defesa de Renan Calheiros se alega que é preciso esperar provas, também o PT faz esse malabarismo retórico, contorcionismo moral, para defender o indefensável, o que está patente aos olhos de qualquer pessoa medianamente dotada de neurônios e o que, se o partido estivesse na oposição, seria o primeiro a condenar.

Porém, algo cansado, me calo, e deixo o turbilhão passar, carregando suas faixas de desagravo e exigindo dos outros paciência, ponderação, justiça às avessas, enquanto penso comigo: “Em que esse povo difere de qualquer deputado do Democratas ou do PP?”
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(AMANHÃ, ATÉ O MEIO-DIA, MAIS OU MENOS, DOU O PROVÁVEL DESFECHO DA EXAUSTIVA E DEPRIMENTE NOVELA EM QUE ESTÁ SE TRANSFORMANDO ESSA HISTÓRIA. TOMARA QUE COM FINAL FELIZ. NO MAIS, GOSTARIA DE PEDIR ENCARECIDAMENTE AOS LEITORES QUE NÃO USEM O ESPAÇO DOS COMENTÁRIOS PARA XINGAR O FAUSTO. O QUE QUERO É TÃO-SOMENTE O QUE ME É DE DIREITO E, NÃO, DAR VOZ A ACHINCALHAMENTOS DE QUALQUER ORDEM. POR FAVOR.)

14 comentários:

Carlos (a.k.a. Dogmático) disse...

Só faltou a venda nos olhos da deusa para melhor ilustrar o texto. Imparcialidade é necessária nesses casos, não importa quem o fez, mas o fez, então há de existir justiça. Plágio é plágio, roubo é roubo, crime é crime. Não é um passado ou um RG que vá mudar o fato e impedir que a justiça seja feita. Pelo menos é o que penso.

Abraço,
Carlos

Marcelo F. Carvalho disse...

Marconi. Nada a acrescentar em texto tão correto. Aguardo ansioso por um desfecho feliz, primeiro porque gosto do colunista Fausto e sobre o que escreve no JB, segundo porque no decorrer dos poucos meses que tenho como "blogueiro" aprendi a lhe respeitar e admirar seu modo virtuoso de elaborar uma boa literatura.
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Erro todos cometemos (uns mais, outros menos). É claro que quando é sobre alguém que se admira justamente pelo discurso contrário ao que se está expondo, dói mais e nos deixa atônitos (porra, se o Fausto faz isso, então fodeu...). E eu estou. Se ele publicar a "correção", dando a cara a tapa, já é um começo (não o redime, mas pelos menos algo de bom há no gesto). Espero que amanhã, com o JB em mãos, eu possa ler a coluna com um pouco de dor, mas resignado.
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Desejo tudo de bom procê, Marconi. Sua trajetória é luminosa e merece ser respeitada.
Continue criando as coisas maravilhosas que leio sempre e faça estardalhaço com o livro sair.
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Abraço forte!

Paulo disse...

Olá, Marconi. Gosto muito dos seus textos e dos do Fausto também. O tipo de humor daquele conto é seu, estranhei o estilo ao ler no JB. O Fausto às vezes (muitas) recicla material dele próprio. Não descarto a hipótese da confusão, mas o mínimo que se espera é um pedido de desculpas, além do reconhecimento da autoria. Vamos aguardar o desfecho... Abraços

Jens disse...

Meti a mão no vespeiro, lá na Toca.

Eufémia disse...

Gostava de receber essas correntes de e-mail com textos seus, à minha caixa só chega porcaria.

Um abraço solidário.

Franciel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo Chaves disse...

Marconi, publiquei lá no blog só para iniciados de qualquer forma um post falando sobre o assunto

Carlos Alberto Saraiva disse...

Caro Marconi,
Antes de tudo,agradeço suas recomendações àquele velhinho barbudo de camisolão que dizem que existe pela minha pessoa. Segundo,seu post refletiu bem o que aconteceu comigo: tive vários amigos que me condenaram por que eu denunciei a vc o plágio do Fausto Wollf. Um deles disse que era uma falta de respeito com ele!Enfim, é o preço que se paga por tentar ser correto.

Ana Maria disse...

Belo texto. Lúcido e inteligente, como tudo o que você escreve.

DO disse...

Acho que este negócio de lado na politica nacional virou lenda,MARCONI.
Esquerda,direota,centro...estão todos com o rabo preso e o picareta do Renan ,sabendo disto,faz lembrar aos nobres congressistas que podridão por podridão,a lama atinge todos.
E se não lembrarem por bem,vale uma chatagenzinha...
Quem vai atirar a primeira pedra??

Abraços!

Franchico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anita disse...

é tudo igual memso: o povo! Dom Casmurro pode até ter errado quanto a Capitu, mas não errou na frase. Falou bem.

Marconi, descansa agora que tu precisa.

Vou lá ler o texto de pedido de desculpas do tal Wolff. Mas já vou adiantando o que acho: e é só pedir desculpas? Fica assim? Normal? Em alguns casos "me perdoe" não resolve, não é não?

Gabriel Ramalho disse...

Marconi, postei mais um texto sobre esta pendenga. Esperemos. Esta do Fausto não convenceu.

Lucas Pelizaro disse...

Direita e esquerda são formadas por lesmas. Um bando de idiotas distorcendo a realidade. Esquedistas são analfabetos, direitistas são caras-de-pau. Em ambos os casos, não valem nem a sombra que projetam. Lesmas vagabundas. Parabéns pelo blog.