31 outubro, 2007

DEPRESSÃO


Acordei anteontem com uma depressão que atingiu sete pontos na escala Raskolnikov. Uma empilhadeira de médio porte não conseguiria me tirar da cama. E não, evidentemente, pelo excesso de peso. Quanto a isso, um macaco hidráulico resolveria o problema.

Nessas ocasiões, costumo ficar tão comunicativo quanto um peixe. Com a diferença de que não abro a boca e, deprimido, tampouco consigo tomar banho. Uma montanha seria capaz de se movimentar mais do que eu no auge da crise — e isso, mesmo sem o auxílio de Maomé. O Gianecchini seria mais expressivo, o ex-ministro Waldir Pires teria um poder de reação maior do que o meu.

Especialmente anteontem, o surto depressivo fez-me sentir como a máquina estatal: totalmente paralisado. Tinha a sensação de que estava dentro de um filme Sueco. Cogitei mesmo da possibilidade de ser pura criação de um escritor eslavo.

A coisa chegou a tal ponto que, num esforço extremo, resolvi me olhar no espelho para conferir se acaso não me transformara num blatídeo. Em seguida, imaginando algo ainda pior, verifiquei se meus cabelos continuavam na testa, de maneira a constatar não haver me metamorfoseado em Paulo Polzonoff.

Mas não. Quanto ao aspecto exterior, era visível apenas um certo olhar apertado. Deitado, mirava a distância. O que me fez suspeitar ter, na realidade, virado Dorival Caymmi — em razão disso, até principiei a composição de um pedaço de uma sílaba de uma palavra que iniciaria um futuro começo de verso.

Em suma, trancado no quarto, com a disposição para viver da hiena Hardy e me alimentando como um sudanês, fatalmente passaria desta para, senão pior, ao menos mais brega: uma série de mensagens póstumas seriam escritas na minha página de recados do Orkut.

No entanto se, como diz o vulgo, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, aparentemente por trás dos pequenos e gordos também. Prendado com mais de um dos dons de Asclépio, nem só de polichineloterapia vive o meu bem. Criatura sensível e maternal, além de extremamente criativa, descobri que também para a depressão desenvolveu ela um método terapêutico bastante eficaz, o qual, em atual processo de patenteamento, dentro em breve será a salvação de deprimidos de todo o mundo.

Ao me ver jogado na cama, freudianamente recolhido sobre o próprio corpo e repetindo mentalmente a frase “eu não passo de um Morrissey, eu não passo de um Morrissey”, em vez de usar do procedimento dos ignorantes e supersticiosos, administrando-me carinho, atenção e outras mezinhas da inculta medicina popular, de péssimas conseqüências para a saúde do doente, entrou ela a fazer uma grande faxina na casa.

— Você vai se sentir melhor — afirmou, colocando o avental.

De fato. Escorraçando-me de um cômodo a outro, juntamente com móveis, gatos e tapetes, eventualmente passando a vassoura sobre minha cabeça ou batendo com o pano de chão no meu olho sem querer, produziu-me minha querida e adorada, ao longo de todo o dia, um estado de bem-estar com que os teóricos do welfare state jamais sonharam.

Não cheguei a perguntar, mas ao que tudo indica, a terapia foi baseada no atendimento do Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ou de algum outro hospital público. E, de tão boa, já despertou o interesse do governo americano, que pensa adaptá-la a Guantánamo.
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Quanto a mim, aprovei-a integralmente. Ao final de algumas horas de faxina, forçado a me deslocar como um hebreu no deserto, puxado para aqui, empurrado para ali, me senti plenamente satisfeito. A depressão persistiu, é verdade. Agora mesmo é com grande custo que me sento aqui para escrever. Em compensação — e digo isso num misto de alívio e orgulho — não restou um único grão de poeira em meu corpo.

8 comentários:

Jens disse...

Uêba! Cheguei primeiro. Seguinte: este negócio de depressão é coisa de pernambucano com carência de testosterona. Aqui no Sul, quando bate a deprê, o guasca a expulsa a com um tapa nos beiços. Caso a dita cuja insista em permanecer, a patroa aplica um joelhaço entre as pernas do índio velho e o problema está resolvido. É a terapia do joelhaço, desenvolvida pelo inolvidável analista de Bagé. Acho que o teu caso, pela gravidade, requer este tratamento extremo. Não pode gritar nem gemer. Tem que aguentar no osso.
Um abraço e boa sorte.

Ane Brasil disse...

Ah, o Jeans chegou primeiro!
Eu ia justamente mencionar a terapia do joelhaço...
Ela deve ter se pós-graduado com o analista de Bagé, excelente profissional cura-louco dessas paragens!
Sorte e saúde pra todos - sobretudo pra ti, Marconi, que, pelo visto, anda precisado!

Serbão disse...

tudo isso só porque o Sport perdeu pro campeão no domingo???? :P

Márcio Hachmann disse...

Prezado Marconi, desde o episódio do plágio tenho acompanhado seu blog. Sempre com vergonha de comentar, mas hoje não posso sair daqui sem me manifestar.Não consigo parar de rir. Do pó viemos, ao pó voltaremos e você limpinho sem uma única partícula de pó. Pergunto se aprendeu tal proeza do John Fante que de pó entendia um pouco. Abçs

GUGA ALAYON disse...

isto não é uma depressão é um Grande Canyon. Pelo menos sem pó.
Condolências.

Marcelo F. Carvalho disse...

Por que todos os bom escritores satíricos sofrem disso?
Volta ao normal, porra... ou seja, louco!
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Abraço forte!

edu disse...

esta mulé é um espetáculo!

Anita disse...

eita! este teu lado kafkiano saiu bem! Gostei!

Olha, como é que se chama o desenho da hiena Hardy em inglês? Não é aquela do "Oh vida, Oh azar"? Se tu souberes, diz...

Orkut, Marconi? Oh no! ;-)

melhoras,

A.