31 outubro, 2007

DEPRESSÃO


Acordei anteontem com uma depressão que atingiu sete pontos na escala Raskolnikov. Uma empilhadeira de médio porte não conseguiria me tirar da cama. E não, evidentemente, pelo excesso de peso. Quanto a isso, um macaco hidráulico resolveria o problema.

Nessas ocasiões, costumo ficar tão comunicativo quanto um peixe. Com a diferença de que não abro a boca e, deprimido, tampouco consigo tomar banho. Uma montanha seria capaz de se movimentar mais do que eu no auge da crise — e isso, mesmo sem o auxílio de Maomé. O Gianecchini seria mais expressivo, o ex-ministro Waldir Pires teria um poder de reação maior do que o meu.

Especialmente anteontem, o surto depressivo fez-me sentir como a máquina estatal: totalmente paralisado. Tinha a sensação de que estava dentro de um filme Sueco. Cogitei mesmo da possibilidade de ser pura criação de um escritor eslavo.

A coisa chegou a tal ponto que, num esforço extremo, resolvi me olhar no espelho para conferir se acaso não me transformara num blatídeo. Em seguida, imaginando algo ainda pior, verifiquei se meus cabelos continuavam na testa, de maneira a constatar não haver me metamorfoseado em Paulo Polzonoff.

Mas não. Quanto ao aspecto exterior, era visível apenas um certo olhar apertado. Deitado, mirava a distância. O que me fez suspeitar ter, na realidade, virado Dorival Caymmi — em razão disso, até principiei a composição de um pedaço de uma sílaba de uma palavra que iniciaria um futuro começo de verso.

Em suma, trancado no quarto, com a disposição para viver da hiena Hardy e me alimentando como um sudanês, fatalmente passaria desta para, senão pior, ao menos mais brega: uma série de mensagens póstumas seriam escritas na minha página de recados do Orkut.

No entanto se, como diz o vulgo, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, aparentemente por trás dos pequenos e gordos também. Prendado com mais de um dos dons de Asclépio, nem só de polichineloterapia vive o meu bem. Criatura sensível e maternal, além de extremamente criativa, descobri que também para a depressão desenvolveu ela um método terapêutico bastante eficaz, o qual, em atual processo de patenteamento, dentro em breve será a salvação de deprimidos de todo o mundo.

Ao me ver jogado na cama, freudianamente recolhido sobre o próprio corpo e repetindo mentalmente a frase “eu não passo de um Morrissey, eu não passo de um Morrissey”, em vez de usar do procedimento dos ignorantes e supersticiosos, administrando-me carinho, atenção e outras mezinhas da inculta medicina popular, de péssimas conseqüências para a saúde do doente, entrou ela a fazer uma grande faxina na casa.

— Você vai se sentir melhor — afirmou, colocando o avental.

De fato. Escorraçando-me de um cômodo a outro, juntamente com móveis, gatos e tapetes, eventualmente passando a vassoura sobre minha cabeça ou batendo com o pano de chão no meu olho sem querer, produziu-me minha querida e adorada, ao longo de todo o dia, um estado de bem-estar com que os teóricos do welfare state jamais sonharam.

Não cheguei a perguntar, mas ao que tudo indica, a terapia foi baseada no atendimento do Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ou de algum outro hospital público. E, de tão boa, já despertou o interesse do governo americano, que pensa adaptá-la a Guantánamo.
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Quanto a mim, aprovei-a integralmente. Ao final de algumas horas de faxina, forçado a me deslocar como um hebreu no deserto, puxado para aqui, empurrado para ali, me senti plenamente satisfeito. A depressão persistiu, é verdade. Agora mesmo é com grande custo que me sento aqui para escrever. Em compensação — e digo isso num misto de alívio e orgulho — não restou um único grão de poeira em meu corpo.

30 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (4)


Perguntam-me se não leio os autores contemporâneos. Mas é claro que sim. Sobretudo os contemporâneos de Voltaire, Dickens, Horácio e Aristófanes.

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Do ponto de vista da evolução lingüística, o século XXI ficará conhecido como aquele em que, para falar ou escrever sobre "subliteratura", críticos literários passaram a dispensar o prefixo.

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Quem passa horas conversando sobre literatura em mesa de bar são os chatos. Escritores de verdade falam mesmo é de dinheiro e de mulher.

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Outro dia estive com literatos. Falou-se do mais recente livro de um célebre autor de Uganda. Comentou-se a próxima obra a ser lançada por um notório escritor manco tailandês. Discutiu-se se o melhor romance de capa vermelha com bolinhas roxas do ano havia sido aquele lançado na Letônia ou o da Bolívia. Sobre os clássicos, nada ouvi. Perguntei, me disseram não haver pressa. Reservarão os próximos dois mil anos para lê-los.

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Não vejo incoerência alguma em ex-prostitutas virarem escritoras. O que ocorre, na verdade, é uma simples mudança de foco. Elas deixam de fazer com os clientes o que passam a fazer com a gramática.

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Eu podia estar roubando, estuprando, matando ou abrindo uma empresa de plano de saúde, mas estou tentando ganhar a vida honestamente.

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Existem inúmeras atividades mais promissoras que a de venda de livros no Brasil. A de aluguel de aquecedores elétricos em Teresina, por exemplo.

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Sei de alfabetizadores que trocaram a profissão pela de assistente de atirador de facas. Não se pode dizer que estejam satisfeitos. Mas o novo trabalho, quando pouco, é menos insalubre.

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“Preconceito ideológico” é o nome que se dá a uma forma distorcida e parcial de apreensão da realidade e ocorre em função de certos interesses ou inclinações. Desde que estes não sejam os nossos, claro. Se forem, o preconceito ideológico é chamado de “verdade absoluta”.

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Em retribuição aos belos serviços de cura de homossexuais divulgados por certas igrejas, acho que os grupos gays deveriam fazer sessões semelhantes para sarar quem deseja se livrar da condição de evangélico.

26 outubro, 2007

POLICHINELOTERAPIA


Venho de uma terra onde as quatro estações são bem definidas: de dezembro a março, temos o verão; de março a junho, é a vez do verão; de junho a setembro, o verão dá lugar ao verão; e, por fim, de setembro a dezembro, quando o verão vai embora, o verão retorna, reabrindo o ciclo.

Não tenho dúvidas de que os antigos tinham em mente o Recife quando falavam nos Hiperbóreos ou, antes, que o diabo tenha construído o Inferno tomando como base o projeto da cidade maurícia e procedendo a pequenas alterações: substituiu o fedor de esgoto pelo de enxofre, deixou a temperatura um pouco mais agradável, instituiu um mínimo de moralidade, diminuiu os índices de violência.

Em suma, situação atmosférica mais estável que a recifense só se viu antes em Gibeão, quando Josué parou o sol. Com a vantagem de que, até onde sei, a maioria dos pernambucanos ainda conserva os prepúcios.

É certo que Vivaldi não acharia muito estimulante morar em lugar assim e talvez caísse numa crise criativa sem precedentes, largando o violino, tingindo a peruca com água oxigenada e se integrando como bailarino a uma banda de forró eletrônico. Mas a pessoa a tudo se acostuma. E, afinal, existem coisas piores no mundo do que ter de usar absorventes íntimos sob os sovacos para estancar a transpiração. Prova disso é o seriado Antônia.

Há dois anos, porém, mudei-me para São Paulo, lugar onde as estações são tão incertas que até as de metrô de vez em quando afundam. Clima constante por estas bandas, só o de insegurança. Aqui, em termos de previsibilidade, o máximo que se pode dizer é que o PSDB ganhará as próximas vinte e cinco eleições.

Em função disso e porque tenho tanta simpatia por baixas temperaturas quanto Maria I tinha por anglicanos, carregava sempre à mão, para caso de necessidade, casacos, abrigos, jaquetas, gorros, cobertores, meias e uma lente de aumento. Esta última, para matar a nostalgia do pinto em épocas de profunda algidez.

Todo esse trabalho vinha enfrentando por me recusar a aderir ao que, segundo minha mulher, é um antigo método espartano de combate ao frio. Não, não me refiro à pederastia. Tampouco aludo à luta greco-romana, esporte viril cujo objetivo é derrubar o adversário através de violentos golpes de oratória.

A técnica usada por minha mulher e, ao que parece, por grande parte da comunidade sul-rio-grandense para evitar o arrefecimento do corpo é a polichineloterapia. Ao longo dos últimos anos, ao passar pelo sofá e descobrir que a criatura gemedora, tiritante, entanguida debaixo de um monte de panos que ali se encontrava era eu, ela não se cansava de repetir: “Faz polichinelo que passa”.

Não apenas insistia na medicação como, com o tempo, passou a prescrevê-la para os males mais variados. De tal maneira que, a se crer nela, havia descoberto algo melhor que o emplastro Brás Cubas: uma maneira de enfiar todos os males humanos de volta na boceta. (Boceta de Pandora, leitor. Quem fala é Hesíodo, não sou eu. E se não foi Hesíodo, me perdoe. Também Machado trocou Heráclito por Empédocles e nem por isso deixou de figurar no cânone de Harold Bloom.)

Ora, minha mulher conversa com plantas. Com uma mulher que conversa com plantas e, ainda por cima, infla as narinas sem mover um músculo do rosto, não se discute. Porém, homem de princípios atravincados, mantive sempre em mente não haver nada no mundo tão grave que me levasse a praticar algo estranho e nojoso como o exercício físico.

Ontem, contudo, como visse que a temperatura não apenas despencava, mas certamente rolava pela escada abaixo e, batendo a cabeça no último degrau, fraturava umas cinco vértebras, resolvi tomar medida drástica. Testei o remédio e, boquiaberto, descobri que ele funciona.

Sim, em nome da verdade, que atualmente, segundo se diz, encontra-se refém de deputados num edifício escuso de Brasília, afirmo: tão-logo concluí cinqüenta polichinelos, o frio simplesmente desapareceu. Sumiu. O processo é, de fato, milagroso.
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Resta agora saber se na cura de enfermidades a polichineloterapia mantém a mesma eficácia. Pelo que apurei, logo após o experimento de ontem à noite, posso garantir que, ao menos contra asma, arritmia, taquicardia, tremedeira, câimbra, deslocamento de bacia, tontura, dor nas costas e distensão muscular, ela não surte o menor efeito.
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24 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (3)


No princípio, a comunidade humana tinha grande necessidade do grupo e dispunha de pouquíssimos vocábulos para se comunicar. Ou seja, era como um grande time de futebol.

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Não estudei o caso a fundo nem sou especialista no assunto, mas suspeito que, se os jornalistas pensassem, talvez os telejornais chegassem até a ser um pouco interessantes.
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Rediscutir as privatizações a esta altura? Acho ótimo. Na minha opinião, mais premente que isso só mesmo um profundo debate sobre a necessidade ou não de se revogar o Tratado de Tordesilhas.
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A mais cruel forma de tortura já registrada no Ocidente foi a que os cineastas brasileiros usaram para acabar com Nélson Rodrigues.
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Dizer que no mundo só há idiotas é injusto, trata-se de um juízo parcial. E os imbecis ou os canalhas, por exemplo? E os débeis mentais?

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Corrupção devia ser crime hediondo. Um sujeito que desviasse verba pública deveria pegar prisão perpétua ou, pior, ser obrigado a assistir a toda a filmografia do Daniel Filho.

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Sempre que assisto a uma peça teatral contemporânea, volto para casa ainda mais entusiasmado com Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

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Afirmar que a literatura de José Sarney não presta é fácil para quem se senta numa cadeira e, sem embaraço, usa os dedos. Ora, o grande mérito do maranhense é, justamente, exercer seu ofício com as quatro patas no chão.

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Até bem pouco tempo atrás, compositores brasileiros só imitavam música ruim de branco americano. Graças a Deus, nos últimos anos isso mudou um pouco. Agora já há muita gente imitando música ruim de negro americano também.
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Sou a favor da pena de morte apenas para comentaristas de arbitragem e apresentadores de concurso de miss.

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O principal resultado da nova onda conservadora brasileira é que três lordes ingleses já viraram comunistas.
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Só um idiota acredita no Estado. Sou totalmente a favor da privatização. Radical. Intransigente. Com dinheiro do BNDES.
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Quanto a mim, a esta altura, acredito que só nos resta uma única saída digna: voltar a ser colônia de Portugal.
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23 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (2)


Modéstia à parte, as mulheres costumam dizer por aí que, na cama, eu sou um ninja. Deito ali, fico imóvel... praticamente sem batimentos cardíacos... pareço morto.

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Deus deve ter Mal de Parkinson. Do contrário, não escreveria certo por linhas tortas.

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Cada vez que releio o Antigo Testamento chego à mesma conclusão: Javé não tomava Lexotan.

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Deus é apenas o Diabo sem superego.

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Ninguém de bom senso pode acreditar em Deus. Trata-se, comprovadamente, de um sujeito que mente muito.

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Dizer que há preconceito de classe no Brasil é uma estupidez sem tamanho. Isso só pode ser idéia de gente pobre, sem etiqueta nem educação.

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O problema brasileiro é puramente aritmético: muito corrupto, pouca propina.

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Dizer que no Brasil nunca se deu importância à educação... Ora, se até nossos senhores de escravos tinham diploma na Europa. Além disso, que eu saiba, sempre mataram seus negros usando a mão correta na faca.

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A situação chegou a tal ponto que nem mesmo em deputados podemos confiar. Outro dia, topei com um honesto.

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Os dois únicos sistemas que vi funcionarem plenamente até hoje foram o social-democrata escandinavo e o parassimpático.

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No Brasil, a social-democracia é tão avançada que o Estado toma para si até mesmo a responsabilidade de assaltar e matar.
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19 outubro, 2007

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (1)


Existe um consenso entre críticos literários de botequim de Norte a Sul do Brasil: diálogo é coisa de escritor preguiçoso. Concordo com eles. Joguemos fora toda a obra de Platão.

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Em vez de instaurar o capitalismo no Brasil, acho que a gente pode pular uma casa e partir direto para a criação de uma social-democracia de inspiração escandinava. É um sistema mais justo. Sobretudo no que se refere à beleza das mulheres.

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O Brasil é um país sul-americano de solo fértil, em cujo subsolo se encontram inúmeras jazidas minerais. Nele se consegue produzir ou dele se extrai quase tudo. Menos filósofos. Devido a tal carência, os brasileiros costumam usar Paulo Francis e Caetano Veloso quando necessitam de pensadores.

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Com relação à música, sou um verdadeiro Beethoven. Sobretudo no que tange à capacidade auditiva do compositor pouco antes de morrer.

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Sendo esplendorosa minha faculdade de orientação espacial, se fosse muçulmano estaria irremediavelmente condenado à geena. Não conseguiria fazer minhas orações, pois jamais saberia para que lado fica Meca.

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Nossa sociedade atingiu tal nível de sofisticação que o único resquício de tradição clássica que nela atualmente encontramos é o churrasquinho grego.

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Se letra de música não é poema, como repetem exaustivamente em mantras por aí, deve-se atirar no lixo toda a tradição lírica da Grécia Antiga.

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O Brasil é um país de extensão continental, limitado a Leste pelo Oceano Atlântico, ao Sul pelo Uruguai e em seus juízos pelo cérebro subdesenvolvido de seus cidadãos.
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18 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (12)


— Como pura criação do engenho humano? — indagou Sócrates. — Ou materialmente, a exemplo do cavalo e da vaca?
— Tá me chamando de vaca, feioso? — quis saber Afrodite.
— Não. O que digo é que uma vaca...
— De novo? Então você acha que minhas tetas são muito grandes? Ou é meu comportamento sexual que você crê devasso?
— Longe de mim, Cípria. Na verdade...

Sem querer ouvir seus argumentos, nesse instante, a Calipígia desferiu um estrepitoso tapa no rosto do mestre de Platão, fazendo sua cabeça girar sobre o pescoço. Em seguida, vermelha de raiva, cruzou os braços e perguntou:

— E esse tapa, você diria que existiu ou não, meu querido Sócrates?
— Bom — argüiu o filósofo, massageando o pômulo esquerdo —, seria correto dizermos que uma galinha, mesmo depois de comida, continua existindo em nosso corpo? Ou uma galinha apenas existe enquanto pudermos contemplá-la?
— Galinha? Repita, se você for homem!
— Pois não. A galinha, dizia eu...

Aqui a cipriota agarrou-se às barbas do pensador, gritando:

— Galinha é a vó!
— Ai! ai! ai!
— Ué? Tá doendo? Mas se esses puxões nem existem! São produto apenas de minha técnica maiêutica de pôr à luz tufos de cabelo!

— Socorro!

Certamente a divina Afrodite teria derrotado dialeticamente o pai da filosofia, em função da consistência de seus argumentos. De fato, ouso dizer que o venceria de maneira fragorosa, fazendo barba e bigode, caso as ninfas e Eros não houvessem intervindo.

No entanto, apesar destes terem conseguido apartar os dois, não puderam impedir que, num último acesso de raiva, ela aproveitasse uma ocasião em que o filósofo estivesse de costas para dar-lhe um arrepelão, dizendo:

— Confiram agora se o mar existe!
— Confiram? — estranhou Sócrates, caindo na água. — Por que o plura... glub?
— Confiram — reafirmou a deusa. — Você e seu demônio.

E quando ele reapareceu na superfície, debatendo-se, ainda emendou, desdenhosa:

— Coitada de Xantipa. Aquela moça merecia coisa menos pior...

Em seguida, o marisco se fechou rapidamente, por pouco não levando um ou dois dedos do Senhor. E, impulsionado por um estrondeante pum de Zéfiro, desapareceu na direção oposta, deixando Sócrates, prestes a se afogar. (CONTINUA)

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17 outubro, 2007

UM JANTAR NOS JARDINS



Quê? Como assim? Ah, a crônica de hoje tá aqui, no Culturando. Como? É, é o site que tem toda a programação gratuita ou a preços populares de São Paulo. Uhm-hum. Vão lá. Ahn? Pô, claro que é agora! Tá esperando o quê? Um deputado honesto pra te acompanhar?
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15 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (11)


O bom Senhor afundou muitos metros até que, de repente, uma espécie de força superior começou a impulsioná-lo para cima. Em poucos segundos, se viu na superfície de novo, de pé sobre as ondas. E sorriu, orgulhoso, torcendo a túnica para tirar o excesso de água:

— Os milênios passam, mas eu mantenho a forma.

Tão-logo pronunciou essas palavras, no entanto, foi violentamente lançado para cima, deu uma milagrosa cambalhota no ar e caiu belamente de queixo na água, de tal maneira que se o lançamento de avatares fosse esporte olímpico, teria conseguido ao menos um bronze.

Voltou a mergulhar, porém não foi muito fundo e, pondo a cabeça mais uma vez para fora da água, deparou-se com a seguinte cena: uma concha enorme acabava de se abrir e, dentro dela, a dos risos amante, Afrodite, seminua, falava para Sócrates:

— E agora? Acredita que eu existo?
— Por São Botticelli! — exclamou o Messias, pois a concha moveu-se em sua direção, soprada por Zéfiro, e, talvez por ter mais fé em São João Batista do que no Nazareno, fatalmente teria arrancado sua sagrada cabeça, caso este não houvesse submergido.

O Senhor voltou à tona com presteza suficiente para se segurar no veículo bivalve e pegar carona nele, que se dirigia para a praia. Dali, pôde ver e ouvir o filósofo, após alguns instantes de meditação, olhar para a deusa, que estava ladeada por Eros e belas ninfas, e responder:

— Você diria que existir é o mesmo que respirar? Ou certamente há coisas que existem sem necessariamente respirar?
— Como? — arregalou os olhos, de Zeus a donzela, Afrodite.
— Uma poça d’água existe, ou um monte? — insistiu ele. — Ou apenas aqueles seres que têm vida em si, como o homem e o animal, podem ser considerados existentes?
— Por Zeus, Sócrates, é claro que uma poça d’água e um monte existem também.
— E quanto a uma pedra ou uma árvore?
— Diria a mesma coisa, que existem.
— O mesmo poderia ser dito dos objetos criados pelo homem, como a cadeira e a mesa?
— Certamente.
— E uma flecha ou um elmo, você diria que são providos de existência?
— É o que decorre do mesmo raciocínio.
— Logo, o que os homens produzem de não-material caberia na mesma definição?
— Que diz você?
— Pergunto se aquelas coisas que o homem cria e que não têm corpo visível podem ser consideradas ou não como existentes. Por exemplo, seria acertado afirmarmos que o pensamento, a virtude e os juízos existem, apesar de não podermos tocá-los?
— Sem dúvida.
— E que se atestará de outras invenções do intelecto humano, como o raciocínio e os sonhos?
— Podemos dizer o mesmo.
— Sendo assim, estaríamos fugindo à verdade se estabelecêssemos que os objetos gerados pela mente humana têm vida, apesar de não serem encontrados na natureza?
— Creio que não.
— Portanto, deusa, caso os seres divinos houvessem sido produzidos pelas artes do intelecto humano e apenas por elas, não seria certo, do mesmo jeito, dizermos que eles têm vida, de acordo com o que você disse?
— Bom... é... quer dizer... Sócrates, eu não sei se você reparou, mas eu sou loura. Dá pra você concluir esse interrogatório logo de uma vez e dizer se acredita que eu existo ou não? (CONTINUA)
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Capítulo 10

11 outubro, 2007

NOME ALLEGRO MOLTO (POEMA-SACANAGEM DEDICADO A MEU AMIGO JONATAS)


Na casa de Aquis
Davi se fez de louco.
Não soube o rei tampouco
Agir como o Pai quis:
Da mulher ele fez pouco
Pensando ser a fada
De
Jonatas, na espada,
Sentou como uma atriz.

Já lá em
Aquimelec,
Homem tão sem coração,
Comeu da proposição,
Fez também, ai, que meleca!
Vejam só que o rapagão
Logo ao filho de Saul
Desejou dar o... Diz' tu,
Mais não falo da boneca.

Contam que o rei era mui belo
Não 'tou aqui para negar
Bela era a escrava
Agar
De quem Abrão chupou o... selo.
Porém, Abrão não pôde dar
O que em
Azot o nosso Deus
Sangrou dos pobres filisteus.
Perdoem-me se eu aqui trelo.

Tanto Jonatas como
Golias
Perderam, rápido, as cabeças
— aquele primeiro, às avessas —
Pelo rei Davi, naqueles dias.
Melhor dirá o que não tropeça:
“Antes no alto da cruz me pregas
Do que perco minhas lindas
homógrafas”.
Dou adeus a quem nisso porfia.

No entanto, de novo cá eu volto
Ao assunto, apenas mais um instante.
Como alhures dizia a cartomante:
“O futuro, amigo, não é solto”.
Nisso não entra culpa do amante.
Ora, se de Davi o ser amado
Se acha neste sodomítico estado
É, sim, por ter
um nome allegro molto.
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10 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (10)


Naquele momento, a conversa foi interrompida por Abraão, que voltava para a mesa onde estava antes.

— Alguém falou em coroa aí?

Ao que Moisés, também retomando o seu lugar, disse:

— Como você gosta de uma pirotecnia, não, menino? Toda vez é a mesma coisa. Anda por aí de ceca em Meca, fazendo das suas. A gente pensa que é Javé com aqueles esporros dele, pronto a jogar um raio ou abrir a terra pra precipitar alguém.
— Desculpe, pai Moisés, mas é culpa dessa maldita montanha. Isso que dá deixar o povo criar adágios. E eu que pensava que só na mitologia grega havia essas crueldades. Hoje em dia, com esse monte ridículo me seguindo por toda parte, sinceramente, invejo a vida pacata de Sísifo.
— Vai ficar aí parado ou vem pra mesa? — falou rispidamente o egípcio.

Maomé pediu licença a Jesus e correu pra tomar um assento. Com o que a montanha deu um pequeno salto, que fez o céu tremer e talvez tenha ocasionado um ou outro choque entre galáxias.

Jesus caiu no chão, mas ascendeu rapidamente.

— Eu embaralho – disse Moisés. — Doze cartas pra cada?
— Seis! Ele pensa que ainda tá no deserto — explicou Abraão a Maomé, que sorriu e, olhando para Jesus, que observava o jogo de pé, a certa distância, perguntou:

— Não vai uma partidinha?
— Não.
— Motivos religiosos?
— Superstição. Nunca jogo contra quem tem contato privilegiado com anjos.
— E nosso quarto companheiro? — perguntou o árabe, dessa vez para Abraão.
— Ah, você sabe como ele é. Deve tá por aí, pensando na morte da bezerra.
— Bezerro? De ouro? — levantou-se furioso Moisés, que tinha acabado de distribuir as cartas. — Cadê? Vou jogá-lo no fogo agorinha! Isso é coisa de Arão!

Com algum custo, os outros dois conseguiram conter o ancião e a partida foi iniciada. Jesus observava tudo, tentando entender como Maomé havia conseguido passagem para o Paraíso. Ora, se até um herege podia entrar ali, sair não seria tão difícil. Talvez o muçulmano pudesse lhe dar uma ajuda.

Andava de uma lado a outro, esperando uma oportunidade para conversar com o mequense. Até que, a certa altura, como Moisés tivesse batido, escutou Abraão dizer:

— O morto é seu.

Ao que o peregrino se levantou mais uma vez, furioso:

— Já disse que eu não matei aquele egípcio!

Nisso, parte de seu cajado, que havia escondido sorrateiramente mais uma vez, apareceu fora do manto.

— Passa isso pra cá! — falou Abraão, puxando a vara violentamente.
— Mas é meu amuleto! Ele me dá sorte! — protestou o outro.

Como resposta, Abraão o empurrou, arrancando o báculo de suas mãos. Parou um minuto, soltou um suspiro, balançando a cabeça reconvencionalmente e, assobiando para o Nazareno, jogou o bordão para ele.

— Segure pra mim, Rabi, por favor.

Depois, sentando-se, mirou ainda uma última vez Moisés, que batucava na mesa de olhos revirados, tratuteando um samba de Cartola, e murmurou, raivoso:

— Se fosse pra trapacear, trazia Jacó pra parceiro.

Assim, retomaram o jogo.

O que nem Abraão nem os demais perceberam foi que o Mestre, em vez de esticar os braços para segurar o bordão, talvez num reflexo, os tinha aberto. Ou seja, o cajado caíra no chão. Ao tocá-lo, perfurou a terra, de onde começou a manar uma fonte de água cujo empuxo brutal atirou Jesus para além da praça. O Messias sobrevoou o barranco, a praia, a arrebentação e, finalmente, caiu quilômetros adiante, em alto-mar. (CONTINUA)

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Capítulo 8
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Capítulo 3
Capítulo 2
Capítulo 1

09 outubro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (9)


Após uma longa altercação, Abraão tomou o cajado de Moisés e o colocou sobre um banco. Moisés cruzou os braços, amuado. Abraão pegou o deck de cartas para embaralhar. Foi então que se ouviu um barulho ensurdecedor e a terra estremeceu.

— É Javé! — gritaram os dois anciãos ao mesmo tempo, assustados, e se jogaram debaixo da mesa.
— Se esconde, Jesus! — falou em seguida Moisés, puxando o Filho do homem pela orla da túnica.
— Ficou doido, coitado — disse Abraão ao seu parceiro de jogo, balançando a cabeça, ao ver que Jesus não saía do canto.

Abismado, o Mestre observava uma gigantesca montanha que se movia sobre a areia da praia e vinha em sua direção, arrastando tudo em seu caminho. Mas não conseguia se mover. Estava como que pregado.

— Corre, Rabi! Corre! — berravam os dois velhos, se afastando desesperadamente dali.

A serra agora se encontrava a poucos metros, já cobria inteiramente a sua visão e, em poucos segundos, esmagaria Jesus, não deixando chaga sobre chaga. Porém, naquele instante, uma figura surgiu inesperadamente, subindo sem pressa o barranco que ia dar na praça. Ao ver o Mestre, estacou, estarrecida:

— Profeta?

De repente, o monte também ficou imóvel.

— Maomé? — falou Jesus, ainda mais incrédulo que seu interlocutor. — O que significa isso?
— “Aquele que é merecedor de elogios”, profeta.
— Não! Digo, o que é que você está fazendo aqui, no paraíso cristão?
— Ah, vim visitar os patriarcas, bater um papinho, jogar um pouco, pagar uns juros, essas coisas. O paraíso muçulmano tá insuportável, parece a Ásia.
— Muito karaokê?
— Nada, superpopulação. Tem tanto homem-bomba chegando por lá que a gente se encontra em escassez de virgens, atualmente. Por sinal, vocês não teriam aí umas duas ou três mil pra emprestar?
— Mil virgens? Vindas do Ocidente? Impossível. Mas, me diga, como é que você chegou aqui?
— Pelos caminhos de Alá.
— Praticando o bem, portanto.
— Não, seguindo as nuvens. Aliás, do êxodo pra cá, elas se deterioraram. Tão muito malcuidadas, não têm sinalização. Precisam ser privatizadas, isso sim. Ou aqui no céu não tem tucano? Imagine você que quase peguei a entrada errada. Ia na direção do Purgatório. Logo eu, que tive doze mulheres! Que mais pecados poderia purgar, meu Alá?
— Ué? Você acha ruim? Experimente onze apóstolos. São capazes de arruinar qualquer jantar.
— Profeta, profeta, que é ser vendido por 30 dinheiros comparado a aturar doze TPMs, profeta?
— Tudo bem, não nego que TPM seja pior do que a cruz. Em compensação, você se deu bem com aquela coroa. Como se sabe, eu não tive muita sorte com a minha. (CONTINUA)

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Capítulo 8
Capítulo 7
Capítulo 6
Capítulo 5

08 outubro, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM PINTO


No princípio era a Vagina. E Deus disse:

— Faça-se a penetração.

Mas o pinto não se mexeu. E, cabisbaixo, perguntou:

— Aquilo não tem dente?

E Deus, em sua eterna sabedoria, deu uma mãozinha a ele. E, após trocar cinco dedos de prosa com o Senhor, o pinto levantou-se, triunfante. Mas, como só tem um olho, complicou-se e acabou entrando na porta errada. E o pinto disse:

— Tá tudo escuro aqui!

E Deus replicou:

— Faça-se a luz!

Então o pinto pôde enxergar. E achou ruim.

— Pô, mas isso aqui é uma merda!

E Deus, em sua infinita paciência, falou:

— Não tá gostando, abilolado?
— É muito sujo.
— Ha! Você precisa ver quando eu criar o Congresso brasileiro.
— Além disso, fede, é quente, mal-iluminado...
— Espere só até conhecer o Recife.
— ... e apertado demais.
— Apertado! O que não é a falta de parâmetros. Tente passar o mês com um salário mínimo no futuro Brasil.
— Além do mais, dói pra entrar.
— Que é que você queria? Qual seria a graça caso não houvesse dor pra, depois, se alcançar o prazer? Olha... isso dá até uma bela teologia, hein? Taí, você me deu uma idéia. Vou inspirar um livro nesse sentido. Mas peraí, dói? Onde é que você... Burronaldo! Você tá no lugar errado! Seu jumentildo! Sai já daí!

E Deus sacou o pinto e, como não tivesse onde lavá-lo, separou as águas que estão debaixo do firmamento daquelas que estão por cima. E o pinto pairou sobre a face das águas. E Deus disse:

— Ui! — e se arrepiou todo, pois a água estava gelada.

Em seguida — porque, apesar de não ter subconsciente, é seguidor de Freud —, o Senhor colocou o pinto no lugar psicanaliticamente correto.

E o pinto achou bom:

— Que maravilha! Quanta diferença! Obrigado, Senhor.

E Deus replicou:

— Isso, vai se divertindo. Quero ver daqui a nove meses.

E o pinto continuou:

— Devo admitir que, tirando a cueca samba-canção, essa foi Sua melhor invenção até agora, Pai.

E Deus não disse nada mas, em sua sempiterna bondade, começou a trabalhar num primeiro esboço de doença venérea. E, para reprimir ainda mais a sexualidade humana, imaginou o casamento como forma de punição.

OUTROS MITOS DA CRIAÇÃO
Sob a Perspectiva de uma Operadora de Telemarketing
Sob a Perspectiva de um Baiano
Sob a Perspectiva da Gramática Normativa
Sob a Perspectiva de um Deputado Federal
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(ANTES DE COPIAR E COLAR ESTE TEXTO ONDE QUER QUE SEJA SEM PEDIR AUTORIZAÇÃO OU DAR A AUTORIA, PARE, PENSE DUAS VEZES, PULE UMA CASA, PENSE MAIS TRÊS VEZES, REBOBINE A FITA E PENSE DE NOVO. OS TEXTOS DESTE BLOG ESTÃO DEVIDAMENTE REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL. PARECE INCRÍVEL E TALVEZ JÁ HAJA NO BRASIL UM MOVIMENTO CONTRA ESSA ARBITRARIEDADE, MAS POR ENQUANTO PLÁGIO AINDA É CRIME PREVISTO NO CÓDIGO PENAL. É VERDADE QUE ESTRANHOS FENÔMENOS DE CRÔNICAS APARECENDO PRONTAS EM COMPUTADORES NOS MAIS DIFERENTES RECANTOS DO PAÍS VÊM SENDO RELATADOS. MAS, AVISO AOS CRENTES: CUIDADO, ESTE BLOG É ATEU. EM MATÉRIA DE RELIGIÃO, SÓ ACREDITA MESMO EM ADVOGADOS, JUÍZES, NA POLÍCIA E NO SISTEMA PENITENCIÁRIO.)

05 outubro, 2007

ASSALTO REVISITADO (PLÁGIO AUTORIZADO PELO AUTOR)


(Os comentários ao post foram desativados para evitar mais bafafá em cima de assunto já morto. Este texto só vai aqui por absoluta necessidade de prestar minha solidariedade a Guga Alayon, amigo de todas as horas, pessoa de todas as honras. A ele, reitero: estamos aí para o que der e vier.)

— Alô? Quem tá falando?
— É um amigo do escritor.
— Desculpe, não queria falar com o autor dos textos. Tem algum outro jornalista aí?
— Não, os jornalistas estão todos como reféns.
— Eu entendo. Trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não denunciam o plágio pra não se indispor com o autor ou com um superior, né? Vida difícil. Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
— Impossível. Eles tão amordaçados.
— Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
— Claro que não, meu amigo. Quanta ignorância! Não tá sabendo? Nesse exato momento, o redator-chefe tá recebendo um prêmio por uma matéria que fez sobre ética, oferecido pela OAB.
— Bom... Sabe o que que é? Eu tenho um texto...
— Tamo levando tudo, ô bacana.
— Não, isso eu já sabia. Eu sou um escritor obscuro. O que eu queria mesmo era uma reparação.
— Companheiro, eu sou um reles amigo do escritor. Meu negócio é pequeno. Um e-mail copiado aqui, um pedaço de artigo subtraído ali, no máximo três ou quatro páginas de livro xerocadas. Pra receber reparação, é melhor você se mudar pros Estados Unidos.
— Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando pra ser um plagiador com coluna em jornal de grande circulação hoje em dia... Mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que não recebi nenhum tipo de satisfação de vocês e queria saber se ainda esse ano eu consigo.
— Cê tá pensando que eu tô de brincadeira? Isso é um assalto!
— Longe de mim. Que é um assalto, eu sei perfeitamente. Mas queria saber o quanto isso afetou a consciência moral do autor ou do dono do jornal. Um milímetro, dois milímetros?
— Eu acho que cê não tá entendendo, meu irmão. Sou jornalista. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
— Ah, já tava esperando. Vai me acusar de querer me aproveitar da situação, né?
— Não... eu... Peraí, cara, que hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho. (um minuto depois) Alô? Olha, tem um sujeito aqui dizendo que a consciência moral dos jornalistas não foi afetada porra nenhuma. Nem a ética.
— Puxa, que incrível!
— Por quê? Você achava que tinha sido?
— Não, achava que não tinha mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, consegui obter a atenção de uma empresa jornalística, em menos de meia hora, sem precisar ter matado, esfaqueado ou seqüestrado ninguém.
— Quer saber, figura? Fui com a tua cara. Dei umas bordoadas no redator do caderno de cultura e ele falou que vai te dar os créditos.
— Não acredito! E eu não vou ter que pedir desculpas por ter tido meu texto plagiado?
— Não. Tá acertado.
— Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa...
— Ih, sujou! (tiros, gritos) O exército!... Invadiu a redação! Socorro! Tá havendo um golpe militar!
— Golpe militar? Como? Alô? Alô?
(sinal de ocupado)
— Droga! Maldito estado de sítio. Sempre intervindo nas relações entre homens de bem!

(ANTES DE COPIAR E COLAR ESTE TEXTO ONDE QUER QUE SEJA, PARE, PENSE DUAS VEZES, PULE UMA CASA, PENSE MAIS TRÊS VEZES, REBOBINE A FITA E PENSE DE NOVO. OS TEXTOS DESTE BLOG ESTÃO DEVIDAMENTE REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL. PARECE INCRÍVEL E TALVEZ JÁ HAJA NO BRASIL UM MOVIMENTO CONTRA ESSA ARBITRARIEDADE, MAS POR ENQUANTO PLÁGIO AINDA É CRIME PREVISTO NO CÓDIGO PENAL. É VERDADE QUE ESTRANHOS FENÔMENOS DE CRÔNICAS APARECENDO PRONTAS EM COMPUTADORES NOS MAIS DIFERENTES RECANTOS DO PAÍS VÊM SENDO RELATADOS. MAS, AVISO AOS CRENTES: CUIDADO, ESTE BLOG É ATEU. EM MATÉRIA DE RELIGIÃO, SÓ ACREDITA MESMO EM ADVOGADOS, JUÍZES, NA POLÍCIA E NO SISTEMA PENITENCIÁRIO.)

04 outubro, 2007

MACHISTAS


— E como é que tu faz pra ela gozar?
— Ah, simples: vassoura, espanador...
— Como é que é, cara? Tu enfia um cabo de vassoura ou um espanador no... na... enfim, na tua mulher?
— Claro que não, rapá! Tá me estranhando? Eu sou tradicionalista, um homem à antiga. Só pratico o sexo ortodoxo, referendado pela Igreja.
— Pra fins de reprodução ou com crianças, então?
— Muito engraçado. Agora, me admira tu, Ronildo, pensar uma coisa dessa. Sou da época em que ainda se usava o pinto nas relações sexuais, meu camarada. Naquele tempo, o crime ainda era criminalizado no Brasil.
— Ah, bom. Porque eu também sou assim. Essas invenções modernas... Por exemplo, o cortador de unha. Tem coisa mais imoral do que o cortador de unha?
— Indecente. Os casais não praticam mais hoje em dia o santo ritual da mulher cortando a unha do marido.
— E usando tesourinha.
— Tesourinha, claro. Isso era a base de todo casamento.
— Pelo menos dos sadios. Garçom, traz mais um chope! Mas que história é essa de vassoura e espanador? Não me diga que você tá ajudando a mulher na limpeza da casa agora! Porque uma vez eu namorei uma garota que gozava horrores quando eu... quer dizer...
— Peraê, peraê! Que é que tu ia dizer aí? Desembucha.
— Bom... eu... Uma vez! Uma vez eu ajudei minha namorada a lavar a louça.
— De avental?
— Sem! Sem avental! Olha pra mim, tu me conhece há anos, Geniberto. Sou lá homem de usar avental! Não, não. O máximo que eu me permiti foi usar luvas de borracha.
— De que cor?
— Rosa.
— Uhmmmm...
— Qual é, cara? Eu sou macho. Muito macho. Mas não a ponto de meter minha mão naquela nojeirinha que fica no ralo quando a gente acaba de lavar a louça. Garçom, traz mais um chope!
— Concordo. Até a masculinidade tem seus limites. Aquela nojeirinha nem o Chuck Norris.
— Será? O Chuck Norris não sei não, hein? Um homem de bigode e tudo...
— Sem luva? Duvido.
— Ah, sem luva nem um senador metia a mão naquela sujeira.
— Pior do que isso só mesmo limp... a... e... Tu acha que chove hoje?
— Epa, epa! Vamo falando. Eu confessei do avental... digo, eu confessei ter lavado a louça. Entrega. Pior do que isso é o quê?
— Tudo bem. Vou te dizer porque te considero como um irmão. Sei que tu é de confiança, parceiro de fé. Toca aqui. Isso. Bom, a verdade é que, certa vez, eu...
— Como?
— Eu disse que teve uma vez que...
— Não ouvi.
— PASSEI PANO NOS MÓVEIS! Hum... ham... Passei pano nos móveis.
— De touca? Garçom, traz mais um chope!
— Que touca o quê, malandro! Me respeita. Touca! Um avental, no máximo.
— Aha! E tava sacanenado o meu avental com estampa da Penélope Charm... digo, e tava me sacaneando!
— Uma coisa é o sujeito usar luva rosa, outra muito diferente é avental. Avental é uma coisa máscula. Os romanos usavam avental. Tu mesmo disse pra mim outro dia.
— “Vestal”, Ronildo! Eu te disse que eles usavam “uma vestal” e não “um avental”. Vestal eles usavam. Mas na Antiguidade podia: ainda havia virgens. O que não é de estranhar, pois eles também usavam efebos...
— Ah, não enche. Avental é coisa que todo mundo usa.
— É verdade. Em São Francisco, então, diz que é uma febre. Agora, tu vai me ajudar ou não vai? Me conta de uma vez essa história de espanador, pô!
— Melhor mesmo, a conversa já tá boiolosa demais pro meu gosto. Seguinte, nada mais simples: quando tu tiver transando com ela, pede pra ela enfiar o espanador.
— Ué, mas tu não disse que não enfiava o espanador na tua mulher, bicho?
— E não enfio, óbvio. Sou tradicionalista, rapaz, já disse. É ela que enfia em mim.
— Ahn... E funciona?
— Cem por cento.
— Garçom, traz a conta!
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(ANTES DE COPIAR E COLAR ESTE TEXTO ONDE QUER QUE SEJA, PARE, PENSE DUAS VEZES, PULE UMA CASA, PENSE MAIS TRÊS VEZES, REBOBINE A FITA E PENSE DE NOVO. OS TEXTOS DESTE BLOG ESTÃO DEVIDAMENTE REGISTRADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL. PARECE INCRÍVEL E TALVEZ JÁ HAJA NO BRASIL UM MOVIMENTO CONTRA ESSA ARBITRARIEDADE, MAS POR ENQUANTO PLÁGIO AINDA É CRIME PREVISTO NO CÓDIGO PENAL. É VERDADE QUE ESTRANHOS FENÔMENOS DE CRÔNICAS APARECENDO PRONTAS EM COMPUTADORES NOS MAIS DIFERENTES RECANTOS DO PAÍS VÊM SENDO RELATADOS. MAS, AVISO AOS CRENTES: ESTE BLOG É ATEU. EM MATÉRIA DE RELIGIÃO, SÓ ACREDITA MESMO NO MALUF E NO PAPAI NOEL.)

03 outubro, 2007

EU ESCREVO, TU COPIAS, ELE PUBLICA (CAPÍTULO FINAL)


Fausto Wolff é tão bom no que faz que, mesmo quando se está absolutamente indignado com ele, é impossível não apreciar seu texto. Sim, leitor de raciocínio rápido, Descartes ficaria orgulhoso de você. Se falo isso é porque saiu, finalmente, a retratação pelo plágio ao meu texto, cometido por Wolff no “Caderno B” do Jornal do Brasil de domingo passado. Confiram aqui a coluna de hoje do autor.

Sobre ela, tenho pequenas observações a fazer. A primeira das quais é alertar para o tom de defesa no ataque (Gugala, estamos aí, para o que der e vier), método retórico conhecido há pelo menos dois mil anos por qualquer grego desavisado que, caminhando distraído, fosse dar na Ágora (sem trocadilho, por favor, os helenos não eram disso) e para o qual Artur Perrusi, em comentário dois posts abaixo, já me chamava a atenção. Não tenho nada contra. Mas Sócrates não ficaria satisfeito.

Segundo, achei interessantíssima esta frase, sobretudo a parte que coloco em negrito a seguir: “Desculpas especialíssimas ao Marconi Leal, na esperança de não ter piorado muito a sua obra, mas, se o fiz, foi por crer que se tratasse de uma piada de domínio público ou de autoria de outrem”. Definitivamente, não saiu de alguém que está no melhor de si ou de quem tem plena noção do seu “erro”, para usar do neovocabulário moral brasileiro. Se eu fosse outrem, ficaria com raiva.

Terceiro, e apenas em nome da Verdade, deusa expulsa do país tão-logo foi fundada a República: entre o período do plágio a Salomão Schwartzman, citado na crônica, e o feito ao meu texto, houve pelo menos mais um outro, ao qual o Milton Ribeiro já fez referência e sobre o qual li em artigo do próprio Wolff.

Por fim, digo que, de minha parte, o assunto se encerra aqui. Este episódio foi extremamente desgastante. Os lencinhos Kleenex não são tão baratos quanto pensava, muito menos as caixas de Lexotan. O que ficou disso tudo, além de uma conta de farmácia acima das possibilidades de um desempregado? Uma gigantesca decepção. Decepção com Wolff mas, principalmente, e em sentido inverso, decepção com os seres humanos.

Afinal, como disse no primeiro post da série, fazendo coro com o velho casmurro: “Espero sempre o pior dos seres humanos e raras vezes me decepciono”. Pois dessa vez me decepcionei, às avessas, com as centenas de demonstrações de carinho e amizade, vindas dos mais variados cantos do país, das distantes esquinas do mundo virtual.

Durasse a contenda mais um pouquinho e eu, que sou agnóstico e um tanto desconfiado das possibilidades de redenção de nossa espécie, acabaria decepando o próprio pinto para entrar no coro de um convento de irmãs clarissas capuchinhas. Isso não se faz. Alguém já me ouviu cantando? As irmãs não merecem.

É assim, portanto, que me despeço por hoje, desencantado com vocês, leitores solidários, carinhosos, gentis, amigos. Da próxima vez que sofrer um plágio, façam-me o favor: tratem-me com um pouco menos de atenção.
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Abraço a todos e todas. Sobretudo a todas. E até amanhã.
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(REITERO O PEDIDO PARA QUE OS LEITORES NÃO XINGUEM O FAUSTO NOS COMENTÁRIOS. NÃO SE TRATA AQUI DE ACHINCALHAR NINGUÉM, MAS DE VER GARANTIDOS OS MEUS DIREITOS DE AUTOR. COMO DISSE, DOU O ASSUNTO POR ENCERRADO. CASO NÃO CONSIGAM SE CONTER, USEM A ENERGIA REPRIMIDA PARA XINGAR A PRÓPRIA SOGRA. ELAS SEMPRE MERECEM. EU MESMO, DURANTE OS ÚLTIMOS DIAS, USEI DO EXPEDIENTE COM A MINHA. NA FALTA DE SOGRA, ESCULHAMBEM UM CUNHADO. POR FAVOR, PEÇO ENCARECIDAMENTE.)

02 outubro, 2007

INTERREGNO (OU AOS AMIGOS, TUDO; AOS INIMIGOS, MAIS QUE A LEI)


Decepcionado há algum tempo com política, meu passatempo predileto atualmente é observar como direita e esquerda agem ou, antes, reagem exatamente da mesma maneira nas mais variadas situações da vida nacional.
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Falo isso porque, sob esse ponto de vista, o episódio do plágio de Fausto Wolff tem sido um prato cheio para mim. Eis que, chocado, vejo agora gente da melhor qualidade, cuja inteligência é incontestável, defender, por amizade, partidarismo ou qualquer outro tipo de conveniência, conceitos absurdos como, no caso de um plágio, a distinção entre “erro” ou "mal-entendido" e “crime”.

Abobado por natureza, mas mais ainda diante de tal raciocínio, me pergunto: que será que essas mesmas pessoas diriam, se o plágio ao meu texto tivesse sido feito por Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi?

Já vejo a multidão com machados e lanças nas mãos, exigindo de mim, irada, o comportamento cabível ao caso: “Processo! Processo, já! É um canalha! É um calhorda!”
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Imagino a reação dessa mesma turba, caso o Reinaldo Azevedo resolvesse se explicar da seguinte maneira: “Olha, gente, desculpa. É que eu recebi um e-mail com o texto e, então, achei que ele não tinha autoria. Sabia lá, um negócio que vem pela internet, como é que eu ia adivinhar?”

Berrariam os mesmos que agora defendem a distinção entre “crime” e “erro”: “Forca! Cadeira elétrica! Mata o direiteca! Como é que um cara que é jornalista não vai saber que deve dar as fontes nem que seja dizendo: ‘texto de autor desconhecido’? Pô, até as rubricas do texto Tio Rei deixou! Deixou trechos completos! Pfff! Essa foi boa! O cara transcreve parágrafos inteiros, se faz passar por autor da crônica e vem com papo de ‘erro’? Que piada! Canalha! Morte ao canalha!’”

No entanto, a coisa muda inteiramente de figura quando o caso é Fausto Wolff. “Mas claro”, insistirá a malta como um coro grego de língua presa. “O Fausto? O Fausto tem passado! O Fausto é uma referência moral, rapaz! O Fausto, ha! Olha aí, o cara falando de um sujeito como Fausto Wolff como se ele pudesse cometer um crime! Conta outra, bicho.”

Aí eu, que sou dado a um diálogo, como vocês sabem, digo de volta: “Então vamos absolver o FHC, gente. O FHC tem passado, ués! Cometeu um errozinho de nada na presidência, que é que há! Chhh! O FHC... Mó íntegro! Quê? Comprar deputado pra aprovar o quê? Ahn? Reeleição? Como? Não tô ouvindo. Alô?”

Curioso é o momento em que isso acontece, porque também em defesa de Renan Calheiros se alega que é preciso esperar provas, também o PT faz esse malabarismo retórico, contorcionismo moral, para defender o indefensável, o que está patente aos olhos de qualquer pessoa medianamente dotada de neurônios e o que, se o partido estivesse na oposição, seria o primeiro a condenar.

Porém, algo cansado, me calo, e deixo o turbilhão passar, carregando suas faixas de desagravo e exigindo dos outros paciência, ponderação, justiça às avessas, enquanto penso comigo: “Em que esse povo difere de qualquer deputado do Democratas ou do PP?”
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(AMANHÃ, ATÉ O MEIO-DIA, MAIS OU MENOS, DOU O PROVÁVEL DESFECHO DA EXAUSTIVA E DEPRIMENTE NOVELA EM QUE ESTÁ SE TRANSFORMANDO ESSA HISTÓRIA. TOMARA QUE COM FINAL FELIZ. NO MAIS, GOSTARIA DE PEDIR ENCARECIDAMENTE AOS LEITORES QUE NÃO USEM O ESPAÇO DOS COMENTÁRIOS PARA XINGAR O FAUSTO. O QUE QUERO É TÃO-SOMENTE O QUE ME É DE DIREITO E, NÃO, DAR VOZ A ACHINCALHAMENTOS DE QUALQUER ORDEM. POR FAVOR.)

EU ESCREVO, TU COPIAS, ELE PUBLICA (4)


Esperava vir aqui para trazer uma notícia boa. Infelizmente, não é o caso. Antes que conte dos novos desdobramentos do já mundialmente famoso caso Marconi x JB, no entanto, uma explicação a alguns leitores.

Assim que soube do plágio, através de Carlos Alberto Saraiva (que Deus, em existindo, perdoe-lhe o fato de ler o meu blog), entrei em contato com um amigo em comum para que falasse com Fausto Wolff, de maneira a demonstrar a ele minha insatisfação.

Através de e-mail, ele me fez ver como era difícil a comunicação com o FW e que, sim, episódio semelhante já havia acontecido com o Fausto antes. Alertado por ele, o escritor havia se retratado, na semana seguinte, em sua coluna, mesmo sem lhe ter respondido a comunicação.

Ora, uma semana hoje em dia, mesmo considerando que o FW corrigiria o erro, é muito tempo. Nesse período, alguém mais desatento que entrasse no blog, tendo lido a crônica de domingo do JB, que pensaria? Que eu, um obscuro escritor, plagiei Fausto Wolff, monstro sagrado do jornalismo e da literatura nacionais. Pior: reuni as crônicas numa coletânea (por isso a registrei na Biblioteca Nacional) que está nas mãos de uma agente literária, com vistas a lançar um livro. Imaginem agora um editor lendo a crônica e supondo que sou um plagiador.

Apesar de toda a admiração que nutria por FW — cujo “À mão esquerda” considero dos maiores romances brasileiros, cujos textos de humor muito me inspiraram, cujo comportamento ético sempre me norteou — não podia ficar calado. Esperava uma resposta, uma explicação, uma simples mensagem SMS de Fausto Wolff. Não veio (isso apesar do Fausto ter recebido pelo menos três e-mails dando conta do caso, através de três pessoas conhecidas dele). Tive que agir.

Ontem, um outro amigo de Fausto me escreveu preocupado. Disse que o Fausto está doente, sob medicação pesada, sem fumar nem beber, o que pode ter ocasionado o plágio (coisa, aliás, já sugerida por duas outras pessoas do meu contato). Disse a ele não duvidar de que isso fosse verdade (e não estava sendo irônico como de costume, leitor mordaz), mas que nem por isso poderia ficar no prejuízo. E que, a mim, me bastaria uma linha de Fausto Wolff, dizendo: “Marconi, errei, mas vou te dar os créditos”. Isso e o caso estaria encerrado.

Para encurtar: o escritor ainda não se dignou falar comigo diretamente. Apesar disso, após lhe ligar, o sujeito me informou que, no exato momento em que atendeu o telefone, aquele estava tentando enviar para o jornal um artigo se retratando. Esperava ler o texto hoje, por esse motivo falei em “notícia boa” no princípio. Mas, como há pouco me explicaram, o "Caderno B" fecha cedo, a crônica deve sair amanhã.

A que isso nos leva? A esperar. Esperemos 24 horas a ver se a retratação sai. Amanhã, portanto, cenas do próximo capítulo. Manterei vocês informados.
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Aproveito para agradecer a mais nove bravos (se alguém escreveu post sobre o assunto e não listei até agora, por favor, pronuncie-se):
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(Obs.1: Retirei os nomes de terceiros citados anteriormente no post, pois um deles se sentiu ofendido. Obs.2: Os problemas de saúde e de abstinência que FW vem enfrentando não são informação exlusiva de ninguém, pois o próprio escritor já tratou do assunto em crônica. Obs.3: Aqui, com a elegância costumeira, Milton Ribeiro escreve o artigo que eu gostaria de ter escrito.)

EU ESCREVO, TU COPIAS, ELE PUBLICA (3)


ATENÇÃO! Dentro em breve, segundo parece, teremos novidades com relação ao já famoso caso Marconi x JB (os que chegaram agora confiram aqui).

Até o meio-dia devo publicar informações que podem dar o desfecho do imbróglio, além de prestar alguns esclarecimentos aos leitores. Aguardem.

Enquanto isso, aproveito para agradecer a mais dois que entraram com seus textos na batalha:

Verdes Trigo
Bernardo Bauer

E para que os senhores não percam todas as unhas das mãos enquanto esperam por notícias, leiam logo aí no post abaixo mais um capítulo inédito de O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA, a série que tem deixado até os sapatos do papa vermelhos de vergonha.
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Ou, para os que preferem blasfêmias que tendam menos a espicaçar a ira do Vaticano, releiam esta outra aqui.
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Vou fazer um sinal-da-cruz e volto já.

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (8)


Moisés se aproximou de Jesus e de Abraão lentamente, apoiado em seu cajado. Ao chegar no ponto onde os dois estavam, disse numa voz sumida:

— Je-je-je-su-sus? Que ale... que ale... que alegri... que ale...
— Que alegria revê-lo – emendou Abraão, impaciente, para Jesus. E depois, sussurrando: – Imagine a agonia dos hebreus no deserto esperando que ele acabasse de ler os dez mandamentos! Não é à toa que demoraram quarenta anos pra chegar em Canaã!
— Pai Moisés, como vai o senhor? — falou Jesus, amparando o velho e conduzindo-o pelo antebraço para a praça.
— Co-co... co-co... co-co…
— Cocô? Ele quer fazer cocô?
— Co-co-mo… co-co-mo…
— O senhor come. O senhor quer comer, é isso?
— Co-co-me... co-co-me…
— Começa…?

Nesse instante, estacando o passo, Moisés virou-se enfezado para Jesus e deu uma forte pancada na cabeça do Messias com o cabo de seu cajado.

— Ai! Mas o que foi que eu fiz, pai?
— Ele não gosta que completem. Só permite isso a Aarão. E fala mais alto que ele é surdo — explicou Abraão.

Retomando o passo, Moisés quis saber:

— Co-co-mo es-está-tá-tá você?
— Be-bem, pa-pai Mo-moi-se-sés — respondeu o Nazareno.

Mais uma vez, Moisés parou e olhou desconfiado para Jesus, que deu um sorriso amarelo e protegeu a cabeça discretamente. No entanto, aquele deu com o cajado em seu joelho direito.

— Ai, ai! Que fo-foi que eu fi-fi-fiz?
— Ele não gosta que imitem o jeito de falar dele, Rabi — explicou Abraão.
— Que eu po-posso fa-fa-fazer? Não con-si-sigo ver ninguém fa-falando dife-ferente que pego!

Tornando a andar, Moisés indagou:

— E seu pa-pa-pai, Lu-Lúcifer?
— Lu-Lúcifer, pa-pa-pai Moi-se-sés?!
— Não liga. Ele tá meio... — disse Abraão, girando o indicador ao redor da orelha. — Muito sol na cabeça. Além disso, segundo pesquisas recentes, o excesso de maná afeta a área do cérebro responsável pela memória e pela concentração.

Moisés fez alto mais uma vez e olhou intrigado para Jesus. O Senhor, num rápido reflexo, defendeu a testa e os joelhos. Porém, o velho agora alvejou seu flanco. Por azar, justamente aquele que tinha a cicatriz da lança do centurião.

Quando finalmente alcançaram a praça, se sentaram em bancos de pedra, sob uma mangueira. Moisés sacou um baralho de cartas banhadas a ouro do bolso, fez com elas acrobacias dignas de um mágico, ajeitou a postura, olhou para Abraão parecendo pelo menos cem anos mais jovem e disse numa voz firme:

— Vamos, então? E você, Jesus, não joga uma partidinha conosco, hein?

Jesus declinou do convite e ficou observando o jogo, que terminou em questão de segundos: o egípcio bateu com seis ases de copas.

— Bati! Hi, hi, hi! — gritou, esfregando as mãos como uma criança.
— Muito engraçado, Moisés — reagiu Abraão, bravo. — Por isso que o Pai nunca te deu confiança! Passa esse cajado pra cá, anda! Já disse que você não pode jogar com ele! (CONTINUA)

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Capítulo 8

01 outubro, 2007

EU ESCREVO, TU COPIAS, ELE PUBLICA (2)


Toda a torcida do Flamengo se manifestou, de maneira que achei por bem fazer um update (palavra inglesa que, como todos sabem, significa “deitar para cima”) sobre o plágio que sofri do Fausto Wolff em sua coluna do Jornal do Brasil deste domingo, 30 de setembro (oi, Franciel!) de 2007. (ler post abaixo)
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É acomodado na cama, então, que digo: os e-mails de solidariedade são muitos e eu só sei contar até dez, de maneira que faço um agradecimento geral.
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Mas há também os ociosos que, aproveitando da vida nababesca propiciada pela política econômica do governo Lula, resolveram eles próprios escrever sobre o assunto. Seguem abaixo os links para os textos.

Milton Ribeiro, o Tarado de Sábado

Serbonético

Neurótika.com

Franciel Carlos Magalhães

Blog dos Perrusis

Casa do Atlético


Enfim. Agradeço a todos e faço votos de que o diabo se apiede de vocês após a Passagem.


EU ESCREVO, TU COPIAS, ELE PUBLICA


Bem dizia aquele velho epiléptico semi-alfabetizado: “Espero sempre o pior dos seres humanos e raras vezes me decepciono”. Desempregado, nordestino, feio, baixo, meio amarelado e pouco provido de massa encefálica, imaginei que havia sido produto de uma reunião apressada de deuses anojadiços no Hades, em horário de rush, numa segunda-feira pós-ressaca. Razão por que todos os males de nossa espécie haviam se coadunado em mim.
.
Porém — e agora quem fala é aquele bigodudo alemão doido pela irmã, referindo-se a cartas e carteiros —, um comentário de blog é uma visita não anunciada, o comentarista um agente de surpresas rudes.

Alertado pelo leitor Carlos Alberto Saraiva (que o Senhor, em existindo, o tenha em boa graça), fiz algo impensável neste domingo: comprei um jornal. Pior, um jornal carioca. Pior ainda: o JB. Sim, senhores, a autoflagelação não deixa de ser um hábito louvável. Mas não era essa a minha intenção ao adquirir o periódico.

Acontece que Carlos me informou, dois posts abaixo, ser o texto de Fausto Wolff publicado em sua coluna no “Caderno B” do referido diário, neste fatídico 30 de setembro de 2007, um plágio de certo texto meu.

Qual não foi minha surpresa, portanto, ao ler a folha e constatar que também os escritores nacionais estão seguindo os novos padrões éticos de nossa querida nação, fazendo uso de caixa baixa dois ou, em bom delubês, diálogos de campanha não contabilizados? Nenhuma.

Comparem vocês mesmos. Aqui, o texto do JB.
Aqui, o meu. A diferença entre os dois é pequena: a descaracterização da fala de um personagem aqui, a perda do timing de humor ali e o fato de que minha crônica foi publicada no dia 16 de abril deste ano, cinco meses e meio antes da dele, e, bom, está devidamente registrada na Biblioteca Nacional.

Alguns homens de bem têm se solidarizado com este que vos escreve, como Branco Leone, Carlos Bernardo, Marco Aurélio ou Toni Marques. Também vocês, se não tiverem muito o que fazer, peço que ajudem o vosso criado enviando e-mails para o Jornal do Brasil, acusando a pequena, leve desatenção do colunista, bem como divulgando ao máximo este post. Sugestões de contato vão abaixo:

Editor-chefe — Ana Maria Tahan:
atahan@jb.com.br
Editor do Caderno B — Kathia Ferreira: kat@jb.com.br
Editor-executivo — Marcelo Ambrosio: marcelo.ambrosio@jb.com.br
Diretor — Cristina Diogo: cdiogo@jb.com.br
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Agradeço aos justos. Deus guarda um lugar para vocês no Céu. E se não guardar, vou sair por aí espalhando que todas as obras Dele fui eu que fiz.