20 setembro, 2007

RAPTARAM MEU VOLTAIRE


Meu Voltaire sumiu. Não, ao contrário do que se poderia pensar, não me refiro a um livro do satírico iluminista. Eis que não tenho tempo para gastar com inânias como a leitura, a arte, a instrução e outras maravalhas de tal monta, pois preciso antes é de conhecimentos que me propiciem uma boa posição no atual mercado de trabalho, como um curso de tiro ou de bajulação.

Tampouco se trata de um móvel que perdi. Eu e minha mulher entregamos os últimos que nos restavam para um holocausto a São Balzac, em intenção de nossos credores. Não via a categoria tão feliz desde que FHC deixou a presidência.

Muito menos falo do animal de estimação de Ed Mort. Aqui em casa não temos ratos. Não porque as baratas os coloquem para correr, mas por puro instinto. Afinal, que viriam eles fazer na casa de dois adultos famintos, quando podem ir a lugares mais tranqüilos, como o apartamento da vizinha, que só tem três gatos?

Não, senhores, o Voltaire a que aludo é simplesmente o ícone do filósofo que coloquei como fundo de tela em meu computador. Ao ligar a máquina esta manhã, não encontrei mais a estampa do escritor gaulês. A princípio, pensei que tinha ido dar uma caminhada matinal com Jonathan Swift, descer sua bengala na cabeça de Alexander Pope... Enfim, divertir-se com outros fundos de tela do bairro.

Por volta do meio-dia, no entanto, comecei a ficar preocupado, imaginando que, talvez aborrecido com a carência material de minha residência ou, pior, com a indigência intelectual do dono da mesma, houvesse empreendido uma ida a Eldorado ou mesmo à casa do sábio professor Pangloss.

Às quatro da tarde, pensei pela primeira vez em suicídio. Talvez tivesse lido os jornais (que sempre escondi dele, por precaução) e, descobrindo em que se transformara a Revolução ou mesmo lendo um pouco da filosofia dos pensadores contemporâneos, tenha ingerido cicuta ou Dolly Light quente, pondo termo à vida.

Descartei a hipótese às seis horas, pois após diversas pesquisas nos arquivos, não consegui encontrar seu cadáver no laptop. Passei a desconfiar, então, de seqüestro. Mas logo dispensei a idéia, por absolutamente ridícula. Afinal, quem em pleno século 21 ainda reconheceria Voltaire?

Pensava assim, intrigado, quando me chegou o seguinte e-mail: “Voltér. Chuva, sol, ventofogo. ar. air. bombas. Sob minha posse está. Vou ter. Vou-te, r. Vovô Tê. Bolaquadrado no triângulo, vírgulas. Sim, o filósofo comigo. Pedrafolha. Chã-chão tronco, jamais. Exijo: recompensa. As mordaças da primavera no inverno outonal são tristes”.

Não veio assinado, mas pela beleza do estilo, pela pontuação eficaz, pelo sagaz uso de neologismos, pelos trocadilhos inteligentes, pela imensa capacidade de expressão, pela criatividade, pelo caráter inovador do texto, logo me dei conta de que o seqüestrador é algum escritor brasileiro da atualidade.

Como chegou a saber quem é Voltaire? Não tenho a mínima idéia. Seja como for, uso este espaço hoje para fazer um apelo público: por favor, devolva o refém. Não tenho dinheiro para o resgate, amigo, mas posso fazer um trato. Em troca do filósofo, dou a você toda a minha coleção de Marie Claire.

10 comentários:

Jens disse...

Voltaire é também o nome serviçal que faz o trabalho de revisão para mim, permanentemente ameaçado de demissão por incompetência.
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Inânias? Deixa de ser frívolo.
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Marisinha manda um beijo.
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Eu, um pé na bunda (Porque eu sou é macho e hoje se comemora o dia da Revolução Guasca e eu tô a fim de dar porrada em alguém, já que não posso comer).
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No mais, tudo está o melhor possível no melhor dos mundos possíveis.
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Passar bem!

regina ramão disse...

Marconi:

Será que teu protetor (de tela) não se perdeu por um destes sites "suspeitos" da vida? Esta estória de seqüestro não me convenceu.

Agora, querido, não sabia que colecionavas Marie Claire...hehehe!!!

O Jens está certo em querer dar porrada em alguém em função da comemoração da gauchada pela Revolução Faroupilha. Só gaúcho mesmo pra se orgulhar de um guerra em que fomos derrotados. Vai entendender...

Abreijo!

Gustavo Chaves disse...

Escritor brasileiro comtmporâneo foi ótimo, boa marconi, boa!

Dogmatico disse...

Estou lhe enviando pelo correio (alias, motoboy, os correios estão em greve) um pedaço da orelha do Voltaire. É bom você me enviar fundos de telas com maletas de dinheiro, e não quero numeração marcada, hein? Senão vou raspar a vasta cabeleira dele e daí você vai ter que observar o Voltaire parecendo um ovo cozido todos os dias, hein?

Marconi Leal disse...

Sei que você é um farsante Dogmático! Você não me engana. Sua concordância está toda perfeita.

Dogmatico disse...

Oh! Como ousa! "Nóis""samos"sequestradores, tá? Agora vou ter de... Bah, era peruca, ia cumprir o prometido, mas desse jeito não dá!

Kovacs disse...

Excelente texto, um dos melhores que já li na Internet, inteligente e bem humorado, principalmente a parte crítica à literatura contemporânea brasileira.

Acho que precisamos ser mais otimistas como Pangloss...

Parabéns Marconi!

Ane Brasil disse...

Aí, mané, tamu com o Voltaire aqui no cafofo.
Manda aí uns 500 cartão telefônico que eu quero ligá pra uma tal de Anaïs Nin, dizem que é a mó cachorra!
E sem gracinha, senão a bala vai comê.

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Aí, tá convencido?
Veja bem, Marconi, procure nos sites de sacanagem, vai ver ele quis dar uma espairecida, afinal, ninguém é de ferro.
Se resolver se fazer de tolinho e dizer que não conhece tais antros virtuais eu te mando um e-milho com os endereços mais bizaros da rede.
Sorte e saúde pra todos

Serbão disse...

descobri o sequestrador. pelo texto
foi o Arnaldo Antunes.

Lontra disse...

Nada, Serbão. O Arnaldo não escreveria aquele bilhete sozinho. Agora, se ele estiver em conluio com Carlinhos Brown e Marisa Monte, aí sim, é uma tese crível.