12 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (6)


Após o encontro com João, Jesus andava a esmo por uma das inúmeras e intrincadas picadas do Paraíso, cabisbaixo, como se carregasse um imenso peso nas costas.

Afinal, todos sabiam que São João e seus seguidores conseguiam burlar a reforçada segurança do Éden, com seus querubins armados de espadas flamejantes e anjos da guarda munidos de sensores de visão noturna, através de um sistema clandestino de túneis por onde trafegavam agentes subversivos de várias partes da Terra, do Inferno, do Purgatório e, ultimamente, muitos dos que haviam sido expulsos do Limbo quando Bento XVI fechara o estabelecimento.

Por ali também se fazia o intenso tráfico de revistas Playboy, calendários da Pirelli, bonecas infláveis, charutos cubanos, cigarros de Bali, uísques e outros produtos de origem paraguaia — alguns de fumar.

Num comércio trilateral, esses objetos eram trocados por serafins de gaiola, posteriormente vendidos a colecionadores da Europa; penas de arcanjos, muito comercializadas no Rio nos meses anteriores ao Carnaval; e, por fim, auréolas de santos, de boa aceitação em raves de todo o mundo.

Em nome da verdade, no entanto, é preciso refutar as insinuações pérfidas de alguns hereges e afirmar, peremptoriamente, que o Batista jamais permitiu o comércio de drogas mais pesadas, como o de revistas Veja, filmes de Steven Seagal e fitas do BBB, por exemplo.

Bom, a atividade de João era amplamente conhecida, como disse, mas Deus fazia vista grossa para ela, devido à intervenção de Maria, que vivia rogando pelo parente. E o certo é que o Pai até tolerava a presença de estranhos no Paraíso, mas temia que o intercâmbio comercial com a ilha de Fidel acabasse descoberto pelos ianques, o que poderia provocar embargos econômicos e, no limite, uma invasão dos Estados Unidos.

— Com Satã, que é gente boa, eu me resolvo — vivia repetindo o Onisciente. – Mas não quero confusão com presidentes americanos. Eles, em geral, são antiéticos e muito violentos. Nunca confiei em gente religiosa demais.

Até então os marines não haviam chegado e a situação permanecia inalterada. No entanto, João se recusara a ajudá-lo e Jesus via ir, ou melhor, não via ir por terra, quer dizer, Terra, digo, os seus planos viam... Enfim, Jesus ficou meio avinagrado.

Meditava ele justamente sobre isso, quando ouviu ao longe um escandaloso grito feminino:

— Você tá é atrás de uma escrava, que eu sei!

Em seguida surgiu adiante um senhor, correndo na sua direção, em fuga desabalada. De repente, o homem, que olhava constantemente para trás, se acocorou, cobrindo a cabeça com os braços e soltou um alerta:

— Cuidaaado!

Tarde demais. Abobado, Jesus enxergou uma sandália sobrevoar o sujeito, cortar o espaço em segundos e o atingir em cheio no rosto. Com o impacto, o Filho do homem foi lançado para trás e caiu de costas, metendo o crânio no chão.

— Rabi! Rabi! Você está bem? — inclinou-se o ancião sobre ele, tentando fazer com que se levantasse.— Madalena? Teus cabelos tão tão brancos! — falou o Senhor, algo zarolho, puxando a barba do velho. (CONTINUA)
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4 comentários:

Jens disse...

Já decidi: quando for para o Outro Lado quero entrar para as hostes de João Batista.
***
Quem é o velho de barba branca, porra?
***
Abração.

Moacy Cirne disse...

Eu também! Eu também!

Cartaxo disse...

Caro Marconi,

Tenho lido as suas crônicas e me interessado imensamente pelas coisas que você escreve. Posso até não concordar com tudo...mas não poderia deixar de expressar a minha admiração. Assim, gostaria de dar o mote para a sua próxima crônica. Que tal escrever algo como: 1.000 lugares para visitar depois de morrer. O tema tá muito em voga ao redor do mundo. Sei que será um show.
Abraço e muito sucesso

Gustavo Chaves disse...

Rapaz, eu sabi que rolava um baseado por lá, não era possivel tamanha sem-gracisse, valeu marconi!
muito engraçado, abraços!