10 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (4)


Ora, se há algo que ninguém pode negar a Jesus é sua imensa capacidade de se fingir de morto para, dali a uns três dias, reaparecer, vivo e serelepe de novo.
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Pois foi justamente o que o bom Filho do homem fez com relação a sua tentativa de voltar à Terra. Ficou pelo paraíso, de bobeira, ouvindo uma explosão de supernovas aqui, assistindo a uma colisão de galáxias acolá, como quem não quer nada, mas sempre pensando em vir ao Brasil. Com esse intuito, o Nazareno resolveu visitar seu primo João Batista.
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São João morava numa comunidade afastada, nos limites do Céu, que batizou de Paraíso do B. Não tinha contato com os demais habitantes celestiais, que considerava, quando mais calmo, “todos uns porcos elitistas”.

Encontrou o santo comendo um espetinho de gafanhoto passado no mel.

— São João, eu...
— “São”, não! — gritou o santo, já irritado, pois perdia facilmente a cabeça. — Deixa dessa mania de respeitar a hierarquia reacionária e conservadora do Céu, Jesus! “Camarada João”, por favor.
— Camarada João, eu estou precisando de sua ajuda. Quero voltar à Terra para ajudar meus irmãos e...
— Tu é um burguês vendido ao sistema, Jesus. Esse negócio de fazer milagres pra salvar os humildes é uma política assistencialista que tende a escravizar o povo, será possível que você não aprende as coisas nem morto?
— Mas, João...
— Nem “mais João” nem “menos João”. Esse tipo de atitude tende a criar ilusão na mente das pessoas, que passam a crer numa vida após a morte, num paraíso celeste, em vez de lutar para melhorar sua condição de vida no presente.
— Pô, João, mas peraí: o Paraíso existe!
— E daí? Grande coisa! O Maluf também existe e nem por isso a gente acredita nele. Além do mais, não consigo conceber a idéia de felicidade eterna num lugar onde tem água em abundância e ninguém passa fome.
— Primo, me escuta...
— “Camarada primo”.
— Camarada primo, me... Ué? O que foi isso?

Naquele instante, Jesus ouviu uma voz que cantava: “Looove is a many splendid thing...” com sotaque alemão. Em seguida, do meio dos arbustos, surgiu uma figura gorda, barbuda, grisalha, sem camisa e em ceroulas de bolinha, que segurava uma toalha como parceira e fazia um alegre passo de dança.

— Karl Marx?! — espantou-se Jesus.
— Que-quem? — falou João e deu um passo de lado, tapando a visão do primo, enquanto o sujeito, aflito, mergulhava de volta nos matos.
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Por um segundo, ainda pôde ver sua bunda entre as folhas, enquanto ele engatinhava. Depois, sumiu. Por algum motivo que jamais ficou claro, murmurando: “Das Eisbein! Das Eisbein!” (CONTINUA)

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6 comentários:

Moacy Cirne disse...

E a saga continua... Melhor do que certos ventos que por aqui levantaram poeira no distante 1939. Tudo bem, sei que o propósito agora é outro, a linguagem é outra, o resultado final - menos colorido e menos espetaculoso - é outro, mas nem por isso deixa de ser melhor. Abraços.

Ane Brasil disse...

Kuaaaaaaa! Marconi, meu bruxo, pra uma segunda-feira tá bom demais da conta!
Isso até me fez lembrar aquela piadinha cretina do Marx, Lenin, Trotsky e Stálin no inferno.... lembra dessa?
Sorte e saúde pra todos!

Serbão disse...

hehehe - começamos bem a semana!!! manda mais!!!

off topic - fui promovido nos teus links pra Jonathan Swift!!! gostei!!!!

Gustavo Chaves disse...

Tem premiação lá no blogue, passa lá, e que jesus lhe abençoe (rs...)

adelaide amorim disse...

:O))) É o Millôr no céu e tu na terra! Beijo.

Saramar disse...

Aiinda bem que não sou intelectual. Não preciso analisar nada. Só me divertir (?), digo morrer de rir com suas hitórias e esses detalhes deliciosos contidos nelas.

beijos