21 setembro, 2007

NINGUÉM SEGURA A JUVENTUDE DO BRASIL (CONVERSA TELEFÔNICA NO ANO DOIS MIL DUZENTOS E ALDOUS HUXLEY)


— Menina, nem te conto! Uma bomba!
— Não me diga que o Pedro veio com aquela história de amor de novo?
— Não, que nada. Ele já esqueceu isso. Depois de todos esses anos, vir falar de um relacionamento baseado em sentimentos era demais pra mim! Ele agora tá é com mania de casamento.
— Casamento? Que é isso?
— Não sei, mas deve envolver algum tipo de prática sexual heterodoxa, como enfiar o pênis na vagina ou coisa parecida.
— Eca!
— Pois é. Andei vendo sobre o assunto. A coisa envolve até um ritual medieval, com um sujeito chamado patre ou padre, uma coisa assim.
— Ah, então é um ménage. Menos mal.
— Não, não, parece que o padre é só pra oficializar a coisa em nome de um tal de Beus.
— E quem é esse? O amante do homem ou da mulher?
— Nada. Amante é coisa proibida nisso de casar.
— Não!
— Sim. Esse Beus, diz que é uma entidade sobrenatural em que os antigos acreditavam. Sei lá.
— Que nem o Estado quando existia?
— Mais poderoso.
— Que nem o Antônio Ermírio então?
— Talvez. Mas não sei se era um ser eterno como ele, acho que não. O Pedro é que entende direito dessas coisas. Agora ele resolveu estudar filosofia e literatura.
— Isso é como falar português pra mim. Que danado é filosofia e letratura, Matilde?
— Literatura. Aí cê me pegou. Só sei que eram umas disciplinas da antiga faculdade de Humanas.
— Nunca ouvi falar dessa faculdade. Ficava perto da Uninove?
— Ah, não sei. Aliás, por que que a gente tá falando disso? Te liguei pra dizer que a Lucinha tá ficando.
— Mentira! Também, cá pra nós, já não era sem tempo. Ela já tá com o quê? Sete anos?
— Seis. Ontem eles vieram fazer sexo aqui em casa.
— E aí? Você aprovou o rapaz?
— Você não vai acreditar! Sabe quem é ele? O Otonielson Jr.!
— Otonielson Jr.? O compositor? Aquele que fez aquela música: “A, B, C”? (cantando) “A, B, C. C, B, A. A,C, B. B, A, C”...
— Ele mesmo! Tá estourando nas paradas de sucesso e tem sido muito elogiado pelos críticos da APCA depois que compôs a primeira música com um único acorde da história.
— Aquela que faz tum-tam-tem?
— Não, ele não é compositor clássico, Regina. A música faz “tum”. Só “tum”. Um “tum” lindo, por sinal. Ai, tô tão orguhosa da Lucinha, nem te falo!
— Eu imagino. Que se pode esperar de nossas filhas senão que transem com um sujeito rico e famoso? Eu é que não dou sorte. A Ana Amélia só fica com gente de estudo.
— Mas eu também tô meio nervosa. Não sei se é um relacionamento desses duradouros, que chegam a uma, até duas semanas, sabe?
— Mas por quê?
— Ah, o nível dele é muito alto pra Lucinha.
— Financeiro?
— Intelectual. Imagine que ele acabou de completar dez anos e já tem um vocabulário de trinta e cinco palavras!
— Nossa! Deve ter um QI de 50 pontos, então.
— No mínimo.
— É, menina. Essa juventude de hoje é fogo...

10 comentários:

Jens disse...

Ó admirável mundo novo que possui pessoas assim.
***
Abraço. Bom findi. Moderação com o sexo e a bebida (não, com o sexo não. Aproveita e faz por mim).

Gustavo Chaves disse...

Admirável mundo novo, bom bom, muito bom!

marketrix disse...

Hahahahahhaha
Muito bom, cara.
Amei seu blog, já tá nos feeds :)

Abs,
Luciana

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marconi, tá tudo escancarado onde deve (e onde a graça precisa dessa estridência), mas gostei mais ainda da sutileza desse trecho: "Pois é. Andei vendo sobre o assunto". Tá faltando Literatura, meu camarada! E nem precisamos esperar a era de Nosso Ford! Contentamo-nos com a era de Nosso Antônio Ermírio. É duro! Um abraço.

Serbão disse...

pois fiquei com medo do Antonio Ermirio ser eterno...

Dogmatico disse...

Hahaha! Genial! Poxa, um acorde? Deve ser melhor do que essas músicas que tocam nessa tal de MTV.

Moacy Cirne disse...

É verdade, é verdade, meu caro, essa juventude hoje é fogo...

Ane Brasil disse...

SAlve nosso Ford!
Hei, rapá, por acaso vc foi inspirado por um vizinho terrorista queouve funk?
Sorte e saúde pra todos

Anita disse...

é, o fim da literatura como disciplina acadêmica nas universidades é, além da morte, a outra única certeza que podemos ter. Do jeito que vai...

José Marcos disse...

Ótimo-ótimo-ótimo...
Gostei muito da parte da música!... Tá caminhando pra isso, com certeza.
Abraço