06 setembro, 2007

NEURÔNIOS


— Barbeiro! Viu o que você fez? Arranhou toda a minha lateral!
— Ah, a culpa foi minha? Você atravessou o cruzamento voando! Tá pensando que é o quê? Um espermatozóide?
— E você? Por acaso não viu o sinal elétrico?
— Olha aí o estrago! Essa sinapse vai me custar uma nota...
— E a mim? Já olhou a fenda sináptica na minha lataria?
— Pior sou eu, que tô com o corpo celular todo doído. Que baita choque!
— Isso que dá usar as vias cerebrais de um matemático laureado com o Nobel. Quando eu morava na massa encefálica de uma modelo, o tráfico era lento, lento.
— Pois é. E eu que passei muito tempo na de um vocalista de banda de rock? A gente podia andar livremente. A população era pequeníssima.
— Aqui se leva uma vida muito agitada. É um tal de passar de um hemisfério a outro o tempo todo! Nunca se está parado.
— Cê sabe que às vezes eu penso em largar essa vida da metrópole e me mudar pro miolo de um publicitário, de um VJ ou, quem sabe, de um editor da Caras?
— Penso a mesma coisa. O ritmo aqui é perverso.
— Culpa do sistema. Muito nervoso.
— Não sou nenhum psicanalista, mas às vezes parece que todo mundo aqui tem complexo de Golgi.
— Isso e... Opa, desculpa. Pisei no seu dendrito.
— Não foi nada. Escuta, de onde é que cê tava vindo com tanta pressa?
— Da medula espinal. Mensagem urgente pra arrepiar os pêlos das costas do nosso Descartes.
— Frio?
— Que nada. Ele sentiu cheiro de pescoço de mulher. Já viu? O indivíduo não pode sentir cheiro de pescoço de mulher que a gente tem que sair desabalado por aí pra neurotransmitir a informação a Deus e todo pêlo. E você? Por que tava vindo no sentido oposto?
— Pois então, essa história de cheiro de pescoço tem as suas conseqüências...
— Não me diga que o cara enfartou?
— Pelo contrário. Eu tava justamente passando mensagem pro pinto dele.
— Ih, pelo visto a noite vai ser longa. Mas, me diz: quer dizer que você é motor?
— Sou.
— Puxa, cê sabe que eu me amarro num neurônio motor? E você é motor dos potentes, ousaria dizer... Pelo físico.
— Que é isso...
— Sério. A gente percebe que você trabalha os músculos.
— Olha, não é por nada não, mas assim que te vi, senti certa vibração. A verdade é que, desde o princípio, você me transmitiu certa energia.
— É triste que a gente tenha se conhecido através desse conector, mas, de qualquer maneira... Será que você não quer dar uma volta depois do expediente?
— Claro, claro. Por que não?
— Ótimo. Quando você tiver livre, é só me dar um sinal.
— Combinado. Agora eu preciso voltar ao batente.
— Que foi? Nosso Pascal arrastou a moça pra cama?
— Arrastou. E pela quantidade de informações enviadas aos membros superiores e inferiores, ele decorou todo o Kama Sutra. Até mais tarde.
— Tchau.

11 comentários:

Franciel disse...

Marconi, meu velho, alguma coisa está errada nesta equação aí deste seu Aristóteles. Afinal, todos sabem que...Melhor, clique neste linque
http://pedrodoria.com.br/2007/08/08/sexo-e-inteligencia-incompativeis-quase/

Gustavo Chaves disse...

Cara(eufemismo), muito bom, esse ficou genius
valeu, bom feriado!

Moacy Cirne disse...

Segundo a geometria aristotélico-euclidiana, com base em Franza Kafka e Miguel de Cervantes, a partir de leituras platônicas, neon-platônicas e etílicas, existe uma relação de 5º grau entre os neurônios e as neuroses de todo e qualquer ser extraterrestre nascido na Patagônia. Se é verdade, sinceramente não sei. Mas de uma coisa eu sei: o seu texto, mais uma vez, é muito bom.

Moacy Cirne disse...

Oi, há uma surpresa apra você no balaio. Abraços.

Ane Brasil disse...

Vixe, mininu, Neurônio com complexo de Golgi é coisa muito séria, tem que ser tratado rápido, senão o cabra amaluquece das idéia! hehehe
Muito bom!
(e tomara que os dois neurônios encontrem um tempo pra si... tô torcendo pelo romance deles)
Sorte e saúde pra todos!

Magui disse...

Pelo jeito o atendimento demorou e a coisa pode ter desgringolado.Bem critativo.

Anita disse...

;-)

sandra camurça disse...

aaaaaai, meus neurônios!!!
Beijos.

Jens disse...

Cara, alguma coisa está acontecendo com meus neurônios. Não consegui terminar o editorial da porra do jornal. Empaquei desde quinta. Algo está acontecendo com os meus garotos: não sei se é excesso de trabalho; deslumbramento diante do fim do inverno e prenúncio da primavera (rapá, as mulheres estão soberbas na sua nudez incipiente- vai ser um longo e torturante verão); ou falta de sexo pura e simples. Vou pedir uma ajuda pra Odaléia, minha doce e prestativa vizinha.
***
Terça passada foi o aniversário do Chefe Simon (que fuzarca!). O Dunga estava lá (hehehe, só pra espicaçar a tua inveja). Falei com a primeira dama Cátia e indiquei o Tumbu para fazer parte de um projeto de literatura com adolescentes que ela toca em uma escola aqui da capital. É bem legal. Passei teu email pra ela. Assim, se fizer contato, não estranha.
Um abraço. Bom findi.
(Tá um puta sol lá foram mas eu, escravo, vou terminar o maldito editorial, nem que tenha que arrancá-lo a forceps do cérebro. Saco!)

Jens disse...

PS: também indiquei a crítica feita pela Adelaide Amorim no Primeira Fonte.

Vais disse...

Ei Marconi,
Pintei numa camiseta uma vez com aquela figurinha do neurônio, as setas e tudo mais, porém com cores de uma flor tradicional, miolinho amarelo e tal, perguntei pra uns quatro ou cinco com que aquele desenho parecia, tampando estes escritos:

Vetores, Condução, Confusão
As setas indicam a direção
Da ‘trípeta’ da ‘trífuga’
ATENÇÃO!
A sinapse é contínua
E se não houve encaixe
Fique frio no divã
Apenas: Neuraram neurônios

O que eles viram deixa pra lá. Daí escrevi isso:

Ninguém entendeu aquele buquê sináptico
com corpo celular e pétalas dendríticas
amarrados com bela fita ao caule axiônico.

É neurônio, fiz-te flor.
Na cabeça de quem andarás?
Num desplante chegaram a
comparar-te
c’um ovo frito.

Bem, isto foi pra escrever que gostei do texto, risos
Inté