05 setembro, 2007

ESPÍRITO EMPREENDEDOR


— Você não é brasileira. Não tem o mínimo espírito empreendedor, mulher...
— Não e não. Não empresto, Aderaldo! Imagine só, eu investir meu dinheiro nisso. Chep!
— Como?
— Eu disse que não vou desperdiçar meu dinheiro nessa idéia estapafúrdia, porque...
— Não. Esse sonzinho que você fez...
— Sonzinho? Eu não fiz sonzinho nenhum!
— Claro que fez. “Xilop” ou “xilept”, alguma coisa assim.
— Não vem mudando de assunto, Aderaldo. Que mania! Toda vez que a gente tá falando sobre algo sério, você se esquiva. Chep!
— Olha aí!
— O quê?
— O sonzinho, você acabou de fazer: “solep”, “silep”...
— Você ficou doido de vez?
— Ah, você anda por aí fazendo “solepe” e eu é que sou maluco! Entendi...
— Não fiz “solepe” nenhum, Aderaldo. E digamos que tivesse feito? Esse não é o ponto. A questão é que...
— Xulup.
— Ahn?
— Xulup.
— Meu Deus!...
— Viu como essas coisas dispersam?
— Você ficou inteiramente louco, Aderaldo.
— Por que você diz isso, xeleptept?
— Quer parar? Parece que tem dez anos. Chep!
— Chep! Viu? É “chep”. Agora eu saquei direitinho: “chep”. Faz aí de novo.
— Cê tá de brincadeira, né?
— Não, não, faz aí de novo, por favor.
— Vai lamber sabão, Aderaldo!
— Mulher, a gente pode ficar rico com isso!
— Como exatamente a gente vai ficar rico falando “chep”, Aderaldo? Fundando a Ordem dos Cavaleiros que Dizem Chep?
— Você não tá entendendo, mulher, não é todo dia que a pessoa cria uma interjeição. Da chegada dos galegos a Pernambuco até a popularização do “oxente”, quantos anos você imagina que se passaram? Quiçá séculos! E o “bah”?
— Que bar?
— O “bah”! O “bah” do gaúcho!
— Nunca fui a bar de gaúcho nenhum, Aderaldo. Onde é que você tem andado, hein? Que história é essa?
— “Bah”, mulher! A interjeição: “bah”! Quantas gerações não terão sido necessárias pra transformar “barbaridade” numa simples sílaba!
— Má!
— “Má”, não: “bah”!
— Não, é “má” mesmo. Levei poucos segundos pra transformar “maluco” numa interjeição.
— Viu? Você leva jeito pra coisa. O próximo passo é a gente ir à Biblioteca Nacional e fazer o registro. Daí, toda vez que alguém falar “chep”, a gente recebe os direitos autorais.
— Aderaldo, exceto se, por acaso, numa das inúmeras junções aleatórias de letras que formam os refrões das músicas baianas, calhar de sair um “chep”, em que outra oportunidade você acha que alguém vai usar a palavra? Me diga.
— Tudo que a gente precisa é de um pequeno apoio da mídia. Tu não lembra do “imexível” do Magri? Ele ficou milionário com aquilo! Todo mundo querendo ouvir o neologismo de sua própria boca. E Fernando Henrique e o “nhenhenhém”? Ahn, ahn? Já te vejo na USP, em Harvard, em Oxford, mulher, discorrendo sobre tua invenção. Camisetas nos cinco continentes estamparão a palavra. Gilberto Gil vai empregá-la num discurso sobre a interpenetração sanitária dos vodus ultra-estóicos da Eurásia. O Lula vai querer falar também, mas vai acabar dizendo “chechep” ou “chenep”. Bono Vox virá a público defendendo que os africanos pronunciem “chep” sem pagar os direitos autorais. Os ianomâmis...
— Tá vendo aí por que não vou te emprestar dinheiro pra investir nessa idéia de abrir uma sauna em Teresina, Aderaldo? Você viaja demais, você simplesmente não coloca os pés na realidade! Acorda, Aderaldo! Deus seja louvado!
— Você não é brasileira. Não tem o mínimo espírito empreendedor, mulher.

9 comentários:

Moacy Cirne disse...

Hilário, pra falar a verdade, xópita!

Adriana disse...

schelpt eheheh...muito boa !
Olá, sou amiga da Paty e queria convidar vces pra visitar meu blog de poesias, os contos tão ainda engatinhando, parabéns pelo talento ! Saudações Lancinantes, Adri

Gustavo Chaves disse...

ô autor das manhãs de todos os dias, que porra de chep, isso é tosco, i o oxente é nosso viu, bahêaaaaaa,e outra coisa, boa bom texto!

Jock disse...

Hahaha! Adorei! :)

abraços,

Diego - Casa do galo

Vais disse...

Ei Marconi,
risos
isso tá parecendo tique nervoso, chep, chilep e uma careta.
saudações mineiras, uai.

Serbão disse...

Eu fui mais esperto que Aderaldo e sua esposa. Acabei de registrar o 'chep' na Biblioteca Nacional.
Quero os direitos do post, Marconi!!!

Flávio disse...

Hilário, como sempre, Marconi! Chep! ;) Abração

Vinícius disse...

"Chep-ode" me dizer como tanta coisa doida sai da sua cbeça? Eu, por exemplo, acabei de estragar a brincadeira com este meu "chepe-ode". Huahuhauhauha... Foi meu momento joselito, sem noção!
Abraço.
Vini

Ane Brasil disse...

Chep!
[portoalegrês mode on]
Bah, magrão, isso foi ducaralho[portoalegrês mode off]

Simplesmente hilário. chep
Sorte e saúde pra todos! (e chep)