21 setembro, 2007

NINGUÉM SEGURA A JUVENTUDE DO BRASIL (CONVERSA TELEFÔNICA NO ANO DOIS MIL DUZENTOS E ALDOUS HUXLEY)


— Menina, nem te conto! Uma bomba!
— Não me diga que o Pedro veio com aquela história de amor de novo?
— Não, que nada. Ele já esqueceu isso. Depois de todos esses anos, vir falar de um relacionamento baseado em sentimentos era demais pra mim! Ele agora tá é com mania de casamento.
— Casamento? Que é isso?
— Não sei, mas deve envolver algum tipo de prática sexual heterodoxa, como enfiar o pênis na vagina ou coisa parecida.
— Eca!
— Pois é. Andei vendo sobre o assunto. A coisa envolve até um ritual medieval, com um sujeito chamado patre ou padre, uma coisa assim.
— Ah, então é um ménage. Menos mal.
— Não, não, parece que o padre é só pra oficializar a coisa em nome de um tal de Beus.
— E quem é esse? O amante do homem ou da mulher?
— Nada. Amante é coisa proibida nisso de casar.
— Não!
— Sim. Esse Beus, diz que é uma entidade sobrenatural em que os antigos acreditavam. Sei lá.
— Que nem o Estado quando existia?
— Mais poderoso.
— Que nem o Antônio Ermírio então?
— Talvez. Mas não sei se era um ser eterno como ele, acho que não. O Pedro é que entende direito dessas coisas. Agora ele resolveu estudar filosofia e literatura.
— Isso é como falar português pra mim. Que danado é filosofia e letratura, Matilde?
— Literatura. Aí cê me pegou. Só sei que eram umas disciplinas da antiga faculdade de Humanas.
— Nunca ouvi falar dessa faculdade. Ficava perto da Uninove?
— Ah, não sei. Aliás, por que que a gente tá falando disso? Te liguei pra dizer que a Lucinha tá ficando.
— Mentira! Também, cá pra nós, já não era sem tempo. Ela já tá com o quê? Sete anos?
— Seis. Ontem eles vieram fazer sexo aqui em casa.
— E aí? Você aprovou o rapaz?
— Você não vai acreditar! Sabe quem é ele? O Otonielson Jr.!
— Otonielson Jr.? O compositor? Aquele que fez aquela música: “A, B, C”? (cantando) “A, B, C. C, B, A. A,C, B. B, A, C”...
— Ele mesmo! Tá estourando nas paradas de sucesso e tem sido muito elogiado pelos críticos da APCA depois que compôs a primeira música com um único acorde da história.
— Aquela que faz tum-tam-tem?
— Não, ele não é compositor clássico, Regina. A música faz “tum”. Só “tum”. Um “tum” lindo, por sinal. Ai, tô tão orguhosa da Lucinha, nem te falo!
— Eu imagino. Que se pode esperar de nossas filhas senão que transem com um sujeito rico e famoso? Eu é que não dou sorte. A Ana Amélia só fica com gente de estudo.
— Mas eu também tô meio nervosa. Não sei se é um relacionamento desses duradouros, que chegam a uma, até duas semanas, sabe?
— Mas por quê?
— Ah, o nível dele é muito alto pra Lucinha.
— Financeiro?
— Intelectual. Imagine que ele acabou de completar dez anos e já tem um vocabulário de trinta e cinco palavras!
— Nossa! Deve ter um QI de 50 pontos, então.
— No mínimo.
— É, menina. Essa juventude de hoje é fogo...

20 setembro, 2007

RAPTARAM MEU VOLTAIRE


Meu Voltaire sumiu. Não, ao contrário do que se poderia pensar, não me refiro a um livro do satírico iluminista. Eis que não tenho tempo para gastar com inânias como a leitura, a arte, a instrução e outras maravalhas de tal monta, pois preciso antes é de conhecimentos que me propiciem uma boa posição no atual mercado de trabalho, como um curso de tiro ou de bajulação.

Tampouco se trata de um móvel que perdi. Eu e minha mulher entregamos os últimos que nos restavam para um holocausto a São Balzac, em intenção de nossos credores. Não via a categoria tão feliz desde que FHC deixou a presidência.

Muito menos falo do animal de estimação de Ed Mort. Aqui em casa não temos ratos. Não porque as baratas os coloquem para correr, mas por puro instinto. Afinal, que viriam eles fazer na casa de dois adultos famintos, quando podem ir a lugares mais tranqüilos, como o apartamento da vizinha, que só tem três gatos?

Não, senhores, o Voltaire a que aludo é simplesmente o ícone do filósofo que coloquei como fundo de tela em meu computador. Ao ligar a máquina esta manhã, não encontrei mais a estampa do escritor gaulês. A princípio, pensei que tinha ido dar uma caminhada matinal com Jonathan Swift, descer sua bengala na cabeça de Alexander Pope... Enfim, divertir-se com outros fundos de tela do bairro.

Por volta do meio-dia, no entanto, comecei a ficar preocupado, imaginando que, talvez aborrecido com a carência material de minha residência ou, pior, com a indigência intelectual do dono da mesma, houvesse empreendido uma ida a Eldorado ou mesmo à casa do sábio professor Pangloss.

Às quatro da tarde, pensei pela primeira vez em suicídio. Talvez tivesse lido os jornais (que sempre escondi dele, por precaução) e, descobrindo em que se transformara a Revolução ou mesmo lendo um pouco da filosofia dos pensadores contemporâneos, tenha ingerido cicuta ou Dolly Light quente, pondo termo à vida.

Descartei a hipótese às seis horas, pois após diversas pesquisas nos arquivos, não consegui encontrar seu cadáver no laptop. Passei a desconfiar, então, de seqüestro. Mas logo dispensei a idéia, por absolutamente ridícula. Afinal, quem em pleno século 21 ainda reconheceria Voltaire?

Pensava assim, intrigado, quando me chegou o seguinte e-mail: “Voltér. Chuva, sol, ventofogo. ar. air. bombas. Sob minha posse está. Vou ter. Vou-te, r. Vovô Tê. Bolaquadrado no triângulo, vírgulas. Sim, o filósofo comigo. Pedrafolha. Chã-chão tronco, jamais. Exijo: recompensa. As mordaças da primavera no inverno outonal são tristes”.

Não veio assinado, mas pela beleza do estilo, pela pontuação eficaz, pelo sagaz uso de neologismos, pelos trocadilhos inteligentes, pela imensa capacidade de expressão, pela criatividade, pelo caráter inovador do texto, logo me dei conta de que o seqüestrador é algum escritor brasileiro da atualidade.

Como chegou a saber quem é Voltaire? Não tenho a mínima idéia. Seja como for, uso este espaço hoje para fazer um apelo público: por favor, devolva o refém. Não tenho dinheiro para o resgate, amigo, mas posso fazer um trato. Em troca do filósofo, dou a você toda a minha coleção de Marie Claire.

19 setembro, 2007

AMORES FILOSÓFICOS


— Te amo, sabia?
— Quanto?
— Muito.
— Muito quanto?
— Queria passar o eterno retorno contigo.

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— Se eu pedir uma coisa, cê deixa?
— Ai, que é?
— Deixa ou não deixa?
— Ah, fala!
— Deixa?
— Tudo bem, tudo bem! Diz.
(sussurrando) Vamo ali no canto pra eu pôr a coisa-em-si...

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— Te amo, Sophia!
— Ih, lá vem você de novo...
— Juro.
— Sei!
— Olha pra mim. Te quero mais que ninguém!
— Aff... Certo, eu acredito.
— Então, podemos conversar?
— Tá. Mas pelo menos tome um banho antes, sim, Sócrates?

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— Minha querida, você é minha única síntese.
— Ah, é? E aquela tal de Joana?
— Uma simples tese, meu amor.
— Tô sabendo. E a Flávia, ahn?
— Pfff. Aquela ali? Não passou de uma antitesezinha de nada...

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— Só quero dizer que te amo.
— A gente mal se conhece, como é que você pode ter certeza?
— Eu sei.
— Como?
— Sabendo, ora.
— Mas sabendo como?
— A priori, minha linda. A priori.

18 setembro, 2007

CLÁSSICO ITALIANO – SEGUNDO TEMPO


VIRGÍLIO: Muito bem, amigos, voltamos a falar ao vivo do Circus Maximus, e já vamos imediatamente ao Senado, onde Plutarco está ao lado do principal dirigente da equipe que enfrentará César. Qual a expectativa de Pompeu para a verdadeira guerra em que se transformou esse jogo, Plutarco?

PLUTARCO: Bom dia, Virgílio. Bem, vamos ouvir da boca do próprio comandante o que ele tem a dizer. E então, Pompeu, tudo bem?

POMPEU: Tudo na santa pax romana.

PLUTARCO: Bom, pra começar, uma polêmica. César diz que seu time é muito agressivo. E você, que cê tem a dizer sobre seu selecionado? Joga bruto ou não joga?

POMPEU: Bruto pode até jogar. Mas não é de apunhalar o adversário pelas costas.

PLUTARCO: Você acha que vai conseguir neutralizar os famosos ataques do adversário?

POMPEU: Não chegamos na final por acaso, né? Se estamos aqui hoje foi graças às belas vitórias sobre sírios e palestinos. Além disso, a gente tem a vantagem de jogar dentro de casa. Acho que é manter a defesa postada e partir pro contra-ataque rápido.

PLUTARCO: Você não teme César? Afinal, trata-se de um cônsul experiente.

POMPEU: Talvez seja um cônsul experiente. Mas não é nenhuma Brastemp. Só temo a deslealdade. Todo mundo sabe que César é um tremendo filho de uma loba!

PLUTARCO: Err... Hmm...

POMPEU: Desculpe, Plu. Não vai tornar a acontecer. Prometo não mais perder a cabeça.

PLUTARCO: Alguma marcação especial?

POMPEU: Nos últimos treinamentos, repeti incessantemente a meus atletas: “marca Antônio, marca Antônio!” Só assim poderemos defender nossa cidadela dos petardos de longa distância.

PLUTARCO: E a formação da equipe, você poderia adiantar?

POMPEU: Bem, nós vamos entrar com a formação tradicional. Homens agrupados, escudos sobre as cabeças, enfim, a formação tartaruga de sempre.

PLUTARCO: E essa versão de que vocês abandonariam o campo de jogo, cedendo a vitória por WO?

POMPEU: Só se for nas calendas gregas! Não, isso é história de César. Ele fala demais. Mas hoje nós vamos provar que nem sempre quem tem boca vem a Roma. Dessa vez, ele vai ter que dobrar a língua. Dobrar a língua, arregalar os olhos e babar um pouco.

PLUTARCO: Obrigado, Pompeu. Voltamos com você, Virgílio.
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VIRGÍLIO: Agradecemos a participação de nossos repórteres, dando mais um show de cobertura nesse clássico que certamente entrará para a história. Fique ligado. Após a luta de gladiadores, traremos ao vivo todas as emoções de César x Pompeu. Quem ficará com a República? Quem será que dirá, ao final: “veni, video, vici”? Quer dizer, “veni, vidi, vicio”... “venio, vidi”... Bom, até lá. (em off, tirando o fone de ouvido) Eita língua complicada, não? Por Jove, juro que às vezes queria vê-la morta!

17 setembro, 2007

CLÁSSICO ITALIANO – PRIMEIRO TEMPO


VIRGÍLIO: Bom dia, amigos, estamos falando diretamente do Circus Maximus, onde daqui a pouco ocorrerá o embate entre o time de César e o de Pompeu. Segundo nossa reportagem, a delegação de César já deixou a Gália Cisalpina, acaba de atravessar o Rubicão e vem se dirigindo a Roma. O repórter Suetônio parece que está com ele, o inquieto César. É isso, Suetônio?

SUETÔNIO: Isso mesmo, Virja, você está certo. Estamos aqui com ninguém menos que Caio Júlio. Ave, César!

CÉSAR: Ave? Calma lá, eu ainda nem sou ditador! Além do mais... Eca! Mas o que foi isso? Que nojo! Melou minha túnica toda!

SUETÔNIO: Uma ave, César. Eu avisei! Bom, talvez seja um bom augúrio. Consulte um copromante. Mas, mudando de assunto... Júlio, qual é a sua expectativa com relação ao confronto de logo mais?

CÉSAR: Olha, eu tô confiante nos rapazes. A guerra civil é uma sarcina de surpresas, mas nossa décima legião está bem armada e contamos com o apoio da torcida. Afinal, o nosso é um time popular, enquanto o adversário conta apenas com o apoio restrito da elite conservadora.

SUETÔNIO: Então você crê na vitória?

CÉSAR: Veja, nós fizemos um excelente campanha militar. Ninguém acreditou, por exemplo, quando eu disse que derrotaríamos a Gália e, no entanto, estamos na final.

SUETÔNIO: O time chega em boa forma física ou você acha que a temporada foi muito desgastante?

CÉSAR: Não, o calendário atrapalhou um pouco. Inclusive, acredito que para o próximo ano ele precisará ser mudado.

SUETÔNIO: Mais alguma palavra para nossos telespectadores?

CÉSAR: Quero dizer aos patrícios que nos assistem que, no que depender de nós, venceremos hoje e promoveremos uma anistia geral: nenhum oponente será punido com cartão amarelo ou vermelho. Enfim, se Júpiter quiser, chegaremos à primeira declinação. “Aleam jacta est.”

SUETÔNIO: Obrigado, Caio. Muito bem, Virgílio, vimos aí que Júlio está confiante e, mais importante, que como a maioria dos jogadores, a gramática não é seu forte, pois acaba de usar o acusativo no lugar do nominativo. E já que ele falou na torcida, ouça só o barulho que ela faz nas proximidades...

TORCIDA: (cantando em coro) Rá, rá, ru, ru! O Senado é nosso! Rá, rá, ru, ru! O Senado é nosso!

SUETÔNIO: Vamos tentar nos aproximar aqui de um popular. E então, meu plebeu, muito animado?

PLEBEU: É legião! E legião! É legião! Renato, eu te amo!

SUETÔNIO: Como você percebe, Virja, as pessoas mal conseguem falar de tanta emoção. Voltamos com você.

VIRGÍLIO: Obrigado, Suetônio. Bom, amigos, no que me diz respeito, gostaria de dizer que arriscar um resultado a essa altura do campeonato é como ficar entre Cila e Caríbdis. Preferiria o Inferno a estar nessa posição. Mas, vamos aos nossos comerciais e voltamos em instantes, diretamente do Senado, onde está Plutarco, com as últimas informações sobre o time de Pompeu. Até já.

(CONTINUA AMANHÃ)

13 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (7)


— Rabi! Sou eu, Abraão!
— Pai Abraão? — disse o Senhor, pondo-se de pé. — Que foi que houve?
— Bem, primeiro o Senhor revelou sua face para mim e disse: “Abrão, vai até Canaã, pois é a terra que destinei a ti e tua...”
— Não, digo, agora. Por que o senhor tava correndo daquele jeito?
— Ah, você sabe como é a Sara... Toda semana eu tenho esse jogo de cartas, mas não adianta: sempre ela acha que eu vou atrás de Agar.
— O Terrível? Ele morreu? — perguntou o Nazareno, que ainda não havia se recuperado da pancada na cabeça.
— Não, não, a mãe de meu filho Ismael. Vê-se logo que Moisés não teve uma mulher como a minha. Caso contrário, teria determinado que as mulheres ficavam impuras na semana pré-menstrual e não quando menstruam. Vou te contar: sortudo foi Lot, Rabi! E você, meu menino, que faz por essas bandas?
— Ah, pai Abraão, é uma história longa como o Pentateuco. Eu quero voltar à Terra, sabe?
— Já sei, prometeram te dar a propriedade de um lugar que mana leite e mel, não foi? Também caí nessa. Vai por mim: aquela terra não presta, Jesus. Você vai gastar um dinheirão com irrigação e...
— Não, pai Abraão, eu quero ir ao Brasil...
— Brasil? Piorou! Olha, aquilo lá parecia ser até um lugar interessante: negras, mulatas, cafuzas... Mas desde 1888 a coisa degringolou bastante. Imagine que nem se pode mais ter um escavo! Me diga: por que é que você quer ir à América do Sul? Comerciar café?
— Nada disso, eu quero ajudar meus irmãos, pai Abraão.
— Seus irmãos? Aaaah, então quer dizer que Deus também andou aprontando das suas? Depois sou eu que levo a fama!
— Não, pai. Meus irmãos, os homens, a raça humana.
— Raça humana! Chhh! Que é que você tem contra os macacos ou o cavalo, por exemplo, seres muito mais inteligentes e simpáticos?
— Eu dei meu sangue por aquela gente, pai Abraão.
— Eu sei. Não via tamanho desperdício de sangue desde que teu pai sobrevoou o Egito.

Enquanto falava, Abraão seguia seu caminho. Andaram um longo tempo, até que atingiram uma praça com mesas e bancos de pedra, bastante arborizada, na orla de um barranco de areia que subia da praia.

— Olha aí, chegamos — disse o patriarca.

Assim que acabou de falar, soprou um vento do Ocidente e o Filho do homem viu o mar se abrir de parte a parte.

— Na hora! Impressionante. Ele nunca atrasa.

Dentro em pouco, surgia Moisés. (CONTINUA)
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12 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (6)


Após o encontro com João, Jesus andava a esmo por uma das inúmeras e intrincadas picadas do Paraíso, cabisbaixo, como se carregasse um imenso peso nas costas.

Afinal, todos sabiam que São João e seus seguidores conseguiam burlar a reforçada segurança do Éden, com seus querubins armados de espadas flamejantes e anjos da guarda munidos de sensores de visão noturna, através de um sistema clandestino de túneis por onde trafegavam agentes subversivos de várias partes da Terra, do Inferno, do Purgatório e, ultimamente, muitos dos que haviam sido expulsos do Limbo quando Bento XVI fechara o estabelecimento.

Por ali também se fazia o intenso tráfico de revistas Playboy, calendários da Pirelli, bonecas infláveis, charutos cubanos, cigarros de Bali, uísques e outros produtos de origem paraguaia — alguns de fumar.

Num comércio trilateral, esses objetos eram trocados por serafins de gaiola, posteriormente vendidos a colecionadores da Europa; penas de arcanjos, muito comercializadas no Rio nos meses anteriores ao Carnaval; e, por fim, auréolas de santos, de boa aceitação em raves de todo o mundo.

Em nome da verdade, no entanto, é preciso refutar as insinuações pérfidas de alguns hereges e afirmar, peremptoriamente, que o Batista jamais permitiu o comércio de drogas mais pesadas, como o de revistas Veja, filmes de Steven Seagal e fitas do BBB, por exemplo.

Bom, a atividade de João era amplamente conhecida, como disse, mas Deus fazia vista grossa para ela, devido à intervenção de Maria, que vivia rogando pelo parente. E o certo é que o Pai até tolerava a presença de estranhos no Paraíso, mas temia que o intercâmbio comercial com a ilha de Fidel acabasse descoberto pelos ianques, o que poderia provocar embargos econômicos e, no limite, uma invasão dos Estados Unidos.

— Com Satã, que é gente boa, eu me resolvo — vivia repetindo o Onisciente. – Mas não quero confusão com presidentes americanos. Eles, em geral, são antiéticos e muito violentos. Nunca confiei em gente religiosa demais.

Até então os marines não haviam chegado e a situação permanecia inalterada. No entanto, João se recusara a ajudá-lo e Jesus via ir, ou melhor, não via ir por terra, quer dizer, Terra, digo, os seus planos viam... Enfim, Jesus ficou meio avinagrado.

Meditava ele justamente sobre isso, quando ouviu ao longe um escandaloso grito feminino:

— Você tá é atrás de uma escrava, que eu sei!

Em seguida surgiu adiante um senhor, correndo na sua direção, em fuga desabalada. De repente, o homem, que olhava constantemente para trás, se acocorou, cobrindo a cabeça com os braços e soltou um alerta:

— Cuidaaado!

Tarde demais. Abobado, Jesus enxergou uma sandália sobrevoar o sujeito, cortar o espaço em segundos e o atingir em cheio no rosto. Com o impacto, o Filho do homem foi lançado para trás e caiu de costas, metendo o crânio no chão.

— Rabi! Rabi! Você está bem? — inclinou-se o ancião sobre ele, tentando fazer com que se levantasse.— Madalena? Teus cabelos tão tão brancos! — falou o Senhor, algo zarolho, puxando a barba do velho. (CONTINUA)
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11 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (5)


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— João, quem era aquele sujeito gordo, velho, branco e barbudo que eu acabei de ver, João?
— Gordo? Velho? Barbudo? Devia ser Deus...
— Não, João! Era judeu, mas não era o Papai!
— Como é que você sabe? Só porque ele tava de bom humor?
— Não, porque o Papai não tem uma tatuagem da Betty Boop nas costas, João!
— Maldito Andy Warhol! Já mandei ele parar com essa mania de pintar o corpo dos outros!
— Andy Warhol? Você trouxe um pintor da Pop Art pro céu?
— Que é que você queria? O diabo me implorou e...
— Espere só até o Rafael ou o da Vinci saberem disso. Andy Warhol! E o Marx? Vamos. Explique.
— Bom... quer dizer... é... O Marx? O Marx é quase um padre, Jesus.
— Ah, claro, sendo comunista, também deve comer criancinhas...
— Como você é influenciado por preconceitos pequeno-burgueses, não? Eu me referia à filosofia dele. E não olhe pra mim como se você não tivesse nada a ver com isso.
— Ele é ateu, João!
— Convenhamos, conhecendo teu pai há dois milênios, tu não acha que o alemão tem lá suas razões?
— João!
— Além do mais, aquele não era o Marx.
— Ah, não, é? E era quem? Engels com mania de grandeza?
— Quer saber mesmo?
— Tô esperando.
— Tá, eu digo. Mas só se você pronunciar sem gaguejar o nome de todas as gerações bíblicas de Set até Taré.
— João!
— Os afluentes da margem esquerda do Amazonas?
— Joã-ãão!
— Tudo bem, é o seguinte...
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João colocou o braço esquerdo sobre os ombros de Jesus e, após soltar um suspiro prolongado, vestiu sua melhor cara de figurante de “A Escola de Atenas” e, caminhando descansadamente, olhando para cima com olhinhos piscantes, foi contando uma longa história sobre um dos Três Porquinhos ter se disfarçado de pensador oitocentista para fugir do ET de Varginha, que tinha posto o Lobo Mau para correr com a ajuda do Pé Grande.
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Jesus, evidentemente, não acreditou nas palavras do primo. Afinal, todo mundo sabe que Varginha não existe. Mas, acabou se convencendo de que o sujeito que vira não era Marx, após este argumento definitivo:
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— Você por acaso já viu algum alemão seguir para o banho alegre, cantando, daquele jeito? (CONTINUA)

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Capítulo 8
Capítulo 7

Capítulo 6
Capítulo 5
Capítulo 4
Capítulo 3
Capítulo 2
Capítulo 1

10 setembro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (4)


Ora, se há algo que ninguém pode negar a Jesus é sua imensa capacidade de se fingir de morto para, dali a uns três dias, reaparecer, vivo e serelepe de novo.
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Pois foi justamente o que o bom Filho do homem fez com relação a sua tentativa de voltar à Terra. Ficou pelo paraíso, de bobeira, ouvindo uma explosão de supernovas aqui, assistindo a uma colisão de galáxias acolá, como quem não quer nada, mas sempre pensando em vir ao Brasil. Com esse intuito, o Nazareno resolveu visitar seu primo João Batista.
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São João morava numa comunidade afastada, nos limites do Céu, que batizou de Paraíso do B. Não tinha contato com os demais habitantes celestiais, que considerava, quando mais calmo, “todos uns porcos elitistas”.

Encontrou o santo comendo um espetinho de gafanhoto passado no mel.

— São João, eu...
— “São”, não! — gritou o santo, já irritado, pois perdia facilmente a cabeça. — Deixa dessa mania de respeitar a hierarquia reacionária e conservadora do Céu, Jesus! “Camarada João”, por favor.
— Camarada João, eu estou precisando de sua ajuda. Quero voltar à Terra para ajudar meus irmãos e...
— Tu é um burguês vendido ao sistema, Jesus. Esse negócio de fazer milagres pra salvar os humildes é uma política assistencialista que tende a escravizar o povo, será possível que você não aprende as coisas nem morto?
— Mas, João...
— Nem “mais João” nem “menos João”. Esse tipo de atitude tende a criar ilusão na mente das pessoas, que passam a crer numa vida após a morte, num paraíso celeste, em vez de lutar para melhorar sua condição de vida no presente.
— Pô, João, mas peraí: o Paraíso existe!
— E daí? Grande coisa! O Maluf também existe e nem por isso a gente acredita nele. Além do mais, não consigo conceber a idéia de felicidade eterna num lugar onde tem água em abundância e ninguém passa fome.
— Primo, me escuta...
— “Camarada primo”.
— Camarada primo, me... Ué? O que foi isso?

Naquele instante, Jesus ouviu uma voz que cantava: “Looove is a many splendid thing...” com sotaque alemão. Em seguida, do meio dos arbustos, surgiu uma figura gorda, barbuda, grisalha, sem camisa e em ceroulas de bolinha, que segurava uma toalha como parceira e fazia um alegre passo de dança.

— Karl Marx?! — espantou-se Jesus.
— Que-quem? — falou João e deu um passo de lado, tapando a visão do primo, enquanto o sujeito, aflito, mergulhava de volta nos matos.
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Por um segundo, ainda pôde ver sua bunda entre as folhas, enquanto ele engatinhava. Depois, sumiu. Por algum motivo que jamais ficou claro, murmurando: “Das Eisbein! Das Eisbein!” (CONTINUA)

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06 setembro, 2007

NEURÔNIOS


— Barbeiro! Viu o que você fez? Arranhou toda a minha lateral!
— Ah, a culpa foi minha? Você atravessou o cruzamento voando! Tá pensando que é o quê? Um espermatozóide?
— E você? Por acaso não viu o sinal elétrico?
— Olha aí o estrago! Essa sinapse vai me custar uma nota...
— E a mim? Já olhou a fenda sináptica na minha lataria?
— Pior sou eu, que tô com o corpo celular todo doído. Que baita choque!
— Isso que dá usar as vias cerebrais de um matemático laureado com o Nobel. Quando eu morava na massa encefálica de uma modelo, o tráfico era lento, lento.
— Pois é. E eu que passei muito tempo na de um vocalista de banda de rock? A gente podia andar livremente. A população era pequeníssima.
— Aqui se leva uma vida muito agitada. É um tal de passar de um hemisfério a outro o tempo todo! Nunca se está parado.
— Cê sabe que às vezes eu penso em largar essa vida da metrópole e me mudar pro miolo de um publicitário, de um VJ ou, quem sabe, de um editor da Caras?
— Penso a mesma coisa. O ritmo aqui é perverso.
— Culpa do sistema. Muito nervoso.
— Não sou nenhum psicanalista, mas às vezes parece que todo mundo aqui tem complexo de Golgi.
— Isso e... Opa, desculpa. Pisei no seu dendrito.
— Não foi nada. Escuta, de onde é que cê tava vindo com tanta pressa?
— Da medula espinal. Mensagem urgente pra arrepiar os pêlos das costas do nosso Descartes.
— Frio?
— Que nada. Ele sentiu cheiro de pescoço de mulher. Já viu? O indivíduo não pode sentir cheiro de pescoço de mulher que a gente tem que sair desabalado por aí pra neurotransmitir a informação a Deus e todo pêlo. E você? Por que tava vindo no sentido oposto?
— Pois então, essa história de cheiro de pescoço tem as suas conseqüências...
— Não me diga que o cara enfartou?
— Pelo contrário. Eu tava justamente passando mensagem pro pinto dele.
— Ih, pelo visto a noite vai ser longa. Mas, me diz: quer dizer que você é motor?
— Sou.
— Puxa, cê sabe que eu me amarro num neurônio motor? E você é motor dos potentes, ousaria dizer... Pelo físico.
— Que é isso...
— Sério. A gente percebe que você trabalha os músculos.
— Olha, não é por nada não, mas assim que te vi, senti certa vibração. A verdade é que, desde o princípio, você me transmitiu certa energia.
— É triste que a gente tenha se conhecido através desse conector, mas, de qualquer maneira... Será que você não quer dar uma volta depois do expediente?
— Claro, claro. Por que não?
— Ótimo. Quando você tiver livre, é só me dar um sinal.
— Combinado. Agora eu preciso voltar ao batente.
— Que foi? Nosso Pascal arrastou a moça pra cama?
— Arrastou. E pela quantidade de informações enviadas aos membros superiores e inferiores, ele decorou todo o Kama Sutra. Até mais tarde.
— Tchau.

05 setembro, 2007

ESPÍRITO EMPREENDEDOR


— Você não é brasileira. Não tem o mínimo espírito empreendedor, mulher...
— Não e não. Não empresto, Aderaldo! Imagine só, eu investir meu dinheiro nisso. Chep!
— Como?
— Eu disse que não vou desperdiçar meu dinheiro nessa idéia estapafúrdia, porque...
— Não. Esse sonzinho que você fez...
— Sonzinho? Eu não fiz sonzinho nenhum!
— Claro que fez. “Xilop” ou “xilept”, alguma coisa assim.
— Não vem mudando de assunto, Aderaldo. Que mania! Toda vez que a gente tá falando sobre algo sério, você se esquiva. Chep!
— Olha aí!
— O quê?
— O sonzinho, você acabou de fazer: “solep”, “silep”...
— Você ficou doido de vez?
— Ah, você anda por aí fazendo “solepe” e eu é que sou maluco! Entendi...
— Não fiz “solepe” nenhum, Aderaldo. E digamos que tivesse feito? Esse não é o ponto. A questão é que...
— Xulup.
— Ahn?
— Xulup.
— Meu Deus!...
— Viu como essas coisas dispersam?
— Você ficou inteiramente louco, Aderaldo.
— Por que você diz isso, xeleptept?
— Quer parar? Parece que tem dez anos. Chep!
— Chep! Viu? É “chep”. Agora eu saquei direitinho: “chep”. Faz aí de novo.
— Cê tá de brincadeira, né?
— Não, não, faz aí de novo, por favor.
— Vai lamber sabão, Aderaldo!
— Mulher, a gente pode ficar rico com isso!
— Como exatamente a gente vai ficar rico falando “chep”, Aderaldo? Fundando a Ordem dos Cavaleiros que Dizem Chep?
— Você não tá entendendo, mulher, não é todo dia que a pessoa cria uma interjeição. Da chegada dos galegos a Pernambuco até a popularização do “oxente”, quantos anos você imagina que se passaram? Quiçá séculos! E o “bah”?
— Que bar?
— O “bah”! O “bah” do gaúcho!
— Nunca fui a bar de gaúcho nenhum, Aderaldo. Onde é que você tem andado, hein? Que história é essa?
— “Bah”, mulher! A interjeição: “bah”! Quantas gerações não terão sido necessárias pra transformar “barbaridade” numa simples sílaba!
— Má!
— “Má”, não: “bah”!
— Não, é “má” mesmo. Levei poucos segundos pra transformar “maluco” numa interjeição.
— Viu? Você leva jeito pra coisa. O próximo passo é a gente ir à Biblioteca Nacional e fazer o registro. Daí, toda vez que alguém falar “chep”, a gente recebe os direitos autorais.
— Aderaldo, exceto se, por acaso, numa das inúmeras junções aleatórias de letras que formam os refrões das músicas baianas, calhar de sair um “chep”, em que outra oportunidade você acha que alguém vai usar a palavra? Me diga.
— Tudo que a gente precisa é de um pequeno apoio da mídia. Tu não lembra do “imexível” do Magri? Ele ficou milionário com aquilo! Todo mundo querendo ouvir o neologismo de sua própria boca. E Fernando Henrique e o “nhenhenhém”? Ahn, ahn? Já te vejo na USP, em Harvard, em Oxford, mulher, discorrendo sobre tua invenção. Camisetas nos cinco continentes estamparão a palavra. Gilberto Gil vai empregá-la num discurso sobre a interpenetração sanitária dos vodus ultra-estóicos da Eurásia. O Lula vai querer falar também, mas vai acabar dizendo “chechep” ou “chenep”. Bono Vox virá a público defendendo que os africanos pronunciem “chep” sem pagar os direitos autorais. Os ianomâmis...
— Tá vendo aí por que não vou te emprestar dinheiro pra investir nessa idéia de abrir uma sauna em Teresina, Aderaldo? Você viaja demais, você simplesmente não coloca os pés na realidade! Acorda, Aderaldo! Deus seja louvado!
— Você não é brasileira. Não tem o mínimo espírito empreendedor, mulher.

04 setembro, 2007

MEU AMIGO ZÉ OU PORQUE CRER É MELHOR DO QUE PENSAR


Como disse certa vez sobre Sarney: acho injusto afirmar que nossos jornalistas não sabem escrever. Fala isso quem pode se sentar confortavelmente na cadeira para digitar. Ora, o principal mérito de nossos repórteres é, precisamente, redigir com as quatro patas no chão.

Para mim, as características básicas de nossa imprensa são a imparcialidade e a sapiência. Opiniões tão apartidárias quanto as de nossos redatores de notícias talvez só se encontrem entre os sunitas do Iraque ou os xiitas da Gaviões da Fiel. Por outro lado, muitas vezes, diante das críticas dos jornais às inumeráveis baldices ditas por Lula, por exemplo, chego à conclusão de que o presidente é poliglota e, ao término do mandato, poderá arrumar facilmente trabalho como exegeta de Kant ou gramático especializado na extinta língua púnica.

Coisa semelhante me ocorreu domingo passado, ao assistir ao Canal Livre. Afinal, à exceção de minha sogra e do meu cunhado, é difícil imaginar alguém por quem nutra tanta antipatia quanto José Dirceu. No entanto, ao escutar os orneios, digo, as perguntas neutras e argutas dos periodistas a ele, no programa, transformei-me imediatamente em seu amigo íntimo e fã número um de sua honestidade.

— O senhor quer controlar a mídia? — pergunta um dos impassíveis interrogadores.
— Não, regulamentar — corrige o político. E enfatiza: — Regulamentação existe em Portugal, Canadá e em todos os países democráticos do mundo.
— Regulamentar não é controlar? — grita serenamente um segundo interlocutor.
— Não, regulamentar é regulamentar — explica o ex-ministro. — Como em qualquer país democrático do mundo, aliás.
— Controlando? — insiste, algo vermelho, o próximo debatedor.
— Não, regulamentando, como em qualquer país democrático do mundo — responde o sabatinado, limpando um perdigoto da testa. Prossegue a interrogação...
— E a liberdade de imprensa, como é que fica?
— Ora, regulamentada! Por sinal, como em qualquer país democrático do mundo.
— Mas isso é controlar a mídia, ministro!
— Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na França e em todos os demais países democráticos do mundo ou só no Brasil, caso regulamente?
— No Brasil, ministro, no Brasil!
— Ah, no Brasil, único país democrático do mundo onde ainda não existe a regulamentação?
— Então é isso! Sua proposta é de censura, né? O senhor tá fugindo da pergunta, ministro!

Antes que chamassem o entrevistado por um palavrão, desliguei a TV, lembrando que o comportamento da bancada não havia sido o mesmo quando o convidado do programa fora Fernando Henrique. Mas logo me dei conta de que a diferença de tratamento se devia, obviamente, ao fato de a inatacável presidência do ex-mandatário jamais ter motivado escândalos de compra de apoio de aliados no Congresso.

Então, satisfeito com a liberdade de que desfruta a nossa imprensa, meu primeiro impulso foi o de me filiar ao PT. Com tal intuito, entrei na página do partido na internet. Ali, procurando o local exato onde poderia proceder à filiação, acabei por ler uma série de notícias, coladas da Carta Capital ou Caros Amigos, relativas à perfeição absoluta do governo reeleito e à completa inexistência de corrupção entre os atuais gestores do Estado.

Assim, sorri ainda mais, inferindo que o não-engajamento grassa por toda parte. Depois, acendi uma vela para Stálin e outra para McCarthy — cada um a seu modo, santos defensores da mídia independente e da crítica desapaixonada. E rezei pelos editores do Vermelho e da Veja.

Por fim, tomado pela euforia que só as pessoas que apreciam a inteligência e o livre-pensamento possuem, tirei os arreios, as ferraduras, e fui dormir. Contente.

03 setembro, 2007

LIGAÇÃO


(Primeira tentativa)

— Alô? Gostaria de falar com o Alexandre.
— Que Alexandre?
— O Grande, por favor.
— Sinto muito, mas o único Alexandre que tem aqui é o Primeiro, Rei dos Helenos, meu filho. E no momento ele tá muito ocupado brincando com aquele maldito macaco!
— Desculpe, liguei pro século errado...

(Segunda tentativa)

— Alô? Gostaria de falar com o Alexandre.
— Um momento. Alexandreeee! Alexaaandre! Ô Alexandre! Alexandre, menino malvado, pare de brincar com a cabeça desse indiano e tome logo a papinha! Tá pensando que é quem? O dono do mundo? Quando seu pai chegar...
— Ah, é, eu... eu ligo alguns anos mais tarde...

(Terceira tentativa)

— Alô? Gostaria de falar com Alexandre, o Grande, por favor.
— Ele.
— Alexandre? Seguinte: você não me conhece pessoalmente, mas é que eu sou...
— Ih, se for pra vender mapa-múndi...
— Não, não. É que eu tô aqui no século XXI e... Bom, eu sei de algumas coisas que vão acontecer no futuro, então pensei que...
— Tu acha que eu vou acreditar numa história dessa, ô rapá? Tá pensando que eu sou quem? Um simples imperador romano?
— Não, longe de mim, mas... Imperador romano? Peraí, mas Roma nem existe como Império ainda, como é que você...
— Ai, meu saco... Tu tá falando comigo pelo telefone e tá pegando no meu pé por conta de um anacronismozinho à toa, ô alarve? Te liga!
— Bom, é... quer dizer... Justamente! Como é possível que eu esteja falando com você pelo telefone, quando ele nem...
— Olha, meu querido, se o Aristóteles tivesse por aqui, eu até pedia uma mãozinha dele pra te ajudar com esse problema, tá? Mas a gente nunca acha aquele filósofo quando precisa dele. E agora me dê licença que eu tô no celular, ligação entre eras históricas custa muito caro e vou pagar a taxa de deslocamento. Afinal, nesse exato momento tô atravessando o Helesponto. Tá pensando o quê, que vida de desbravador é fácil? Tenho toda uma Ásia Menor pra conquistar, bebê. Isso aqui é um nó górdio! Se você pelo menos tivesse ligando da Idade Média ou do Iluminismo...
— Mas, mas...
— Passar bem. [desliga; sinal de ocupado]
[batendo o telefone] Que babaca! Ainda nem derrotou os persas e já tá todo se achando...