01 agosto, 2007

SOBRE MENINOS E JUMENTOS


De maneira simplista, podemos dizer que o platonismo valoriza a alma em detrimento do corpo. Donde se podem deduzir duas coisas: primeiro, que o cristianismo deve muito ao pensamento grego e, segundo, que Platão não deve ter conhecido a Juliana Paes.

Também minha família foi fortemente influenciada pelos helenos. Lembro, por exemplo, com carinho, das horas que o meu progenitor passou diante de um automóvel, tentando fazer com que eu entendesse dialeticamente a sumida diferença entre o carburador e o radiador. E, com um pouco menos de carinho, dos dias que passei trancado no quarto por ter, inadvertidamente, enchido de óleo este e de água aquele.

Procurou o homem de todas as maneiras me fazer decorar o nome de diferentes ferramentas e ensinar seu uso específico, e não teria obtido fracasso mais apodíctico se seu objetivo fosse lecionar literatura a escritores pós-modernos.

— Qual é essa?
— Uhm...
— Cha... cha...
— Chave?
— Chave! Isso! Chave, o quê? Chave...
— Chave... de braço!
— Chave inglesa! Chave inglesa! Será que você não aprende?
— Ué, como é que eu ia saber? Pelo sotaque?
— E esta? Não é possível que você não lembre. É o nome de um bicho.
— É...
— Sim?
— Gato!
— Não! Burro! Burro!
— Burro? Essa o senhor não me ensinou.
— Burro é você! Isso aqui é um macaco. Some daqui!

Como adepto da escola espartana, meu pai até hoje deve se arrepender de não ter seguido comigo o uso dos lacedemônios quando do nascimento de uma criança com problemas mentais — o que era evidentemente o meu caso.

Já minha mãe pertencia à escola ateniense, da linhagem de Diógenes, e ficava a seu encargo o ensino da filosofia moral. Moral, explico aos mais jovens, foi algo que existiu certa vez no Brasil, fez algum sucesso momentâneo e depois caiu em desuso.

Digo a vocês, cidadãos, que o aio Egas Moniz não teve mais firmeza do que aquela santa senhora. Gastou todos os recursos da retórica, desde Protágoras até Cola di Rienzo, na tentativa de fazer com que eu conseguisse distinguir os conceitos de bem e mal. Esforço que resultou debalde, pois a julgar por meu comportamento, alguém seria capaz de dizer que meu preceptor havia sido Nietzsche.

— Marconi Leal, que dinheiro é esse, Marconi Leal?
— Sabe que eu também não sei, mãe? Mudam tanto! Mas eu acho que é cruzeiro.
— Você entendeu muito bem! O que é que significa esse dinheiro?
— Ah, o dinheiro, a senhora sabe, é um produto cultural usado pra troca de...
— Você andou apostando de novo?
— Não.
— Andou, sim.
— Não andei.
— Andou.
— Não andei.
— Andou.
— Juro que não andei! Quer apostar?

Sempre recordo com nostalgia e sofrimento o falhanço educacional dos meus genitores. Desde domingo, no entanto, com mais sofrimento do que nostalgia, pois cometi a tolice de apostar com minha mulher que meu time(?), o Sport, ganharia do dela, o Internacional de Porto Alegre, pelo Brasileirão. E apesar de ter errado por meros cinco gols — o jogo foi 5x1 para o Inter —, a verdade é que perdi a aposta e esta semana fiquei encarregado de todos os serviços domésticos.

Assim, lamento terrivelmente a queda que tive diante da tentação espiritual. Mas muito mais não ter aprendido com meu pai a realizar tarefas práticas. Porque perder a alma e passar a eternidade no inferno sofrendo os castigos mais cruéis é coisa que posso suportar facilmente. Difícil mesmo seria enfrentar minha mulher brava.

Diante do que, pergunto a vocês: se acaso um desastrado, ao varrer estabanadamente a casa, tivesse conseguido derrubar e espatifar no chão o vaso de porcelana predileto de sua amada, conseguiria ele de alguma maneira colá-lo? Como?

Respostas, na caixa de comentário, o quanto antes, por favor.

10 comentários:

edu disse...

1) Corre pra Consolação ou coisa parecida pra tentar comprar um vaso igual!

2) Arrume um cachorro filhote bonitinho e fofinho e diga que foi ele!

3) ... um gato ...

4) ... um furão ...

Jorge Sobesta disse...

James, seu estabanadão!

Use clara de ovo. É melhor que "superbonde".


Grande abraço.

Jens disse...

1- Cola Tenaz. E reze pra ela não olhar de perto.
2- Negue, negue e negue. Sempre.
3- Bote a culpa nos fantasmas, no vento, na PQP.
4- Alegue que esteja tomado pelo "demonho" (olha a turma do DEM aí gente!) no momento do trágico acontecimento.
5- Fuja de casa e espere o furacão passar.
6- Assim que ela chegar em casa peça perdão de joelhos, aos prantos.
***
Quem mandou apostar contra o glorioso Colorado dos Pampas? Bem feito!

Jens disse...

4. Estava, pô. Estava tomado pelo "demonho".
(Que saco, mais um erro do revisor. A criadagem não toma jeito. Cansei!)

Costajr disse...

Pior mesmo foi a derrota do glorioso Sport... No seu caso, compre outro vaso, dessa vez de cristal, ela esquecerá o de porcelana, aposto.

Sandra disse...

hhhuum, dê um diamante no lugar e fale que quebrou quando tentou esconder o presente...

Olegária quer falar disse...

De intrometida...

Vim lhe convidar a conhecer-me.
Vivo sozinha em Copacabana, no Lido, sou rabugenta, ranzinza e tenho um gato sem nome.
Mas já fui bem diferente, ah se fui... e agora quero contar!

O Taura dos Pampas disse...

Ô Marconi:
pelo menos uma vez na vida adote uma postura de homem. Informe a sua senhora, com voz pausada e firme (procure engrossar do tom, para passar mais credibilidade), que foi você que quebrou a porra do vaso. Com modos educados e mantendo a tranquilidade revele sua indisposição para aceitar qualquer crítica por parte dela. Diminua a importância do objeto quebrado ("ses ainda fosse a bomboneira de cristal da Bohemia, lapidada à mão, que você herdou da sua avó..." Mantenha a referida bomboneira ao teu alcance, para que ela perceba que, se ficar nervoso, podes derrubar a preciosa herança com um gesto estabanado.
Isto posto, acomode-se no sofá, repouse os pés na mesinha de centro, rompa o lacre de uma skol e convide-a para assistir um filme em DVD - O Massacre da Serra Elétrica, (O início) ou Serpentes à Bordo.
Se assim procederes, meu filho, poderá proclamar ao mundo com orgulho: enfim sou um homem!
Coragem, homem!
Um abraço.

Anita disse...

releia os teus posts dos últimos meses; faz uma lista de vocábulos raros; depois vai ao dicionário e procura as suas definições; memorize-as todas (mesmo se para cada palavra houver mais de um significado); depois quando a mulher perguntar pelo vaso, recite tudo bem devagarinho. Ao fim, ela vai compreender...

s leo disse...

Cola plástica, qualquer uma. O vaso é branco? Batata. Não, batata não cola nada, eu quis dizer... deixa prálá.