NO CONSULTÓRIO MÉDICO
MÉDICO: Então, em que posso ajudá-los?
MÉRCIA: É o Gregório, doutor. Ele só fala em decassílabos.
MÉDICO: Decassílabos?
GREGÓRIO: Mentira, doutor, eu não falo assim.
MÉRCIA: Viu, doutor? Decassílabo E o que é pior, além de decassílabos, ele fala em dísticos.
MÉDICO: Sei, dísticos. Rima consoante?
MÉRCIA: Sim. Consoante, na maioria das vezes.
GREGÓRIO: Não creia em argumento tão chinfrim.
MÉRCIA: Olha aí, “assim”, “chinfrim”. Eu não agüento mais, doutor.
MÉDICO: Desde quando isso vem acontecendo, seu Gregório?
MÉRCIA: Há um ano, mais ou menos, doutor. Desde que ele resolveu ler “Os Lusíadas”, nunca mais voltou a falar em prosa.
GREGÓRIO: Que seria o normal, doutor, me diga? A fala diária não nos fatiga?
MÉRCIA: E ainda mais essa. Os versos do Gregório são cheios de questionamentos existenciais, doutor.
MÉDICO: Olha, ainda é cedo pra dizer, vou ter que pedir alguns exames de métrica fisiológica e semântica orgânica, mas tudo indica que o seu marido está sofrendo de SAP.
MÉRCIA: SAP? Mas se ele nem assiste televisão!
MÉDICO: Não, SAP: Síndrome de Alexander Pope. Não quero enganar a senhora: é uma doença rara.
MÉRCIA: E tem cura, doutor?
MÉDICO: Há uma chance. Segundo a literatura médica, a maioria dos pacientes, após algumas semanas de tratamento, ao entrar em contato com a poesia concretista ou alguma outra corrente poética do século vinte desaprende a fazer versos. Vou indicar a bibliografia completa dos irmãos Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, letras de MPB, sobretudo poemas contemporâneos.
MÉRCIA: Só isso?
MÉDICO: Não. Pop music também ajuda. Faça-o escutar alguma cantora americana de seios grandes e Jorge Vercilo, por exemplo.
MÉRCIA: E o senhor acha que assim ele vai voltar ao normal, doutor?
MÉDICO: Vamos torcer. A doença pode ser hereditária. O senhor tem algum repentista na família, seu Gregório?
GREGÓRIO: Família pra mim é a nossa, humana. Não aquela que o sangue só irmana.
MÉRCIA: Tá vendo? Vive assim, rebelde, não concorda com nada que a gente diz! (baixando o tom de voz) O avô dele era poeta. E parnasiano ainda por cima! Na família dele o pessoal gosta de...
MÉDICO: Como? Não ouvi.
MÉRCIA: (sussurando) Gosta de arte, doutor. Arte erudita, entende? Pintura figurativa, música clássica, poesia épica, essas coisas. É triste, doutor, como é triste! Ele tem até um tio que escreveu um... (suspira) um romance realista, de enredo linear, prosa tradicional, doutor.
MÉDICO: Se acalme, dona Mércia, por favor. Tá aqui um lenço, tenha fé. A senhora siga as indicações da receita e volte dentro de um mês. Vamos torcer para que tudo dê certo.
MÉRCIA: Obrigada, doutor, obrigada.
(Um mês depois...)
MÉDICO: E então, seu Gregório, o senhor parece bem-disposto. Está se sentindo melhor?
GREGÓRIO: Tenho me sentido bem.
MÉDICO: Que bom!
GREGÓRIO: Tudo graças ao doutor.
MÉDICO: Que é isso! Fico feliz que a medicação tenha surtido efeito. Mas a senhora não parece muito contente, dona Mércia.
MÉRCIA: O Gregório piorou, doutor.
MÉDICO: Piorou? Como assim? Ele não tá mais falando em decassílabos nem dísticos! Que me lembre, suas duas últimas frases foram: “Tenho me sentido bem” e “Tudo graças ao senhor”.
MÉRCIA: É que há uma semana ele só fala em redondilha...
GREGÓRIO: Não é preciso ir mais além. Eis que a doença terminou. Falo bem melhor agora. Deus proteja esta senhora. Que pra cá me rebocou.
MÉRCIA: É o Gregório, doutor. Ele só fala em decassílabos.
MÉDICO: Decassílabos?
GREGÓRIO: Mentira, doutor, eu não falo assim.
MÉRCIA: Viu, doutor? Decassílabo E o que é pior, além de decassílabos, ele fala em dísticos.
MÉDICO: Sei, dísticos. Rima consoante?
MÉRCIA: Sim. Consoante, na maioria das vezes.
GREGÓRIO: Não creia em argumento tão chinfrim.
MÉRCIA: Olha aí, “assim”, “chinfrim”. Eu não agüento mais, doutor.
MÉDICO: Desde quando isso vem acontecendo, seu Gregório?
MÉRCIA: Há um ano, mais ou menos, doutor. Desde que ele resolveu ler “Os Lusíadas”, nunca mais voltou a falar em prosa.
GREGÓRIO: Que seria o normal, doutor, me diga? A fala diária não nos fatiga?
MÉRCIA: E ainda mais essa. Os versos do Gregório são cheios de questionamentos existenciais, doutor.
MÉDICO: Olha, ainda é cedo pra dizer, vou ter que pedir alguns exames de métrica fisiológica e semântica orgânica, mas tudo indica que o seu marido está sofrendo de SAP.
MÉRCIA: SAP? Mas se ele nem assiste televisão!
MÉDICO: Não, SAP: Síndrome de Alexander Pope. Não quero enganar a senhora: é uma doença rara.
MÉRCIA: E tem cura, doutor?
MÉDICO: Há uma chance. Segundo a literatura médica, a maioria dos pacientes, após algumas semanas de tratamento, ao entrar em contato com a poesia concretista ou alguma outra corrente poética do século vinte desaprende a fazer versos. Vou indicar a bibliografia completa dos irmãos Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, letras de MPB, sobretudo poemas contemporâneos.
MÉRCIA: Só isso?
MÉDICO: Não. Pop music também ajuda. Faça-o escutar alguma cantora americana de seios grandes e Jorge Vercilo, por exemplo.
MÉRCIA: E o senhor acha que assim ele vai voltar ao normal, doutor?
MÉDICO: Vamos torcer. A doença pode ser hereditária. O senhor tem algum repentista na família, seu Gregório?
GREGÓRIO: Família pra mim é a nossa, humana. Não aquela que o sangue só irmana.
MÉRCIA: Tá vendo? Vive assim, rebelde, não concorda com nada que a gente diz! (baixando o tom de voz) O avô dele era poeta. E parnasiano ainda por cima! Na família dele o pessoal gosta de...
MÉDICO: Como? Não ouvi.
MÉRCIA: (sussurando) Gosta de arte, doutor. Arte erudita, entende? Pintura figurativa, música clássica, poesia épica, essas coisas. É triste, doutor, como é triste! Ele tem até um tio que escreveu um... (suspira) um romance realista, de enredo linear, prosa tradicional, doutor.
MÉDICO: Se acalme, dona Mércia, por favor. Tá aqui um lenço, tenha fé. A senhora siga as indicações da receita e volte dentro de um mês. Vamos torcer para que tudo dê certo.
MÉRCIA: Obrigada, doutor, obrigada.
(Um mês depois...)
MÉDICO: E então, seu Gregório, o senhor parece bem-disposto. Está se sentindo melhor?
GREGÓRIO: Tenho me sentido bem.
MÉDICO: Que bom!
GREGÓRIO: Tudo graças ao doutor.
MÉDICO: Que é isso! Fico feliz que a medicação tenha surtido efeito. Mas a senhora não parece muito contente, dona Mércia.
MÉRCIA: O Gregório piorou, doutor.
MÉDICO: Piorou? Como assim? Ele não tá mais falando em decassílabos nem dísticos! Que me lembre, suas duas últimas frases foram: “Tenho me sentido bem” e “Tudo graças ao senhor”.
MÉRCIA: É que há uma semana ele só fala em redondilha...
GREGÓRIO: Não é preciso ir mais além. Eis que a doença terminou. Falo bem melhor agora. Deus proteja esta senhora. Que pra cá me rebocou.

20 comentários:
Muito bom !!!! Espero que essa doença não seja contagiosa....hehehe
abs
Ave, que prosa gloriosa. E mais direi: maravilhosa.
Hehe... muito boa!
Marconi, li sobre os incidentes na Palestina e como de hábito, morri de rir. No entanto, eu gostaria de fazer um elogio à sua grande cultura. Não é para qualquer um escrever um post desse. Prá ser sincera, eu nem sei bem algumas coisas que você citou.Beijocas
mas massa. muito bom. e parabéns pelo sopa de tamanco.
Mais seios grandes? E ainda por cima canoros? Que apetite!
Há dia em que só voce me faz sorrir..
hahahaha. Pensei que ia sair um épico da fala do Gregório, mas ele mudou para as redondilhas. Isso indica o quê?
Beijos,
A.
Olá Marconi,
concordo com a Yvone, sobre a sua cultura, também não entendo umas coisas não, e a Anita já tinha sugerido um glossário, concordo, e as redondilhas, indicam o que mesmo?
Tô aqui rachando de tanto rir!!
Abração
Alexander Pope, aquele poeta inglês que disse que o público é um idiota? Hummm...
Se exibindo de novo, hein Marconi?
ainda bem que Gregório não teve contato com a obra do Arnaldo Antunes!!!
Já pensou quando ele começar a falar como certos escritores de vanguarda?
adorei a parte que fala dos concretistas, sempre morro de rir, mas convenhamos que parnasianismo ninguem merece.
tah engraçado
Mui Tobom
Muito Bom
M ui Tobom ui
Tobom
Mui Tobom Uito bom
Muitobo m !
jÓIA
JÓ
IA
JO
IAIA
AIAIA
JOI
A
Curtiu, Seu Moço? Bem mas o que eu queria dizer é que seu texto é JÓIA!
Ó, aparece domingo lá no refúgio. Tem...SURPRESA, SURPRESA!
Beijos.
MARCONI, Jorge Vercílio é o Ó, cara! "Monalisa...deusa com ar de menina", kakakaka...
adorei!
do jeito que a fama dos blogs anda alcançando todos os lugares hoje em dia, não é de supreender que esse texto apareça em alguma prova de vestibular...rs. Já pensou, Sr. Marconi Leal como o novo carrasco dos estudantes que só lêem resumos?
Oi, guri!
Quanta saudades estava de ti.
Estou fazendo o que te prometi.
Se eu voltasse tu serias
um dos primeiros a saber
que mesmo sem ter o dom
não desisti de escrever.
Então quando quiseres
visitar esta guria,
não te acanhes, é bem fácil
o rumo da moradia.
Basta digitar o endereço abaixo
e chegar lá no ranchito
que é pobre, pequenito,
mas sempre tem para o amigão
um abraço forte e bom chimarrão.
****
Tu continuas fantástico!
Abreijo
http://neurotikapontocom.blogspot.com/
Fan-fantástico! Ai que legal! Tri-legal, na verdade! Só dá vontade de elogiar.
Vou me lembrar de te encaminhar um texto que escrevi há alguns anos, entitulado "Uma Aldeia Chamada Linguagem". Acho que vais gostar.
Rafael Reinehr
Essa foi de mais, ainda estou conhecendo o blog, mas, não pude deixar de comentar.
E aproveitando pra quem não sabe, redondilha é uma quadra de versos de sete sílabas, na qual rima o primeiro com o quarto e o segundo com o terceiro, há também versos de cinco ou de sete sílabas, respectivamente redondilha menor e redondilha maior.
Ps:. Hoje em dia a Redondilha maior também se pode chamar apenas de Redondilha.
Tanks...
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