03 agosto, 2007

MUSA CONTEMPORÂNEA


— Muito bonito! Eu aqui com um pé quebrado e a senhora me chega uma hora dessa!
— Você queria o quê? Essa cidade é um inferno! O trânsito tá um horror! E eu tenho que pegar dois ônibus pra chegar até aqui! Você tá com um pé quebrado?
— Tô. Olha aqui: “Em versos últimos te desdiz o canto/Que de meu largo peito brando despeço/Como flores de dialipetalanto”.
— Putz! Terceto dantesco de novo?
— É. Mas não consigo fechar a última estrofe. E você por aí, no meio do mundo!
— Já disse que moro na Zona Leste! Agora, vem cá, por que é que tu não adota o verso livre de uma vez, hein? Seria tão mais simples!
— Não é pra escrever versos livres que eu te pago tão bem!
— Bem? Ha, essa foi boa! Você por acaso sabe quanto custa uma coroa de rosas? E uma túnica como essa? Pra afinar minha lira, você acha que eu pago quanto? E nem tíquete-refeição eu recebo!
— Ah, é? E quanto é que Homero te pagou pra inspirar a “Odisséia”, hein? Ou a “Ilíada”?
— Quem inspirava a poesia épica era Calíope, ignorante. E aquele velho cego era um muquirana, não deve ter pago nada. Coitada, acabou morrendo à míngua.
— Ué, ela não era imortal?
— Era. Até o século XIX. Mas quem é que pode com o pós-modernismo? O pós-modernismo é de matar qualquer um. Até ela.
— Mas você tá aí, firme e forte.
— Eu me viro como posso. Trabalho doze horas por dia, pra seu governo. Tenho mais de trinta clientes, entre eles um sujeito que escreve crônicas pro Fantástico. Ultimamente até pra letrista de rock e da moderna MPB eu tenho trabalhado!
— Não acredito! Não me diga que você tá por trás de alguma música da Zélia Duncan!
— Não, não. Não trabalho mais com mulher desde a época da Safo. Mas tenho inspirado uns...
— Quê? Não ouvi.
— Eu tenho inspirado uns...
— Fala mais alto.
Raps! Uns raps, tá legal? É isso aí. Até pra rapper eu tô trabalhando! Isso pra não falar num bico que tô fazendo pra um escritor de auto-ajuda, aí. E você vem dizer que eu tô firme e forte... Francamente!
— Tudo bem, não chora. Desculpa, eu exagerei. Não vou mais fazer isso.
— E vai adotar o verso livre?
— Não. Aí já é querer demais.
— Branco?
— Nããão!
— Olha que no começo o Walt Whitman também tinha essa mesma resistência e, no entanto, olha o sucesso que fez. Isso pra não falar no Rimbaud, né? Você acredita que ele ia escrever “Une Saison en Enfer” todo em alexandrinos? Eu que o demovi da idéia!
— Você fica se fazendo de coitadinha, mas só pensa em dinheiro, em fazer o mais fácil, o lucrativo. E ainda te chamam de “amável”! Às vezes nem vem, manda a empregada!
— Empregada, não, hein? Colaboradora. Gestão moderna. Terceirização. Tenho atualmente cinco colaboradoras. E a idéia é ampliar o negócio. Tô economizando pra comprar minha casa própria. Ou você acha que com essa onda de seqüestro ainda dá pra dormir em cavernas? Ih, meu celular! Vou ter que ir. Hoje eu dou plantão num encontro de repentistas.
— Ei, volta aqui! Tá louca? E o meu verso?
— Droga! Esqueci. Vamo ver...
— O que é isso? Você tá usando um laptop?!
— E internet sem fio. É de uma ajuda que você não imagina. Uhm... uhm... ahn... Aqui! “Como da vida, seu tão amargo manto.” Que tal?
— “Em versos últimos te desdiz o canto/Que de meu largo peito brando despeço/Como da vida, seu tão amargo manto.” Um, dois, três... onze sílabas. Perfeito. E ficou bonito! Ganhou outro sentido.
— Viu? Ótimo, agora me passa quarentinha.
— Quarenta reais por um verso?
— Você precisava ver quanto o Proust pagou pela idéia da madeleine!
— Mercantilista! Por isso que a poesia contemporânea tá desse jeito, uma porcaria. Toma!
— Brigadinho. E aproveita, porque no próximo mês vence nosso contrato. Vou reajustar o preço. Fui!
.
(Esta crônica vai dedicada a Paulo Polzonoff Jr., Bruno Garschagen e ao último verme que comeu o cadáver de Duchamp.)

14 comentários:

César xrmr disse...

(Aplausos.)

Tá inspirado, hein?!

Moacy Cirne disse...

Pô, cara, seus textos metalingüísticos estão cada vez mais mêtalingüísticos. No bom duplo sentido, naturalmente.

Vinícius disse...

Está cada vez melhor

Vinícius disse...

Está cada vez melhor

Anita disse...

Marconi,
o pós-modernismo é o "fim das grandes narrativas," dizia o Lyotard. Então, diminui os posts para se adaptar.

Brincadeirinha! Adoro ler tudo por aqui. Ah, mas isso você já sabe. Estou me repetindo...

edu disse...

É de um texto destes que eu preciso quando ficar sem assunto! Beijo e bom fim-de-semana, garoto!

Taja disse...

Oi amigoooo...eu agora tô me achando, porque também tenho blog, mas longe de mim querer concorrer contigo!Adorei o texto! bjs

sandra camurça (a pirada) disse...

Beleza, beleza, beleza...

Um beijo
da maluca beleza.

Taja disse...

Vou começar a moderar os comentários do meu blog!

Jens disse...

Não se fazem mais musas como antigamente.
***
Agora responde pra mim, baixinho aqui no pé do ouvido, o que é que você anda bebendo? Também quero!
***
À exceção de alguns penduricalhos, a labuta acabou. Segunda-feira retorno aos negócios. Um abraço e até lá.
***
Controle os excessos da luxúria e tenha um bom findi.

Vais disse...

Olá Marconi,
dada a sobriedade da primeira rodada naquele ambiente propício às análises, entrando na terceira, chegou-se à conclusão do acometimento de uma injustiça contra a sua pessoa,é uma calúnia dizer de você, um machista.
Então a vingança é ser incorrigível para todo o sempre.

Marconi, é uma brincadeira, mas penso que lá no fundo cê gosta de uma sacanagem, rs

Abraço

David disse...

Ótimo, como sempre. E me diz onde acho a porra do Tumbu!

luma disse...

Marconi, responde pra mim também:

- O que você anda bebendo?? (rs*)

Também não sei o que acontece ao abrir o meu blogue.

Li lá no Paulo, que o seu blogue é um dos poucos que ele lê. Valeu a dedicatória!!

Beijus, Luma

Mário Marinato disse...

Marconi, que tal responder à pergunta que fiz lá no Sarcófago, hein? ;o)