19 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (5)


O efeito dos adesivos e dos chicletes acabou dentro de algumas horas, o que me fez cair numa depressão tão profunda quanto a de Raskolnikov. A ponto de ter baixado a coleção completa de Lupicínio Rodrigues pela internet para escutar, acompanhado do excelente vinho Sangue de Boi, safra 2005.

Por sorte, minha mulher tinha trazido da farmácia um estoque suficiente para me abastecer em caso de uma guerra nuclear, de maneira que logo me muni de mais alguns pacotes, chegando a compreender pela primeira vez, em sua inteireza, o que Rimbaud buscava para o desregramento de todos os sentidos: uma boa dose de nicotina.

Assim, durante cinco dias, com muita luta, não toquei absolutamente em nenhum cigarro. E me livrei do vício do fumo de maneira exemplar, substituindo-o por algo muito mais saudável: o vício de chicletes e adesivos de nicotina.

Quando sentia uma falta muito grande de fumaça, seguia recomendações médicas e descia de manhã para dar uma boa caminhada embaixo do prédio. Sempre aproveitando o momento em que um morador ligava o carro para me abaixar e dar uma boa cafungada no escapamento do automóvel. E, claro, desenvolvi o bom hábito de cheirar isqueiros ou, em momentos de maior tensão, beber o seu fluido.

Espírito empreendedor e inventivo, tentei ainda alguns substitutos ao fino que satisfaz, desenvolvendo um cigarro artesanal a partir da rúcula enrolada em tufos de alface ou do palmito recheado com couve. Projeto que não foi adiante devido, única e exclusivamente, à falta de incentivo do governo, da estreita visão do empresariado nacional e das queimaduras de segundo grau que tive nos dedos.

A partir do sexto dia, já percebia que minha saúde estava cem por cento melhor. Meus dentes pareciam mais brancos, meu hálito, ótimo, e digo mesmo que me sentia com um humor de sambista. Mais precisamente, do Jamelão.

Abro aqui um parêntesis para dizer a vocês que o preconceito é algo terrível. Imaginem que, nesse tempo, meus próprios amigos e familiares se afastaram de mim. Só porque, quando falavam comigo a respeito de qualquer coisa, eu sempre respondia a eles com uma leve tentativa de lhes arrancar o nariz a dentadas.

Sim, estava um pouco irritadiço e com os nervos descontrolados, mas nada muito grave. Afinal, convenhamos, quem é que nunca na vida tentou atirar a bicicleta ergométrica pela janela? Ou nunca chorou copiosamente ao assistir a um episódio especialmente emocionante de Chaves?

O certo é que, lá pelo décimo dia, já tinha gasto o dinheiro do mês inteiro com adesivos e chicletes, que já não faziam mais efeito. E me divertia com novos passatempos, que me distraíam do antigo hábito de fumar: meter a cabeça na parede, esmurrar portas e janelas, rasgar fronhas de travesseiros, fazer xixi no teto do banheiro etc.

Até que uma bela tarde, após ter passado o dia inteiro me dedicando a jogar futebol na sala, usando um balde de alumínio como bola e, dessa maneira, quebrado inadvertidamente um dos vasos de planta que formavam a baliza —, minha mulher se ajoelhou diante de mim, chorosa, e me pediu pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da nossa vida em comum que eu voltasse a fumar.

Como sou um homem de princípios, mas muito sensível à instituição do casamento e à fé, saí-me com uma decisão que foi um meio-termo. A partir de então, passei a fumar apenas quando bebo.

Assim, tudo se normalizou. Tornei a sorrir, meu organismo voltou a funcionar normalmente. E a boa notícia é que, já a partir da próxima semana, começarei meu tratamento contra o alcoolismo.

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