17 agosto, 2007

A COVA


— Que é que tu tá olhando pra mim assim?
— Eu? Nada!
— Como nada? Há duas horas tu tá aí, olhando pra alguma coisa no meu rosto, nem me deixa ler o jornal direito! Que foi que houve?
— Não, não, é só que...
— O quê?
— Bom, eu nunca tinha reparado nessa... esse... Você sempre teve essa covinha no queixo?
— Não, fiz ontem. Cavei com uma chave de fenda.
— Sério?
— Claro que não, né? Sempre tive uma cova no queixo! Tá maluca?
— Tem certeza?
— Olha, pra falar a verdade, eu tô meio em dúvida. Afinal, são só cinqüenta anos que eu me olho diariamente no espelho, de maneira que posso estar me confundindo um pouco.
— Não, tudo bem. Eu me lembro que você tinha uma cova. Mas essa daí é a sua mesmo?
— Peraí... Ah! Meu Deus, como eu sou idiota!
— Que foi?
— Agora é que eu me lembrei!
— Fala! Que foi?
— É que ontem o vizinho tava precisando de um umbigo sobressalente e, pra ser gentil, eu acabei emprestando o meu. Em troca, ele me deixou a cova de queixo dele. Foi isso. Tá explicado.
— Eu tô falando sério. Mesmo. Não me lembro dessa cova no teu queixo. Pelo menos, não assim.
— É, não sei. Talvez seja uma cova perdida. Ou órfã. Outro dia até vi uma campanha tocante na TV sobre a adoção de covas de queixo. Cê sabe que a maioria das pessoas só aceita adotar uma cova cônica ou cúbica, sem estrias, e deixam as covas irregulares e enrugadas para trás? Um absurdo!
— Pode ironizar à vontade. Mas o certo é que eu... Posso tocar?
— Com cuidado, faz favor. Elas às vezes ficam agressivas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de cinco por cento das internações por perda de dedo são motivadas pelas covas de queixo assassinas.
— Estranho... Ela era mesmo exatamente assim?
— Não, não. Como toda cova de queixo, ela iniciou a carreira como um simples poro. Com o tempo, ascendeu a cravo e, subindo na hierarquia dos orifícios, após árduo trabalho, chegou a cova de bochecha e, finalmente, a cova de queixo. Mas o sonho dela é mesmo chegar a ser um c...
— Epa, olha os modos! Não se pode mais manter uma conversa adulta nessa casa? Olha, podia jurar que mês passado isso... essa... esse... a cova não tava aí. Ela sempre se localizou nesse exato ponto?
— Claro que não. Você nunca ouviu falar das correntes migratórias das covas de queixo? No inverno elas retornam às coxas, onde nasceram, para fugir do frio. Vem cá, por que é que tu tá fazendo essa cara de nojo, hein?
— Eu? Cara? Não, nada... Nojo? Uhm-uhm. (após alguns minutos em silêncio) Olha, Cova, digo, olha, Augusto, eu andei pensando e... acho que a gente precisa dar um tempo no casamento.
(baixa o jornal, impaciente) Jesus Cristo! Tudo isso por conta de uma cova, Joana?
— Hoje uma cova, amanhã uma amante. Não dá. Não posso mais confiar em você.

8 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

O que aconteceria se fosse uma tatuagem? (Ou, quem não tem desculpa, inventa.)

Moacy Cirne disse...

O romance da cova saltitante ou O louco do jardim. Taí um bom título para um romance de cordel.

Blogue da Magui disse...

Quando a velhice vai chegamos é possível ver miragem...Por isso a visão diminui.

Dael disse...

Mulher aCOVArdada. Mal, não resisti.

Gustavo disse...

bom, bom jeito de acabar um casamento, ao menos, criativo!

DO disse...

Otimo fds a vc,MARCONI


Abração!

Ane Brasil disse...

kuaaaaaaaaaaaaaaaa! Valeu o alerta, meu querido, essa noite vou prestar mais atenção na carinha do nego véio... qualquer coisa diferente...
Sorte e saúde pra todos!

Camila disse...

Oi Marconi,
Muito tempo se passou, vc mudou de casa, mas não me esqueci de você! rsrss
Adorei me divertir de novo com suas histórias...
Devo voltar, eventualmente!
Abraços
Ca