08 agosto, 2007

BEM-SUCEDIDA VISITA A UM CASAL DE AMIGOS VIRTUAIS (2)


Sendo um sujeito calmeirão e até mesmo búdico, não seria o encontro com pessoas que não conhecíamos de perto que me deixaria afetado. Estava absolutamente tranqüilo e, como qualquer pessoa normal, durante o percurso de táxi comia os cadarços dos sapatos para aliviar um pouco a tensão.

— Tem certeza que tu tá bem? Não quer desistir? A gente inventa uma desculpa — disse minha consorte tão-logo entramos no elevador, ao perceber que a minha catadura faria a alegria de um pintor expressionista.
— Desistir? Mulher, sou bravo, sou forte, sou filho do Norte.
— Uhm-hum. E certamente é uma manifestação da coragem tupi o sujeito enfiar todos os dedos da mão na boca pra chupar, né?
— Hhmtá enfmmhando ahmoca? Digo, quem tá enfiando a mão na boca? Tô coçando a garganta, só isso. Queria que eu coçasse a garganta como? Por fora? É cada uma!
— Sei. E as tuas pernas tremendo são sem dúvida uma maneira de coçar os joelhos através do atrito.
— Será que você não percebe que isso é do movimento do elevador?
— Ah, havia me esquecido! Turbulência, né?
— Não discuto com quem não tem conhecimentos apropriados de Física...
— Que injustiça você dizer isso. Pois se eu casei com o próprio princípio da inércia! Olha aí, chegamos.

Quando a porta se abriu, surgiu à minha frente um fenômeno que talvez a parapsicologia ou um mitólogo expliquem, mas que levei algum tempo para compreender: era um paranaense mais baixo do que eu. Naquele instante, redimi várias gerações de nordestinos.

— Oi, tudo bom? — falou meu amigo, gentilmente.
— Tomates sobre tijolos fúlgidos — respondi, no mesmo tom.
— Ahn?
— Boa noite — tentou ajudar minha mulher.
— Oi! Você é a...
— Ela? — interrompi. — Desculpa a falta de educação. Ela é a... obviamente a... a... Quem é você mesmo?
— Quanto suor! Ele tá sentindo alguma coisa?
— Por enquanto, não. Mas espera só até a gente chegar em casa...

Entramos e nos sentamos no sofá. Meu amigo apresentou sua bela esposa. Lembro de que o vinho foi servido. Lembro de ter tomado um gole. Se não me engano, cheguei mesmo a tomar outro gole. Quanto ao terceiro não estou bem certo, pois daí em diante — maldita arquitetura moderna — alguém pisou acidentalmente no slow motion da sala e tudo ficou lento como o raciocínio da Angélica.

Recordo vagamente do meu amigo entrando e saindo da cozinha que, ao que tudo indicava, estava pegando fogo, da minha amiga algo espantada enchendo o meu copo de cerveja que, segundo os santos preceitos de Esculápio, eu entornava de mistura com o vinho e, sobretudo, da minha mulher me dando ligeiros cutucões e menos discretos beliscões sempre que eu abria a boca.

Pouco depois, talvez porque o reverse angle do cômodo foi acionado, tudo começou a girar. A última coisa de que me lembro foi de ter virado para minha mulher para dizer, altivo: “Aha! Você não entende tanto de Física? Pois explique essa, agora!”

O que teria certamente falado, me vingando a contento de suas tiradas engraçadinhas, caso minha língua não houvesse sido acometida por uma repentina acinesia que me deixava relativamente parecido com o Nerso da Capitinga. Isso, quanto ao aspecto externo, posto que internamente sentia-me mais como um intelectual da USP: era como se não tivesse cérebro.
..
(CONTINUA AMANHÃ)

10 comentários:

Tiago Pereira disse...

excelente, como sempre!
Mas poderia explicar este castelo da cinderela na gravura!? hehe

gustavo chaves disse...

sim, sim, muito bom

Anita disse...

os ditos intelectuais acadêmicos são presidiários postos numa sala de aula que discorrem sobre a liberdade. Até na USP? Que decepção, mas já esperada.

beijos,

P.S. não tenho tempo hoje de ir ao dicionário procurar essas palavras que desconheço. Marconi, por que você não faz um glossário para os seus posts? ;-)

Ana Maria disse...

haha, mal posso esperar pelo desfecho da visita. a propósito, quanto você tem de altura, hombre? ;-)

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marconi, estou aqui só para perguntar o que não quer calar: como é que você foi se lembrar dessas entidades bizarras da música brasileira chamadas Marquinhos Moura e Beto Barbosa, na primeira parte dessa sua malfadada aventura?

E ao ler o que está escrevendo não posso deixar de murmurar: "eu também já fiz isso..." Um abraço.

Olegária quer falar disse...

Em frente à televisão, ela assistia à novela. Olhos atentos, neurônios sintonizados, emoções vibrando pelo desenrolar da estória. Mas sua história pode ser muito mais interessante...

Jens disse...

Camarada Marconi: até o mundo mineral sabe que o senhor é meu inimigo figadal. No entanto, nesta questão em particular, vejo-me obrigado a manifestar minha solidariedade, pois é revoltante a insensibilidade feminina para com as poucas alegrias que nós, machos, eventualmente temos oportunidade de desfrutar.
Quando casado, eu era frequentador assíduo de reuniões sociais. No entanto, bastava que solicitasse um inofensivo drinque para que minha consorte, uma megera indomada, proferisse o seu bordão preferido: "já vai começar?" - como se eu não fosse um cidadão refinado. Afinal, sempre que vomito em eventos sociais tenho o cuidado de expelir separadamente aperitivos, carnes e saladas, de acordo com a ordem de entrada. Como disse um confrade norte-americano, um homem não pode ser considerado bêbado se consegue ficar deitado no chão sem se escorar em algum lugar.
Transmita meus respeitos à sua senhora. Um abraço.

DO disse...

SEmpre muito bom vir aqui.
Abração,MARCONI!!

Felipe de Amorim disse...

Ei! Eu sou um intelectual da USP. Eu tenho sérebro!

E juro que tava em algum lugar por aqui...

Serbão Sem-Blog disse...

"“Aha! Você não entende tanto de Física? Pois explique essa, agora!”"

essas frases que vc cria, Marconi, me fazem ficar rindo sozinho aqui no meio do trabalho. se eu for demitido a culpa é tua!!!!