31 agosto, 2007

PREFIXOS QUE CAEM NA BOCA DO POVO


— E então, doutor?
— Bem, nós fizemos o que pudemos, mas...
— Não, não, por tudo o que há de mais sagrado, doutor, não me diga que o Aurélio está morto!
— Não, não morreu.
— Graças a Deus!
— Mas, infelizmente, ficou paravivo...

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— E aí, bicho? Fala!
— Bom, aí nós finalmente ficamos sozinhos.
— E rolou?
— Quase.
— Putz! Isso quer dizer o quê?
— Parassexo.

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— Como é que é? Não tenho direito à restituição?
— Tecnicamente, não.
— Quer dizer que quarenta por cento de tudo o que eu ganhei esse ano ficou pro governo?
— Uhm-hum, tecnicamente.
— Mas isso é um assalto!
— A senhora me desculpe, mas o termo técnico é pararroubo.

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— Então, Vossa Senhoria admite que esteve no escritório do ministro?
— Algumas vezes, Excelência. Apenas para fazermos sexo ou pra eu usar a escova de dente dele. Mas não o conheço pessoalmente.
— E a depoente quer que esta comissão acredite que isso é verdade?
— Sim, é a mais pura paraverdade, Excelência.

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— Maurício...
— Sim?
— Eu preciso te contar uma coisa.
— Que foi, mulher? Que cara é essa? Diz logo!
— Você precisa ser forte, Maurício.
— Ai, meu Pai, fala de uma vez, tô ficando preocupado!
— A verdade é que... (suspira) Maurício, o Ricardinho é teu parafilho!

30 agosto, 2007

BEST-SELLERS (2)


— Olha aí, Veronika decidiu morrer.
— Putz! Será que a gente pode fazer alguma coisa pra ajudar?
— Comprar cicuta.

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— Restaram quantos?
— Segundo dizem, só o porteiro e o José Sarney.
— O José Sarney saiu vivo?
— Uhm-hum.
— Maldito Jô Soares!

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— Lançaram uma segunda edição de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”.
— Ha! E se chama como?
— “Casais Inteligentes não Lêem Esse Tipo de Livro.”

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— Vou numa expedição.
— Pra onde?
— Pra Cidade do Sol.
— De férias?
— Nada, a trabalho... Procurar sinais de vida inteligente.

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— Sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.
— Que foi?
— O caçador de pipas.
— Que é que tem?
— Morreu eletrocutado.

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— Me contaram o segredo.
— A mim também.
— Desse jeito, vão contar pra todo mundo, não vai ter mais segredo.
— Ainda bem.

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— Pegaram o ladrão?
— Pegaram, acabei de receber a notícia.
— E o queijo?
— Meio mordido, mas ainda dá pra comer.
— Que bom. O sujeito tá preso?
— Não, furto famélico. Mas o autor pegou pena de morte.

28 agosto, 2007

BEST-SELLERS


— Não acredito! Arrancaram as tripas dele?
— Arrancaram.
— Quem fez uma barbaridade dessa?
— Um anarquista, parece.
— Que crueldade! Pra que arrancar as tripas do monge, meu Deus?
— Pra enforcar o executivo.

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— Mas isso é uma piada!
— Que foi que houve?
— A lei da atração.
— Que é que tem?
— Acaba de ser revogada...

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— Ha, ha! Essa foi ótima!
— Que foi que tás rindo sozinho aí?
— Não tem aquele cara que transformava suor em ouro?
— Tem.
— Lê aqui: morreu de desidratação!

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— Mentira!
— Sério. Juro por Deus.
— Duvido, ele não faria isso.
— Tô falando...
— Tá, tudo bem. Então me diga: quando Nietzsche chorou?
— Parece que foi lendo um best-seller que lançaram aí com o nome dele, não sei.

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— Tá ligado no guardião de memórias?
— Claro, claro.
— Pois então, não é que o cara tá com Alzheimer, rapaz?

27 agosto, 2007

DOMINGO NO IBIRAPUERA


Caros patriotas, a crônica de hoje está lá no Culturando.com, o único site brasileiro inteiramente voltado para pessoas como eu, financeiramente prejudicadas, uma vez que traz toda a programação gratuita ou a preços populares desta esquisita cidade de São Paulo.

Passem por lá e confiram “Domingo no Ibirapuera”, com enredo que se passa nessa que é a primeira praia sem mar de todo o Hemisfério Sul, da América, num claro instante. Será? Impávido que nem Muhammad Ali. Será que eu... Desculpem. É que esse Caetano arrepia los pelos de mi culo.

Leiam aqui, por obséquio.
E passem bem. Ou não.

24 agosto, 2007

DIÁLOGOS GREGOS


— Ela me trocou por um medo besta.
— As mulheres são assim mesmo, covardes.
— Covardes?
— É, cheias de temores tolos.
— Que se danem os temores, rapaz. Eu não queria era ser trocado por um persa!

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— Aquele cara já foi Safo.
— Pois pra mim ele nunca passou de uma toupeira.
— Não, não, já foi Safo, a poetisa.
— Pô, cara, lá vem você com esse papo de transmigração das almas de novo!

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— Que cara é essa? Por que cê tá assim, Eurípides?
— Bicho, não queira nem saber. Minha vida é uma tragédia!

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— Isso são horas? Meia-noite e você na rua, pelos banquetes da vida! Pode me dizer ao menos onde é que o senhor estava?
— Zó zei... hic... que nada zei, Jantipa.

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— Dá pra apagar a luz?
— Não.
— Por Zeus! Eu quero dormir!
— Psss. Tô à procura de um homem virtuoso, mulher.

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— Muito bem, pessoal, são milhares contra milhares. Quem conseguir pegar a mulher primeiro, vence.
— Então, é isso aí. Que vença o melhor.
— Digo o mesmo. Só mais uma coisa: não vale flechada por trás.
— Combinado.

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— Uhm... Que ombros largos!
— Você ainda não viu nada, neném.
— Ai, gostoso! Sou toda tua!
— Tira essa roupa que eu vou te levar do mundo sensível ao inteligível, já, já!

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Era virgem, não é mais.
— Perdeu a virgindade?
— E a vida.
— Ué, mas quem comeu ela, afinal?
— O Minotauro...

23 agosto, 2007

CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS


— Muito bem, Homero, estamos aqui com o arqueiro da equipe de Tróia, Heitor. E então, Heitor, os troianos estão preparados para o embate?
— Olha, Heródoto, é aquela coisa, a guerra é uma caixinha de Pandora de surpresas e, se Zeus quiser, nós vamos derrotar os aquivos de grevas bem-feitas.
— Então vocês acham que ganham a pelada?
— Com certeza. Se Zeus, Afrodite e Apolo quiserem e a de olhos glaucos, Atena, e Poseidon não atrapalharem, a pelada vai ficar com meu irmão, Páris.
— Você arriscaria um placar?
— Veja bem, se nós sairmos na frente nos primeiros cinco anos, acho que vamos para o intervalo com uma boa vantagem. Os gregos tão muito confiantes, mas acho que eles vão cair do cavalo.
— Obrigado, Heitor. É com você Xenofonte!
— Bem, Heródoto, eu estou ao lado do principal atacante a carregar o escudo dos aquivos de grevas bem-feitas, Aquiles. Aquiles, parece que houve desentendimentos entre você e a comissão técnica, você teria discutido com o treinador Agamenon. É verdade?
— Bom, Xeno, eu acho que esse é um assunto extracampo de batalha. O importante é que a equipe tá imbuída e determinada e todos os holocaustos foram feitos.
— Você está plenamente recuperado da contusão?
— Cem por cento. O calcanhar não será problema.
— E o jogo? Vai ser complicado, não?
— Com certeza. O professor Príamo armou muito bem a defesa troiana. Acho que vai ser muito difícil atravessar a muralha adversária. Mas com fé em Zeus e Hera, e o apoio da de olhos glaucos, Atena, acho que a gente pode penetrar no flanco adversário e sair daqui com a loura da vitória.
— É isso aí, Homero, confiança total do lado grego!
— Ok, vocês ouviram aí o trabalho do Heródoto e do Xenofonte. Lembramos sempre que essa transmissão é um oferecimento dos Elmos Leônidas. Não tente tapar o sol com uma chuva de flechas: só Leônidas fabrica os melhores elmos do mercado. Inseguro diante dos medos? Os Elmos Leônidas são a solução. Agora também com filial na Trácia. Muito bem, está tudo preparado para o início do certame. E aí, Sócrates, o que é que você espera do conflito de logo mais?
— Boa noite Homero, boa noite amigos. É, Homero, eu acho que a questão fundamental a ser respondida aqui, hoje e desde sempre, é a seguinte: o que é “conflito”?
— Como? Que você quer dizer? Falo do embate de logo mais.
— E o que seria um embate?
— Ora, o conflito, o choque entre os dois times, é a esse embate que me refiro, Sócrates.
— Veja que você usou três termos para designar uma mesma circunstância: “conflito”, “choque” e “embate”. Agora me responda: usam-se três nomes para designar uma romã?
— Não, claro que não. Uma romã é uma romã.
— E um cacho de uvas é um cacho de uvas apenas e não é denominado de nenhuma outra forma? Ou podemos chamar um cacho de uvas de cacho de azeitonas ou cacho de pêssegos?
— Não, um cacho de uvas é um cacho de uvas, por Zeus!
— Da mesma maneira, há dois vocábulos para nomear uma amora ou para indicar uma tâmara?
— Claro que não.
— Então você diria que é certo designarmos um mesmo...
— Muito bem, vocês ouviram aí o Sócrates, que anda meio cético quanto aos rumos da partida. E você, Aristóteles? Qual a sua expectativa?
— Trata-se de um embate importantíssimo, mas ainda não arriscaria fazer uma análise metódica. O fato é que quem perder vai para o Hades mais cedo. Olha aí, Homero, foram feitas as libações. Começou a partida.
— Ok, amigos do mundo pagão, comeeeeça a partida! Lá vão os... os... Quem é que tá atacando, hein? Musas! Cadê as musas? Chamem as musas aí pra mim! Por Zeus, alguém me ajude! Eu não enxergo!

22 agosto, 2007

HOSPITAL DE LETRAS


— Tá vendo aquele ali de saída? Acaba de se recuperar de um profundo surto de Clarice Lispector. Passou dois meses escrevendo só frases interrompidas pelo meio, palavras jogadas no período ao acaso, frustradas tentativas de fazer prosa poética...
— Coitado. E se curou como?
— Classicoterapia. Autores greco-romanos de duas em duas horas.
— E aquele ali, meu Deus?
— O de ombros caídos?
— É. Como ele tem as costas tortas!
— De tanto carregar palavras-valise. Vê o que está ao seu lado, no banco?
— Qual? O que tá dando banana e cuspindo no enfermeiro?
— Sim. Apanhou uma hilstite aguda. A cada três palavras, agora, emenda um palavrão.
— Nossa! Esse aqui parece popular, hein? Por que é que tem tanta gente ao redor dele com gravador na mão?
— Ah, é que o pobre sofre de cortazarianismo crônico. O que ele diz pode ser entendido de vários modos: de trás pra frente, eliminando-se frases, decompondo-se outras. Então os residentes vão gravando a conversa pra poder enten...
— Ai, meu Deus! Qu-que... que... é isso?
— Bem, aí se trata de um caso típico de doença de Borges.
— Ma-mas esses... esses pêlos? E esses...
— Chifres. É isso mesmo. Ele pensa que é o Minotauro. Opa, cuidado!
— Qu-que foi? Ele morde?
— Só se você entrar no labirinto. Os atacados pela moléstia acham que são faunos, semideuses, deputados honestos e outras criaturas mitológicas. Mês passado havia um de diagnose mais difícil. Achava que era um livro.
— Livro?
— De areia, ainda por cima.
— Morreu?
— Morreu num acidente. Caiu no chão e se desfez. Veja ali, aquele outro.
— Não acredito! Ele tá voando!
— Ué, nunca viu? Uma juliverneção relativamente passageira. Em cinco anos estará curado.
— Mas como?
— A gente faz o doente cursar Administração ou Direito e o excesso de imaginação e criatividade é estancado.
— Não me fale nada! Aquele lá que tá com os pés e as mãos no chão, zurrando e desferindo coices, sofre de esopismo ou lobatismo, não é? Deve imaginar que é o próprio Burro Falante!
— Não, não. Aquele ali acha que é escritor brasileiro do século 21 mesmo. E então, satisfeito?
— Puxa vida, muito obrigado por me permitir a visita, professor. Agora, só mais uma coisa que me intriga. Não olhe agora, não, mas... Esse daqui, ó, à direita. Desde que a gente chegou, ele tá de pé, parado, num canto da ala. Todo mundo sentado, apenas ele não senta, de jeito nenhum. E tem um monte de cadeira vazia!
— Ah, aí é mais delicado... Ele não é interno, é um visitante.
— E não senta por quê?
— Err... (constrangido, sussurrando) Mal de Wilde.

21 agosto, 2007

REGRA NÚMERO UM


— Você é como a lua, amor.
— Gorda?
— Não. Clara e...
— Fria.
— Não, não.
— Você me acha pálida?
— Não!
— Então, acha que eu uso muito pó, só pode.
— Nada disso!
— Sou frívola, sem gravidade?
— Não, não, mas é claro que não.
— Minha pele é esburacada?
— Esquece. Jamais deveria ter te comparado à lua, foi uma indelicadeza minha. Você mais se parece com o sol.
— Cheeeia de estrias...
— Nããão! Tem luz própria e...
— Vivo dando voltas por aí?
— De jeito nenhum! Esquece o sol. Bobagem minha. Você... você é um cometa.
— Sabia! É a minha bunda, né? Muito grande.
— Bun... Não é nada disso, querida. Você é um cometa, porque...
— Posso causar grandes estragos, eu sei.
— Que é isso! O cometa é um astro de muita beleza, considerável grandeza e...
— Você nunca tinha reclamado de minha altura antes...
— Como? Eu... nunc... Não, não, pelo amor de Deus, não se trata disso! Me desculpa, não fica assim, bobagem minha. Não vou te comparar a nada mais no céu, tudo bem?
— Por quê? Você acha que eu não mereço?
— Claro que merece, mas é que... Tá, já sei. Você é como uma chuva refrescante na primavera, que tal?
— Como água, portanto: incolor, insípida e inodora.
— Não! Refrescante e...
— Passageira, fugaz, um evento sem maior importância.
— Meu amor, não é nada disso! Como poderia dizer que você é inodora?
— Tinha certeza que você ia fazer isso, mais cedo ou mais tarde.
— Isso? Isso o quê?
— Passar na minha cara, com ironia, que eu transpiro quando fico nervosa.
— Quê? Ora, só tava tentando...
— Dizer que não me ama mais. Suspeitava que todo esse preâmbulo era pra isso. Pois muito bem, saiba que...
— Não é verdade! Meu bem, minha querida, eu te amo! Te amo muito! Te amo mais do que você mesma se ama, se isso é possível!
— Então não tenho auto-estima, agora? Ou, pelo contrário, você acha que eu sou uma ególatra?
— Chega! Pára! Esquece, esquece tudo o que eu disse. E me perdoa. Não fiz por querer, mas sei que a culpa foi minha. Violei a regra número um de nosso casamento.
— Carinho, respeito mútuo e atenção?
— Não, evitar analogias quando você tá de TPM.

20 agosto, 2007

DEVOLUÇÃO


— Pois não, em que podemos ir estar ajudando o senhor?
— É uma devolução, minha filha.
— Qual o seu nome, senhor, para eu poder estar registrando a sua queixa?
— Bom, aí depende. A senhora é católica ou protestante?
— Como, senhor? Eu não vou poder estar lhe fornecendo essa resposta, senhor.
— Tá, tá. Bota aí Tinhoso Cafute.
— O senhor tem o número de assinante, senhor?
— Número de ass...? Minha filha, eu sou da concorrência, você acha que eu seria assinante?
— Tudo bem, senhor. Então o senhor poderia estar me fornecendo o número do seu RG?
— Dois.
— Como?
— Dois.
— Dois, dois... Pode continuar, senhor.
— Dois, já disse.
— Dois, dois, dois? E qual estaria sendo o resto, senhor?
— Só o número dois, um dígito, minha querida!
— Senhor, esse RG, segundo o sistema, vai estar sendo inexistente.
— Claro, coisa dos tempos que correm. O sistema é laico. Ninguém mais dá bola pro velho e bom maniqueísmo.
— Como, senhor? O senhor poderia estar me fornecendo o órgão emissor?
— Órgão emissor? Emissor de quê? Se for de gases intestinais, não posso estar fornecendo a ninguém, não! Sou macho, tá me ouvindo? Macho!
— Desculpe, senhor, mas eu não tô estando entendendo. O senhor poderia estar repetindo?
— Olha, querida, eu pensei que tinha conseguido inventar o cúmulo da crueldade com meus caldeirões ferventes, enxofre, correntes e tal, mas vejo que vocês criaram suplício muito maior com essa coisa de telemarketing. Parabéns. Agora, por favor, será que eu posso falar com São Pedro ou algum outro santo?
— Um minuto, senhor. Eu vou estar transferindo o senhor para o setor responsável. (música de espera)
— Transfe... Não! Für Elise de novo, não, pelo amor d'Aquele Sujeito! Por... Droga, droga, maldito Beethoven! Bater nos ouvidos foi pouco! Eu devia ter feito o pai furar os olhos dele!
(dez minutos depois) Alô?
— Alô!
— Departamento de Hagiografia e Angelologia. Com quem eu vou estar falando?
— Você eu não sei, minha filha, agora eu vou estar falando com São Pedro, São Paulo ou algum outro superior seu, caso contrário vou mandar uma praga que vai afetar sua descendência até o último zigoto, tá me ouvindo?
— Desculpe, senhor, mas para rogar praga contra atendente não é conosco, vou estar transferindo o senhor para o setor responsável. (música de espera)
— Nãããão! Ai, não acredito que tô escutando essa música pela décima oitava vez! Meu Barbudo! Será possível que eles não têm Wagner ou algum outro compositor anti-semita?!
(vinte minutos depois, gravação) Você está no setor de Insulto, Injúria e Praguejamento. Para soltar um palavrão relativo à vida sexual dissoluta de uma de nossas atendentes, disque 1. Para insultar sua genitora no que tange à infidelidade conjugal, disque 2. Para emitir turpilóquio que atinja a honra de seu pai, disque 3. Para fazê-la passar uma hora escutando a versão traduzida de uma música da Britney Spears interpretada pela Alcione, disque 4. Para xingar o Beethoven ou a Elise que o inspirou, disque 5. Ou aguarde, rezando cem ave-marias e cinqüenta pais-nossos com bastante fé, que, se Deus quiser, uma de nossas funcionárias irá atendê-lo.
— Ah, vá pro anjo que a carregue! (desliga) Isso é um verdadeiro céu! Se a gente tenta o telefone, não consegue falar com ninguém. Se manda e-mail, eles vendem nosso cadastro e a gente começa a receber spam com ofertas de hóstias, cintos de castidade, cilícios etc. Não dá! Assim vou mesmo acabar tendo que ficar com o ACM!

17 agosto, 2007

A COVA


— Que é que tu tá olhando pra mim assim?
— Eu? Nada!
— Como nada? Há duas horas tu tá aí, olhando pra alguma coisa no meu rosto, nem me deixa ler o jornal direito! Que foi que houve?
— Não, não, é só que...
— O quê?
— Bom, eu nunca tinha reparado nessa... esse... Você sempre teve essa covinha no queixo?
— Não, fiz ontem. Cavei com uma chave de fenda.
— Sério?
— Claro que não, né? Sempre tive uma cova no queixo! Tá maluca?
— Tem certeza?
— Olha, pra falar a verdade, eu tô meio em dúvida. Afinal, são só cinqüenta anos que eu me olho diariamente no espelho, de maneira que posso estar me confundindo um pouco.
— Não, tudo bem. Eu me lembro que você tinha uma cova. Mas essa daí é a sua mesmo?
— Peraí... Ah! Meu Deus, como eu sou idiota!
— Que foi?
— Agora é que eu me lembrei!
— Fala! Que foi?
— É que ontem o vizinho tava precisando de um umbigo sobressalente e, pra ser gentil, eu acabei emprestando o meu. Em troca, ele me deixou a cova de queixo dele. Foi isso. Tá explicado.
— Eu tô falando sério. Mesmo. Não me lembro dessa cova no teu queixo. Pelo menos, não assim.
— É, não sei. Talvez seja uma cova perdida. Ou órfã. Outro dia até vi uma campanha tocante na TV sobre a adoção de covas de queixo. Cê sabe que a maioria das pessoas só aceita adotar uma cova cônica ou cúbica, sem estrias, e deixam as covas irregulares e enrugadas para trás? Um absurdo!
— Pode ironizar à vontade. Mas o certo é que eu... Posso tocar?
— Com cuidado, faz favor. Elas às vezes ficam agressivas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de cinco por cento das internações por perda de dedo são motivadas pelas covas de queixo assassinas.
— Estranho... Ela era mesmo exatamente assim?
— Não, não. Como toda cova de queixo, ela iniciou a carreira como um simples poro. Com o tempo, ascendeu a cravo e, subindo na hierarquia dos orifícios, após árduo trabalho, chegou a cova de bochecha e, finalmente, a cova de queixo. Mas o sonho dela é mesmo chegar a ser um c...
— Epa, olha os modos! Não se pode mais manter uma conversa adulta nessa casa? Olha, podia jurar que mês passado isso... essa... esse... a cova não tava aí. Ela sempre se localizou nesse exato ponto?
— Claro que não. Você nunca ouviu falar das correntes migratórias das covas de queixo? No inverno elas retornam às coxas, onde nasceram, para fugir do frio. Vem cá, por que é que tu tá fazendo essa cara de nojo, hein?
— Eu? Cara? Não, nada... Nojo? Uhm-uhm. (após alguns minutos em silêncio) Olha, Cova, digo, olha, Augusto, eu andei pensando e... acho que a gente precisa dar um tempo no casamento.
(baixa o jornal, impaciente) Jesus Cristo! Tudo isso por conta de uma cova, Joana?
— Hoje uma cova, amanhã uma amante. Não dá. Não posso mais confiar em você.

16 agosto, 2007

POLÍCIA GRAMATICAL (NUMA CONFEITARIA)

— Aha! Mãos ao alto, boca fechada! Anda, meliante!
— Ma-mas o que... que foi que eu fiz, seu guarda?
— Você foi pego em flagrante cometendo um gerundismo, seu calhorda!
— É mentira, seu guarda. Eu juro que usei o futuro do presente!
— Nada disso, eu ouvi perfeitamente quando você falou “vai estar fazendo”, seu mentiroso!
— Não!
— Sim. E ainda por cima usou a primeira pessoa do plural: “nós vai”.
— Eu não usei ninguém! Eu agi sozinho, seu guarda, eu juro!
— Passa! Já pro camburão!
— Eu sou testemunha, seu guarda. Ele falou direito...
— Você também, boneca. Há um mês nós estamos acompanhando os passos de vocês. Os dois serão acusados de associação para o crime semântico, formação de tabuísmo e tráfico de redundâncias. Podem pegar de cinco a dez anos de escola.
— Mas a gente é apenas namorados, seu guarda! Não fizemos nada!
— Namorados?
— É!
— Não, sua burra, “namorada”. “A gente é namorada”. “Gente” é substantivo feminino e concorda no singular! Passa já pro camburão!
— A gente não fez por mal, seu guarda!
— Com “u” ou com “l”?
— Com... com...
— Tudo por conta de um errinho de português, seu guarda?
— Errinho? Nós temos gravações em que vocês aparecem infringindo a norma culta em inúmeras conversas telefônicas. Ao longo de dois meses incorreram nos delitos mais diversos, entre eles queísmos, barbarismos, silepses, solecismos e uma série de infrações à regência e à conjugação. Alguns são crimes hediondos, como o uso de expressões como “eu, enquanto pessoa” e palavras como “obstaculizar”. Passa!
— Tá falando com nós?
— “Conosco”, animal! Vira a mão!
— Ai! ai! ai! Não, seu guarda, a palmatória, não!
— Isso é violência policial! Nós tem os nossos direitos!
— “Nós temos”!
— O senhor também, claro.
— Uff... Tá, tá, vocês têm direito ao uso de um intelectual e podem consultar a gramática normativa para falar com a família. Agora, venham! Chega!
— Então é isso? Voz de prisão?
— Não, voz passiva: VOCÊS ESTÃO SENDO PRESOS POR MIM! Vamos! Andando!
— Tudo bem. Mas a gente pode pelo menos levar o doce que a gente não terminou de comer?
— Pra que vocês querem levar o musse? Nada disso. Deixem aí. Pra cadeia, já. Os três!
— Os três?
— Ué, seu guarda, por que o senhor tá se algemando e entrando aqui no camburão?
— É, o que significa isso?
— Significa que eu sou uma anta: “musse” é feminino. (gritando) Motorista! Toca pra cadeia!

14 agosto, 2007

NO CONSULTÓRIO MÉDICO


MÉDICO: Então, em que posso ajudá-los?
MÉRCIA: É o Gregório, doutor. Ele só fala em decassílabos.
MÉDICO: Decassílabos?
GREGÓRIO: Mentira, doutor, eu não falo assim.
MÉRCIA: Viu, doutor? Decassílabo E o que é pior, além de decassílabos, ele fala em dísticos.
MÉDICO: Sei, dísticos. Rima consoante?
MÉRCIA: Sim. Consoante, na maioria das vezes.
GREGÓRIO: Não creia em argumento tão chinfrim.
MÉRCIA: Olha aí, “assim”, “chinfrim”. Eu não agüento mais, doutor.
MÉDICO: Desde quando isso vem acontecendo, seu Gregório?
MÉRCIA: Há um ano, mais ou menos, doutor. Desde que ele resolveu ler “Os Lusíadas”, nunca mais voltou a falar em prosa.
GREGÓRIO: Que seria o normal, doutor, me diga? A fala diária não nos fatiga?
MÉRCIA: E ainda mais essa. Os versos do Gregório são cheios de questionamentos existenciais, doutor.
MÉDICO: Olha, ainda é cedo pra dizer, vou ter que pedir alguns exames de métrica fisiológica e semântica orgânica, mas tudo indica que o seu marido está sofrendo de SAP.
MÉRCIA: SAP? Mas se ele nem assiste televisão!
MÉDICO: Não, SAP: Síndrome de Alexander Pope. Não quero enganar a senhora: é uma doença rara.
MÉRCIA: E tem cura, doutor?
MÉDICO: Há uma chance. Segundo a literatura médica, a maioria dos pacientes, após algumas semanas de tratamento, ao entrar em contato com a poesia concretista ou alguma outra corrente poética do século vinte desaprende a fazer versos. Vou indicar a bibliografia completa dos irmãos Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, letras de MPB, sobretudo poemas contemporâneos.
MÉRCIA: Só isso?
MÉDICO: Não. Pop music também ajuda. Faça-o escutar alguma cantora americana de seios grandes e Jorge Vercilo, por exemplo.
MÉRCIA: E o senhor acha que assim ele vai voltar ao normal, doutor?
MÉDICO: Vamos torcer. A doença pode ser hereditária. O senhor tem algum repentista na família, seu Gregório?
GREGÓRIO: Família pra mim é a nossa, humana. Não aquela que o sangue só irmana.
MÉRCIA: Tá vendo? Vive assim, rebelde, não concorda com nada que a gente diz! (baixando o tom de voz) O avô dele era poeta. E parnasiano ainda por cima! Na família dele o pessoal gosta de...
MÉDICO: Como? Não ouvi.
MÉRCIA: (sussurando) Gosta de arte, doutor. Arte erudita, entende? Pintura figurativa, música clássica, poesia épica, essas coisas. É triste, doutor, como é triste! Ele tem até um tio que escreveu um... (suspira) um romance realista, de enredo linear, prosa tradicional, doutor.
MÉDICO: Se acalme, dona Mércia, por favor. Tá aqui um lenço, tenha fé. A senhora siga as indicações da receita e volte dentro de um mês. Vamos torcer para que tudo dê certo.
MÉRCIA: Obrigada, doutor, obrigada.

(Um mês depois...)

MÉDICO: E então, seu Gregório, o senhor parece bem-disposto. Está se sentindo melhor?
GREGÓRIO: Tenho me sentido bem.
MÉDICO: Que bom!
GREGÓRIO: Tudo graças ao doutor.
MÉDICO: Que é isso! Fico feliz que a medicação tenha surtido efeito. Mas a senhora não parece muito contente, dona Mércia.
MÉRCIA: O Gregório piorou, doutor.
MÉDICO: Piorou? Como assim? Ele não tá mais falando em decassílabos nem dísticos! Que me lembre, suas duas últimas frases foram: “Tenho me sentido bem” e “Tudo graças ao senhor”.
MÉRCIA: É que há uma semana ele só fala em redondilha...
GREGÓRIO: Não é preciso ir mais além. Eis que a doença terminou. Falo bem melhor agora. Deus proteja esta senhora. Que pra cá me rebocou.

13 agosto, 2007

PEQUENOS INCIDENTES OCORRIDOS NA PALESTINA HÁ CERCA DE DOIS MIL ANOS (4)


— Aonde o Senhor tá indo?
— À montanha, ué. Por aqui a gente corta caminho.
— Mas Senhor...
— Tô falando, homem. Por aqui é mais perto.
— Mas é que... glub...
— Não resmunga. Vem.
— Mas... glub... glub...
— Vem, já disse!
— Glub... glub... glub...

...................................

— Sr. Pedro?
— Pois não.
— Polícia.
— Polí... Mas... Não me diga que...
— Problemas com seu imposto. Houve um conflito de informações com relação à fonte pagadora. Nos acompanhe, por favor.
— Já disse mais de mil vezes. Jesus me fez pescar, tirar o dinheiro de dentro de um peixe e...
— Por aqui, senhor Pedro.
— Eu juro!
— Por favor...

...................................

— Levanta-te e anda!
— Sim, Senhor.
— Ai! Meu Pai! Su-suas pernas caíram!
— Senhor, esse daí era o leproso. O paralítico é aquele ali, ó.

...................................

— Qual era o nome desse demônio, Senhor?
— Legião.
— Porque eram muitos?
— Não, porque no século XX vai surgir uma banda horrível com esse nome.

...................................

— Mestre, foi o senhor que curou aquela muda?
— És parente dela?
— Sou.
— Ergue-te. Não precisas agradecer a mim, quem fez a obra foi meu Pai que está nos céus.
— Agradecer? Ela é minha sogra, Senhor!

10 agosto, 2007

CABOTINO, JORNALISTA E OUTROS SUBSTANTIVOS DE MÁ FAMA


ATENÇÃO! ESTE POST ENTRA NO LUGAR DE UM TEXTO QUE TINHA PREPARADO PARA HOJE, PORQUE PRECISO INFORMAR TRÊS COISAS COM A MÁXIMA URGÊNCIA.

PRIMEIRO: O LIVRO SOBRE LITERATURA BRASILEIRA MAIS IMPORTANTE DOS ÚLTIMOS VINTE ANOS SE CHAMA “O CABOTINO” E FOI ESCRITO POR PAULO POLZONOFF JR. É VERDADE QUE O AUTOR, PESSOALMENTE, NÃO É LÁ GRANDES COISAS. ALÉM DE NÃO SER DOS MAIS ASSEADOS, TER PROPENSÃO A MENTIR E POSSUIR FRIEIRA, COSTUMA COMER MELECA DE NARIZ E TER ACHAQUES DE ESCASSA MASCULINIDADE. MAS FATO É QUE CERCA DE NOVENTA POR CENTO DO QUE PENSO (?) SOBRE A LITERATURA (?) QUE SE PRODUZ HOJE NO BRASIL ESTÃO ALI. E SÓ NÃO DIGO CEM POR CENTO PORQUE ALÉM DE TODOS OS DEFEITOS CITADOS, PAULO POLZONOFF JR. AINDA COÇA O SACO EM PÚBLICO.

SEGUNDO: SEMPRE TIVE IMENSO APREÇO PELO TRABALHO DE GENETON MORAES NETO. QUE ME LEMBRE, ELE É O ÚNICO OXÍMORO TRABALHANDO NA TV BRASILEIRA: UM JORNALISTA QUE PENSA. “ARGH! JORNALISTA?”, DIRÃO OS DE MÁ LÍNGUA. AO QUE RESPONDO: MAS É PERNAMBUCANO, O QUE, COMO A CIÊNCIA DEMONSTRA, É SINAL DE BOM CARÁTER, INTELIGÊNCIA, BELEZA, ALTIVEZ, SAPIÊNCIA E UMA SÉRIE DE OUTROS ATRIBUTOS IGUALMENTE LOUVÁVEIS QUE SE NÃO FOSSEM CINCO HORAS DA MANHÃ ENUMERARIA DE BOM GRADO PARA LUSTRAÇÃO DOS INCULTOS. ACONTECE QUE, APESAR DE TODA A SIMPATIA QUE NUTRO POR ELE, NÃO POSSO DEIXAR DE DIZER QUE GENETON COMETEU UM GRANDE ERRO NOS ÚLTIMOS DIAS: ME CONVIDOU PARA ESCREVER NO BLOG SOPA DE TAMANCO, QUE COMANDA AO LADO DE GENTE DA MELHOR ESPÉCIE (COM A EXCEÇÃO DE PAULO POLZONOFF JR.).

POR FIM E MAIS IMPORTANTE: REGISTRO QUE MEU TECLADO SE RECUSA A ESCREVER EM MÍNUSCULAS. TALVEZ SEJA UM PROBLEMA DE EGO, TALVEZ TENHA SIDO PRAGA DE PAULO POLZONOFF JR. SIM, PORQUE, PARA COMPLETAR, O SUJEITO AINDA É DADO A REALIZAR MALIGNOS TRABALHOS DE UMBANDA.
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ERA ISSO. ATÉ SEGUNDA, ENTÃO, E ÓTIMO FINAL DE SEMANA A TODOS. MENOS A PAULO POLZONOFF JR., CLARO.

09 agosto, 2007

BEM-SUCEDIDA VISITA A UM CASAL DE AMIGOS VIRTUAIS (ÚLTIMA DOSE)


Acordei no dia seguinte me sentindo um Zeus. Não atirava raios nem tinha superpoderes, mas em compensação a dor na minha cabeça era tal que tinha certeza de que meu crânio rebentaria a qualquer momento e dele nasceria um deus olímpico. Desnorteado, tinha a persistente impressão de ter sido lançado para fora do Matrix. Lá no teto, de onde me fitava de cabeça para baixo, minha alma cantava, sarcasticamente, afetando olhares meigos: “Ó pedaço de mim, ó metade apartada de mim”...

Estava na dúvida se vomitava ou se tomava uma providência menos drástica, como cortar os pulsos, quando dei pela presença da minha mulher sentada ao meu lado na cama, numa atitude tão simpática quanto a de uma atendente de guichê de repartição pública. E subitamente se abateu sobre mim um sentimento de culpa maior que o herdado por toda a descendência de Set.

— E então? — perguntei, alarmado. — F-foi tudo bem?
— Ótimo — respondeu ela, sem mover os lábios. — Não poderia ter sido melhor.
— S-sério? Sério, mulher, ou é ironia?
— Sério. Quer dizer...
— Quê? Não me poupa!
— Teve aquela questão dos gatos, né?
— Gatos? Que gatos? Eles tinham gatos?
— Tinham. Mas creio que agora só têm “gato” mesmo, no singular.
— Eu matei um dos bichinhos?!
— Matar, matar, não. Apenas feriu mortalmente.
— Pisei num deles sem querer?
— Quase. Mordeu um deles querendo.
— Ai!
— Mas com razão, viu? Eram uns bichos muito egoístas. Imagine que não queriam deixar de jeito nenhum você provar da ração deles!
— Não me diga que eu... eu co-comi a... Putz, que horrível!
— Horrível? Que nada! Você adorou. Se até lambeu os restos do chão!
— Ai! Mas... mas afora isso, quer dizer, tudo normal?
— Tudo. Pelo menos até você limpar a boca suja de vinho na toalha de mesa que tinha sido presente do JK à família, tava tudo perfeito.
— Bem, podia ser pior... Sei lá, eu podia ter limpado o pinto ou a...
— Não, não. O pinto você limpou no guardanapo, como qualquer pessoa civilizada.
— Pára! Pára, muher!
— Ué? Não quer ouvir sobre a instigante brincadeira do lançamento de CDs do anfitrião pela janela do nono andar?
— Não, pelo amor de Deus, chega!
— Nem sobre os belos retoques de chantilly que você deu num Cícero Dias?

Neste ponto, sentia-me um Machado de Assis. Afinal, eram tais as minhas contorções, que estava prestes a cair fulminado por um ataque de epilepsia.

Então, arrependido do comportamento da noite anterior e consciente do mal que havia causado, peguei da mão dela, resoluto, e pronunciei as únicas palavras que cabiam a um homem de brio que ainda pretendia salvar, não importa a que preço, sua maculada dignidade.

— Escuta, mulher — sussurrei, solene como um coro grego —, tomei uma resolução. Agora é sério, acredita. Chega de passar vergonha. Prometo, mulher, eu prometo — ouve o que te digo, por tudo o que há de mais sagrado: nunca mais, em toda a tua vida, tu vai me ver tomar novamente um antialérgico.

E é preciso que se diga: desde então venho honrando fielmente a promessa.

08 agosto, 2007

BEM-SUCEDIDA VISITA A UM CASAL DE AMIGOS VIRTUAIS (2)


Sendo um sujeito calmeirão e até mesmo búdico, não seria o encontro com pessoas que não conhecíamos de perto que me deixaria afetado. Estava absolutamente tranqüilo e, como qualquer pessoa normal, durante o percurso de táxi comia os cadarços dos sapatos para aliviar um pouco a tensão.

— Tem certeza que tu tá bem? Não quer desistir? A gente inventa uma desculpa — disse minha consorte tão-logo entramos no elevador, ao perceber que a minha catadura faria a alegria de um pintor expressionista.
— Desistir? Mulher, sou bravo, sou forte, sou filho do Norte.
— Uhm-hum. E certamente é uma manifestação da coragem tupi o sujeito enfiar todos os dedos da mão na boca pra chupar, né?
— Hhmtá enfmmhando ahmoca? Digo, quem tá enfiando a mão na boca? Tô coçando a garganta, só isso. Queria que eu coçasse a garganta como? Por fora? É cada uma!
— Sei. E as tuas pernas tremendo são sem dúvida uma maneira de coçar os joelhos através do atrito.
— Será que você não percebe que isso é do movimento do elevador?
— Ah, havia me esquecido! Turbulência, né?
— Não discuto com quem não tem conhecimentos apropriados de Física...
— Que injustiça você dizer isso. Pois se eu casei com o próprio princípio da inércia! Olha aí, chegamos.

Quando a porta se abriu, surgiu à minha frente um fenômeno que talvez a parapsicologia ou um mitólogo expliquem, mas que levei algum tempo para compreender: era um paranaense mais baixo do que eu. Naquele instante, redimi várias gerações de nordestinos.

— Oi, tudo bom? — falou meu amigo, gentilmente.
— Tomates sobre tijolos fúlgidos — respondi, no mesmo tom.
— Ahn?
— Boa noite — tentou ajudar minha mulher.
— Oi! Você é a...
— Ela? — interrompi. — Desculpa a falta de educação. Ela é a... obviamente a... a... Quem é você mesmo?
— Quanto suor! Ele tá sentindo alguma coisa?
— Por enquanto, não. Mas espera só até a gente chegar em casa...

Entramos e nos sentamos no sofá. Meu amigo apresentou sua bela esposa. Lembro de que o vinho foi servido. Lembro de ter tomado um gole. Se não me engano, cheguei mesmo a tomar outro gole. Quanto ao terceiro não estou bem certo, pois daí em diante — maldita arquitetura moderna — alguém pisou acidentalmente no slow motion da sala e tudo ficou lento como o raciocínio da Angélica.

Recordo vagamente do meu amigo entrando e saindo da cozinha que, ao que tudo indicava, estava pegando fogo, da minha amiga algo espantada enchendo o meu copo de cerveja que, segundo os santos preceitos de Esculápio, eu entornava de mistura com o vinho e, sobretudo, da minha mulher me dando ligeiros cutucões e menos discretos beliscões sempre que eu abria a boca.

Pouco depois, talvez porque o reverse angle do cômodo foi acionado, tudo começou a girar. A última coisa de que me lembro foi de ter virado para minha mulher para dizer, altivo: “Aha! Você não entende tanto de Física? Pois explique essa, agora!”

O que teria certamente falado, me vingando a contento de suas tiradas engraçadinhas, caso minha língua não houvesse sido acometida por uma repentina acinesia que me deixava relativamente parecido com o Nerso da Capitinga. Isso, quanto ao aspecto externo, posto que internamente sentia-me mais como um intelectual da USP: era como se não tivesse cérebro.
..
(CONTINUA AMANHÃ)

07 agosto, 2007

BEM-SUCEDIDA VISITA A UM CASAL DE AMIGOS VIRTUAIS (1)


Algumas criaturas são sociáveis ao extremo, como o Duque de Osnabrück, cuja biografia registra ter feito sexo com um conviva masculino apenas para ser delicado com o hóspede. Como este se tornasse comensal habitual, o Duque acabou se casando com ele, episódio que deu origem ao célebre mote popular: “A gente quer ser gentil e acaba se f...”

Outras, por sua vez, são tão introvertidas quanto Gandhi, que viu o próprio pinto pela primeira vez sem querer, no espelho do banheiro do Palácio de Buckingham. Relatos apócrifos dão conta de ter o indiano quebrado a segunda vértebra na curiosa tentativa de soprar a mêntula. Em razão do que, teria a rainha decidido tirar as tropas da Ásia, cunhando a expressão que entrou para a história: “A guerra está perdida. Não temos mais autoridade moral sobre um povo capaz de bafejar o próprio membro.”

Há pessoas, no entanto, mais ponderadas, cuja capacidade de convívio social mantém-se num meio-termo. Num meio-termo entre o comportamento de um chimpanzé com cólicas e o de um rinoceronte com esclerose. É o meu caso.

Certamente por ignorar essa instigante faceta da minha personalidade, um casal de amigos virtuais nos convidou, a mim e a minha mulher, para um jantar em sua casa no último sábado, de maneira a nos conhecermos pessoalmente.
.
— Vê se tu te comporta dessa vez, hein? E por favor, não diga a frase mágica! — alertou-me minha amável consorte pouco antes de sairmos para o encontro.
— Eu, me comportar? — desdenhei, superior. —E desde quando eu não me comporto na presença de estranhos?
— Quer a lista por ordem alfabética ou cronológica?
— Tudo bem. Admito que aqui e ali, uma ou duas vezes, me excedi no álcool. Mas nada que tenha provocado grandes problemas.
— Ah, você acha que arrancar o lustre da casa da Lucinha e sair pela sala rodando ele sobre a cabeça e cantando Beto Barbosa é algo a que todos estão acostumados?
— Não foi Beto Barbosa, foi Marquinhos Moura. E a fiação tava meio velha, você mesma viu.
— Tava, claro, ninguém tinha tentado brincar de rodeio com o lustre antes. Isso pra não falar da vez que você pisou no bolo de aniversário da Maria Rita.
— Também, onde já se viu colocar o bolo na mesinha de centro, um lugar onde todo mundo sobe pra dar cambalhota?
— Vê se tu te comporta, pelo amor de Deus! E lembra que tu tomou aquele antialérgico. O remédio intensifica o efeito do álcool, Marconi.
— Mulher, pra que o nervosismo? Tá tudo sob controle.
— Ai!
— Que foi agora?
— Tu disse a frase mágica!

E assim seguimos, bravamente, ao nosso destino. Eu, seguro de ter um autocontole de causar inveja a um ninja que houvesse ingerido um litro de café. Ela, mais descrente que um existencialista escandinavo.
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(CONTINUA AMANHÃ)

03 agosto, 2007

MUSA CONTEMPORÂNEA


— Muito bonito! Eu aqui com um pé quebrado e a senhora me chega uma hora dessa!
— Você queria o quê? Essa cidade é um inferno! O trânsito tá um horror! E eu tenho que pegar dois ônibus pra chegar até aqui! Você tá com um pé quebrado?
— Tô. Olha aqui: “Em versos últimos te desdiz o canto/Que de meu largo peito brando despeço/Como flores de dialipetalanto”.
— Putz! Terceto dantesco de novo?
— É. Mas não consigo fechar a última estrofe. E você por aí, no meio do mundo!
— Já disse que moro na Zona Leste! Agora, vem cá, por que é que tu não adota o verso livre de uma vez, hein? Seria tão mais simples!
— Não é pra escrever versos livres que eu te pago tão bem!
— Bem? Ha, essa foi boa! Você por acaso sabe quanto custa uma coroa de rosas? E uma túnica como essa? Pra afinar minha lira, você acha que eu pago quanto? E nem tíquete-refeição eu recebo!
— Ah, é? E quanto é que Homero te pagou pra inspirar a “Odisséia”, hein? Ou a “Ilíada”?
— Quem inspirava a poesia épica era Calíope, ignorante. E aquele velho cego era um muquirana, não deve ter pago nada. Coitada, acabou morrendo à míngua.
— Ué, ela não era imortal?
— Era. Até o século XIX. Mas quem é que pode com o pós-modernismo? O pós-modernismo é de matar qualquer um. Até ela.
— Mas você tá aí, firme e forte.
— Eu me viro como posso. Trabalho doze horas por dia, pra seu governo. Tenho mais de trinta clientes, entre eles um sujeito que escreve crônicas pro Fantástico. Ultimamente até pra letrista de rock e da moderna MPB eu tenho trabalhado!
— Não acredito! Não me diga que você tá por trás de alguma música da Zélia Duncan!
— Não, não. Não trabalho mais com mulher desde a época da Safo. Mas tenho inspirado uns...
— Quê? Não ouvi.
— Eu tenho inspirado uns...
— Fala mais alto.
Raps! Uns raps, tá legal? É isso aí. Até pra rapper eu tô trabalhando! Isso pra não falar num bico que tô fazendo pra um escritor de auto-ajuda, aí. E você vem dizer que eu tô firme e forte... Francamente!
— Tudo bem, não chora. Desculpa, eu exagerei. Não vou mais fazer isso.
— E vai adotar o verso livre?
— Não. Aí já é querer demais.
— Branco?
— Nããão!
— Olha que no começo o Walt Whitman também tinha essa mesma resistência e, no entanto, olha o sucesso que fez. Isso pra não falar no Rimbaud, né? Você acredita que ele ia escrever “Une Saison en Enfer” todo em alexandrinos? Eu que o demovi da idéia!
— Você fica se fazendo de coitadinha, mas só pensa em dinheiro, em fazer o mais fácil, o lucrativo. E ainda te chamam de “amável”! Às vezes nem vem, manda a empregada!
— Empregada, não, hein? Colaboradora. Gestão moderna. Terceirização. Tenho atualmente cinco colaboradoras. E a idéia é ampliar o negócio. Tô economizando pra comprar minha casa própria. Ou você acha que com essa onda de seqüestro ainda dá pra dormir em cavernas? Ih, meu celular! Vou ter que ir. Hoje eu dou plantão num encontro de repentistas.
— Ei, volta aqui! Tá louca? E o meu verso?
— Droga! Esqueci. Vamo ver...
— O que é isso? Você tá usando um laptop?!
— E internet sem fio. É de uma ajuda que você não imagina. Uhm... uhm... ahn... Aqui! “Como da vida, seu tão amargo manto.” Que tal?
— “Em versos últimos te desdiz o canto/Que de meu largo peito brando despeço/Como da vida, seu tão amargo manto.” Um, dois, três... onze sílabas. Perfeito. E ficou bonito! Ganhou outro sentido.
— Viu? Ótimo, agora me passa quarentinha.
— Quarenta reais por um verso?
— Você precisava ver quanto o Proust pagou pela idéia da madeleine!
— Mercantilista! Por isso que a poesia contemporânea tá desse jeito, uma porcaria. Toma!
— Brigadinho. E aproveita, porque no próximo mês vence nosso contrato. Vou reajustar o preço. Fui!
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(Esta crônica vai dedicada a Paulo Polzonoff Jr., Bruno Garschagen e ao último verme que comeu o cadáver de Duchamp.)

02 agosto, 2007

TELESSEXO


— Aí eu tiro meu sutiã...
— E aí, e aí?
— Aí eu tiro minha calcinha...
— Uhm... E aí?... E aí?...
— Aí eu boto meu pinto pra fora...
— Quê???
— Aí eu boto meu pinto pra fora e...
— Pinto? Que história de pinto é essa? Eu liguei pra transar com uma mulher!
— Que preconceito, seu bobo, o amor é livre!
— O amor pode até ser, minha senhora, mas sexo é pago! E eu tô pagando caro, não quero saber de pinto nenhum. Ou a senhora desenvolve um clitóris nos próximos segundos ou eu...
— Tudo bem, tudo bem. Não precisa se zangar. Vamos recomeçar. Bom, estamos no quarto. Meia-luz. Cortinas de veludo. Velas. Aí eu tiro minha saia...
— Sim?
— Desenrolo minha meia-calça beeeem devagarinho...
— Sim, sim?
— Ajeito com carinho o esparadrapo que saiu do lugar...
— Como?
— Eu tenho um furúnculo na bunda.
— Você é louca? Minha filha, será que você não pode simplesmente fazer a coisa tradicional: tira a calcinha, aí aparecem pêlos pubianos e um órgão sexual feminino, de preferência um que não tenha dentes, não solte penas nem seja todo verde com bolinhas roxas?!
— Tradicional? Sei. Tudo bem, tudo bem. Então, estamos deitados na cama. Lençóis de cetim. Lustre de cristal. Carpete azul. Eu tiro a roupa, fico totalmente nua...
— Tá.
— E começo a acariciar você por baixo da cueca...
— Ahn...
— Tiro a tua cueca delicadamente...
— Uhm...
— Aí aproximo a minha boca do teu sexo latejante...
— Ai... ai...
— Abro a boca, cheia de desejo...
— Vai! Vai! Vai!
— E grito: “Que nojo! Que nojo!”
— Como é que é???
— É que eu vejo uma barata voadora entrar pela janela nesse exato instante! Aí fico toda apavorada. E você, então... Bem, você...
— Eu te pego pelos cabelos.
— Isso! Quer dizer... não. Pelos cabelos?
— É. E te jogo de cabeça na parede, sua maluca! Doida varrida! Demente!
— Não, você não pode fazer isso!
— Não, é, sua abilolada?! Maníaca! E por quê? Posso saber?
— Porque eu sou careca!
— Car... Eu vou no Procon! (desliga)
— Ignorante. (suspira) É incrível como não se dá valor ao trabalho intelectual nesse país. Por isso tanta gente cai na vida e acaba virando escritora...

01 agosto, 2007

SOBRE MENINOS E JUMENTOS


De maneira simplista, podemos dizer que o platonismo valoriza a alma em detrimento do corpo. Donde se podem deduzir duas coisas: primeiro, que o cristianismo deve muito ao pensamento grego e, segundo, que Platão não deve ter conhecido a Juliana Paes.

Também minha família foi fortemente influenciada pelos helenos. Lembro, por exemplo, com carinho, das horas que o meu progenitor passou diante de um automóvel, tentando fazer com que eu entendesse dialeticamente a sumida diferença entre o carburador e o radiador. E, com um pouco menos de carinho, dos dias que passei trancado no quarto por ter, inadvertidamente, enchido de óleo este e de água aquele.

Procurou o homem de todas as maneiras me fazer decorar o nome de diferentes ferramentas e ensinar seu uso específico, e não teria obtido fracasso mais apodíctico se seu objetivo fosse lecionar literatura a escritores pós-modernos.

— Qual é essa?
— Uhm...
— Cha... cha...
— Chave?
— Chave! Isso! Chave, o quê? Chave...
— Chave... de braço!
— Chave inglesa! Chave inglesa! Será que você não aprende?
— Ué, como é que eu ia saber? Pelo sotaque?
— E esta? Não é possível que você não lembre. É o nome de um bicho.
— É...
— Sim?
— Gato!
— Não! Burro! Burro!
— Burro? Essa o senhor não me ensinou.
— Burro é você! Isso aqui é um macaco. Some daqui!

Como adepto da escola espartana, meu pai até hoje deve se arrepender de não ter seguido comigo o uso dos lacedemônios quando do nascimento de uma criança com problemas mentais — o que era evidentemente o meu caso.

Já minha mãe pertencia à escola ateniense, da linhagem de Diógenes, e ficava a seu encargo o ensino da filosofia moral. Moral, explico aos mais jovens, foi algo que existiu certa vez no Brasil, fez algum sucesso momentâneo e depois caiu em desuso.

Digo a vocês, cidadãos, que o aio Egas Moniz não teve mais firmeza do que aquela santa senhora. Gastou todos os recursos da retórica, desde Protágoras até Cola di Rienzo, na tentativa de fazer com que eu conseguisse distinguir os conceitos de bem e mal. Esforço que resultou debalde, pois a julgar por meu comportamento, alguém seria capaz de dizer que meu preceptor havia sido Nietzsche.

— Marconi Leal, que dinheiro é esse, Marconi Leal?
— Sabe que eu também não sei, mãe? Mudam tanto! Mas eu acho que é cruzeiro.
— Você entendeu muito bem! O que é que significa esse dinheiro?
— Ah, o dinheiro, a senhora sabe, é um produto cultural usado pra troca de...
— Você andou apostando de novo?
— Não.
— Andou, sim.
— Não andei.
— Andou.
— Não andei.
— Andou.
— Juro que não andei! Quer apostar?

Sempre recordo com nostalgia e sofrimento o falhanço educacional dos meus genitores. Desde domingo, no entanto, com mais sofrimento do que nostalgia, pois cometi a tolice de apostar com minha mulher que meu time(?), o Sport, ganharia do dela, o Internacional de Porto Alegre, pelo Brasileirão. E apesar de ter errado por meros cinco gols — o jogo foi 5x1 para o Inter —, a verdade é que perdi a aposta e esta semana fiquei encarregado de todos os serviços domésticos.

Assim, lamento terrivelmente a queda que tive diante da tentação espiritual. Mas muito mais não ter aprendido com meu pai a realizar tarefas práticas. Porque perder a alma e passar a eternidade no inferno sofrendo os castigos mais cruéis é coisa que posso suportar facilmente. Difícil mesmo seria enfrentar minha mulher brava.

Diante do que, pergunto a vocês: se acaso um desastrado, ao varrer estabanadamente a casa, tivesse conseguido derrubar e espatifar no chão o vaso de porcelana predileto de sua amada, conseguiria ele de alguma maneira colá-lo? Como?

Respostas, na caixa de comentário, o quanto antes, por favor.