11 julho, 2007

SOLIDÃO É LAVA, PASSA E COZINHA


Homem com elevado senso de justiça e que ainda guarda em si resquícios do profundo socialismo aprendido no “Marx em Quadrinhos” da adolescência, sempre fiz questão de que, aqui em casa, as tarefas fossem divididas de acordo com as possibilidades e capacidades de cada um.

Assim, os trabalhos que exigem certa energia viril e requerem alguma destreza no manejo de ferramentas, como trocar o botijão de gás e as lâmpadas quando pifam, ficam a cargo de minha mulher. Enquanto eu me dedico a atividades de que posso me desincumbir na posse dos três neurônios com os quais o bom Deus houve por bem me dotar, como o bordado, por exemplo.

No entanto, esta semana minha querida consorte viajou, foi a Porto Alegre. Por um lado, para resolver questões pessoais. E, por outro, para dar vazão a um impulso pedagógico: está me acostumando desde já a viver sozinho para quando, daqui a um ou dois meses, decidir-se a me deixar de uma vez por todas.

Pelo menos é o que imagino, posto que a única representante do sexo feminino que agüentou morar comigo por mais de um ano foi minha mãe. E esta, não sem ter ficado com pequenas seqüelas, como faz questão de me dizer todas as vezes que me escreve do manicômio.

Seja como for, a verdade é que, tão-logo me vi só, comecei a curtir as benesses da independência. Primeiro, para meu espanto, descobri que é possível, sim, deixar a toalha molhada sobre a cama ou fazer xixi fora do vaso sem que sejam abalados nenhum dos princípios básicos da Teoria da Relatividade.

Depois que, ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, jogar as meias sobre a mesa ou sair do banheiro com os pés molhados não têm qualquer tipo de relação com os ataques de Israel ao Hezbollah.

Mas isso não durou muito. Logo tive de me dedicar a seguir os pontos básicos do programa educativo proposto por minha cônjuge. E avanço a olhos vistos.

Nos últimos dias, tenho monitorado cientificamente o incrível processo de reprodução do lixo, o qual cresce na cozinha sem que nenhuma força da natureza seja capaz de contê-lo. E acompanhado com interesse de neófito como, certamente através da geração espontânea, copos e pratos aparecem nos lugares mais recônditos da casa, tão logo acabo de lavá-los.

No ramo da Biologia, tem me chamado a atenção ainda a preferência das baratas pelo coito no interior de gavetas e sobre talheres. E, no da Física Aplicada, como as partículas de poeira se espalham de maneira uniforme numa superfície plana na ausência de vassoura.

Enfim, os conhecimentos que venho adquirindo são tantos e tenho expandido a tal ponto minha capacidade de observação, que só tenho a agradecer à minha amada. Então, gostaria de aproveitar a oportunidade para dizer a ela, com os olhos cheios de lágrimas:

— Volta logo, bem!

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