24 julho, 2007

EM DEFESA DO LÉPIDO PRESIDENTE LULA


Leio nos jornais — sim, companheiros, voltei a lê-los, pois resolvi abraçar a filosofia educacional de Paulo Freire, para quem é preciso “aprender a desaprender”, e achei por bem começar desaprendendo gramática, ortografia e raciocínio lógico — leio nos jornais, dizia eu, que o presidente Lula resolveu desafogar o tráfego de Congonhas, transferindo vôos para outros aeroportos.

Não via no Brasil atitude tão enérgica desde que FHC fez sua maior obra. Não me refiro ao Plano Real, claro, nem, como poderiam pensar os mais malevos, estou utilizando a palavra “obra” em sentido escatológico. Muito menos aludo à imensurável contribuição do ex-presidente para o progresso das artes e das ciências — particularmente do solipsismo, do sofismo e da tautologia —, mas ao grande impulso que deu à nação quando nos informou, durante sua administração, que não éramos mais um país “subdesenvolvido” e sim “em desenvolvi mento”. Lance magistral com que, permutando quatro letras do alfabeto, tirou em segundos milhões de pessoas da linha de pobreza. E muitas outras ainda teriam saído da miséria se houvessem lido jornal por aqueles dias. Por aí temos uma idéia de como é perverso o analfabetismo.

Imitando aquele grande e ousado sábio, e usando de toda a sua capacidade de ação, o presidente Lula, tão-logo começaram os problemas nos aeroportos, marcou uma reunião em que se discutiria a instalação de um grupo de estudos destinado a indicar pessoas que fariam a seleção dos debatedores que participariam de uma mesa de discussão, visando promover um encontro entre técnicos e ministros para a elaboração de uma agenda com definição precisa de data e hora em que haveria uma congregação para propor possíveis palavras que poderiam ser usadas para substituir “caos aéreo” por expressão mais amena e, uma vez resolvido esse problema semântico que assola o país de norte a sul, finalmente iniciar o levantamento de propostas para solucionar a confusão nos aeroportos em dia a ser futuramente determinado.

Apesar da grita dos mais apressadinhos, fato é que o organograma estava sendo seguido à risca e tudo estaria superado a contento bem antes de 2045, se brasileiros insubordinados e sem a mínima consideração por prazos não houvessem precipitado as coisas ao morrer egoisticamente num desastre de avião — de resto, dispensável.

Ainda assim, eficaz como os persas diante de Alexandre e célere como uma flecha — no caso, a flecha de Zenão de Eléia —, nosso intrépido presidente levou apenas uma semana e não mais que 200 cadáveres para anunciar as medidas que debelarão de vez o apagão aéreo, atuando antes que outros mortos exibicionistas se aproveitassem da situação para passar a falsa idéia de que o governo perdeu o controle sobre uma atividade que é monopólio do Estado: o assassinato em massa.

Por fim, num gesto final, o presidente afirmou em seu programa de rádio que não há possibilidade de a verdade sobre o acidente com o avião da TAM não aparecer. Em não aparecendo, ele certamente tomará medidas drásticas, como cortar o ponto dela ou mesmo demiti-la, muito embora alguns queiram insinuar maldosamente que a dita não é funcionária deste governo.

Enfim, trocando em miúdos o meu sentimento e o de alguns brasileiros meus conhecidos, devo dizer que agora estou bem mais tranqüilo. Com essas medidas e declarações, tenho certeza de que o presidente mandou a insegurança, definitivamente, para o espaço.

20 comentários:

Jens disse...

Marconi:
Os sinais indicam que o presidente Lula não apenas mandou a segurança para o espaço como foi junto, levando com ele todo o governo.
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Por sua vez, a oposição comemora o triunfo da morte ("agora pegamos o pau de arara safado", memoram Reinaldos, Clóvis, Mainardis et caterva).
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A questão, como escreveu o LFV, são as companhias (não apenas as de aviação). De um lado a incompetência; de outro a canalhice; no meio os cidadãos, tendo como companheira a sorte (que não tem se revelado confiável).
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Hoje pela manhã um comunicador falando através de 100 kw - na rádio que se acredita a "voz do Rio Grande" - manifestou sua torcida para que aconteça um grande desastre rodoviário. Seria o tão almejado fim. É f...!
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Prefiro andar a pé.
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Um abraço.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Marconi, explica pra mim, que sou um burraldo: pra que tentar debelar crise, ou caos, ou apagão (ou sei lá que outro nome) aéreo, com celeridade, se quem recebe bolsa-esmola, digo, bolsa-escola - não! é bolsa-família! - nem viaja de avião?

Aliás, o próprio Ministro da Defesa disse que tráfego de aviões não tem nada a ver com ele! Logo, nada a ver com o presidente! E você ironizando a lentidão do pobre do mandatário... Isso tudo é mais um complô da mídia (aposto que tem dedo do Mainardi por trás disso, foi ele que sabotou o avião, vão descobrir quando abrirem a caixa preta).

Eu, que não tenho bolsa nenhuma nem dinheiro pra pagar passagem de avião, fico só olhando, abismado... Um abraço.

Ana Maria disse...

Maravilha de post: inteligente, lúcido, bem escrito. Como sempre, né?
Eu também fiquei super tranqüila depois do pronunciamento do nosso presidente. Mas o que me deixou orgulhosa da condição de brasileira foi ter lido sobre a condecoração dos diretores da Anac.

F. Reoli disse...

Marconi gosto mesmo de te ler meu velho!!!
Abração

sandra camurça disse...

Eu, o Mestre Ariano Suassuna e milhões de brasileiros não estamos preocupados com isso: não viajamos de avião. Neguinho só quer garantia que as aeronaves não caiam em cima da sua comunidade. Porque assim é f... Não basta a violência da polícia, mano?

Beijos.

Serbão disse...

MarkLeal, vc lembrou bem: a flecha de Zenão de Eléia...
abçs, enviados por sedex via ônibus!!!

Marconi Leal disse...

Caro companheiro Jens:

O desastre rodoviário já aconteceu. Ou não tens andado por estradas ultimamente? Quanto à oposição, já mostrou toda a sua capacidade de gerenciamento no excelente planejamento energético dos anos FHC.

Marconi Leal disse...

Companheiro Halem:

Meu nível, ou melhor, desnível social também não permite esses luxos. O máximo que posso almejar é ser atropelado por um avião. O que mais cedo ou mais tarde acontecerá, posto que moro pertinho do aeroporto.

Marconi Leal disse...

Ana:

Injustiça sua. Os diretores da Anac bem que mereciam a Ordem do Mérito Militar. Matar 200 pessoas sem usar ao menos uma bomba é sinal de extrema perícia.

Marconi Leal disse...

Reoli:

Obrigado. Mas consulte o seu psicólogo. Já há remédio para esse tipo de doença.

Marconi Leal disse...

Dona Moça:

Eu tava morrendo de medo de que um avião caísse sobre a minha cabeça, pois moro a poucos metros de Congonhas. Mas agora estou mais aliviado, pois segundo entendi quem não viaja de avião não corre o risco de que ele exploda sobre sua casa ou cabeça, desde que não more em uma comunidade. Que bom!

Marconi Leal disse...

Serba:

Ônibus, vindo do Rio, é mais seguro. Às vezes um ou outro pega fogo, claro. Mas pelo menos não explode.

Kovacs disse...

Muito bom! Por um momento me senti lendo uma crônica do João Ubaldo.

Marconi Leal disse...

Kovacs:

Por que esculhambar o pobre João Ubaldo?

Marcelo F. Carvalho disse...

Marconi, que belíssima crônica! "Tenho certeza de que o presidente já mandou a insegurança, definitivamente, para o espaço." Cara, fantástico. Mas quer saber, se esse cheiro continuar e demorar muito a sair do rabo dos que mandam, rapidinho vão descobrir que o piloto estava bêbado e eles podem provar porque o sujeito escondeu a garrafa dentro da caixa preta.
_________________-
Abraço forte!

Marconi Leal disse...

Marcelo:

A única coisa que impede esse desfecho, a meu ver, é que a PF tá na jogada. E, como se sabe, a PF é a única instituição confiável do Brasil. Além do jogo de bicho, é claro.

Anita disse...

que trágico esse acidente!

Pirata Z disse...

Camarada Marconi, te saúdo.
Este teu texto publiquei como editorial do sítio do Fausto Wolff.
Clap, clap, clap! - como de hábito, aliás.
Baita abraço meu.

Manoel Carlos disse...

Há um (UM!!!) ponto em que os prtidários de Lula e FHC têm razão: quando acusam uns aos outros.
Lula: — toda vez que viajo de avião, entrego a alma a Deus.
Deus teima em não aceitar, mas o Diabo...

Yvonne disse...

Marconi, só agora que estou comentando porque fiquei uns dias fora da blogosfera.
Querido, não tenho andado muito bem da cabeça. Sei que você gosta muito do Lula, então fiquei sem saber se o seu post meteu o sarrafo ou elogiou.
Beijocas