06 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (5)


As pontadas logo se transformaram numa convulsão interna. Diante das explosões gasosas que me acometiam, dei sorte de não haver, no restaurante, um inspetor de armas químicas da ONU.

A atitude mais acertada, sem dúvida, seria me dirigir ao banheiro do nobre estabelecimento. No entanto, como não tenho o costume de trazer botes infláveis comigo quando vou comer fora e não possuo ascendência divina para conseguir andar sobre o xixi, seria um tanto ou quanto difícil fazer o percurso até a privada.

Sendo assim, algo tenso, disse a minha mulher que precisava ir para casa o mais rápido possível, que ela pagasse a conta, pois eu ia na frente e que, por favor, me ajudasse a me levantar da cadeira, uma vez que todas as minhas energias estavam concentradas em partes recônditas de minha anatomia e qualquer esforço de minha parte teria as mesmas conseqüências do esforço concentrado no Congresso.

Ela me fitou com os olhos brilhando de puro gozo e me fez ver que, no que dependesse dela, dentro em breve eu ficaria mais sujo que a consciência de um repórter de Veja. Suspirei resignado e arrependido por nunca ter levado a ioga ou os livros do Paulo Coelho a sério. Afinal, a única possibilidade de me deslocar dali, naquele momento, seria através da levitação.

Mas, enquanto brasileiro, não desisto nunca. Então, colocando as mãos sobre a mesa, respirei fundo e, experimentado em artes marciais, imitei o célebre movimento do caranguejo com artrite reumatóide. Impulsionei o corpo para cima e consegui levantá-lo — apenas o corpo, pois a julgar pela palidez do meu rosto, a alma ficou no mesmo lugar.

Então, medi a distância que me separava da porta de saída, pedi a proteção de São Breguelim do Esfíncter Vedado e, admirador da marcha olímpica, disparei na direção da rua, com as pernas unidas e o andar garboso de um ornitorrinco manco.

Ao atingir a calçada, percebi que continuava chovendo. Mas, o que é uma chuvinha cataclísmica de nada diante de um homem ciente de seus objetivos? Saltitando ora num pé, ora no outro, disparei, belaz, e julgo ter entendido a partir de então o motivo por que o Ayrton Senna corria tão bem em dias de chuva.

Quando cheguei diante do meu prédio, já estava pulando com os dois pés juntos, segurando a barriga sem nenhum escrúpulo e tinha uma tal cara de mártir que o porteiro pediu a benção ao me ver.

Subi no elevador absolutamente nas últimas. Arrastei-me até a porta de casa, concentrado. E, finalmente, quando procurei a chave para abri-la, percebi que minha mulher havia ficado com ela.

Que tremores, que terrores, por quantas crises não passei, mais enrodilhado sobre mim mesmo que uma jibóia em torno da presa, enquanto esperava a infeliz, que voltava toda serelepe do restaurante!
Quando, afinal, chegou, abriu a porta e eu, me segurando pelas paredes, avancei para o banheiro.

Aqui presto uma homenagem ao gênio que construiu nosso quarto de banho. Eis que, em vez de colocar a privada no mesmo nível do boxe, ele resolveu inovar, erguendo um pequeno batente e pondo o trono ali em cima.

Agora os senhores imaginem que eu não tinha a mínima possibilidade de respirar, quanto mais de subir um degrau. Então, perturbadíssimo, tive uma idéia brilhante. Resolvi que me viraria e saltaria de costas, baixando as calças no ar e caindo sentado no vaso, num único movimento, rápido e definito.

Sem muito tempo para pensar, foi o que tentei. Pus-me em posição, fiz as medições necessárias, soltei ar pela boca, rezei uma ave-maria e, em seguida, com os olhos fechados, trêmulo, suado, mas esperançoso, dei o salto fatal. E...
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Estou até hoje limpando restos da matéria escura que se espalhou pelo assoalho. Pois errei o alvo, companheiros.

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