05 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (4)


Os garçons traziam os espetos e eu ia provando as iguarias, uma a uma. Tudo bem, a variedade de carnes não era grande. Havia apenas três tipos: as tostadas, as muito tostadas e as mais tostadas ainda.

Em compensação, eram servidas de maneira absolutamente equânime: primeiro, lingüiça, lingüiça e lingüiça; em seguida, cupim, lingüiça, fraldinha, lingüiça e lingüiça; por fim, lingüiça, cupim, lingüiça, coração, lingüiça, lingüiça, lingüiça e lingüiça.

Além disso, a qualidade da cozinha era tal que nos remetia a nomes internacionais. Tome-se o coração como exemplo: estava tão tenro quanto o de George Bush. E o cupim, honestíssimo — não se poderia jamais dizer que não era autêntico, pois tinha o próprio gosto do inseto.

A fraldinha também fazia jus ao nome: sobretudo se a gente pensar no conteúdo daquelas usadas por bebês. A picanha, por sua vez, devia estar ótima. Pena que eles não serviram. E a lingüiça... bem, da lingüiça não posso falar muito, pois parei de sentir seu sabor após a vigésima quinta.

Aliás, diga-se de passagem, o frango assado tampouco ficava atrás em termos de padrões internacionais. Comi uma coxa cuja quantidade de óleo estava perfeitamente dentro das especificações para um barril, segundo a Opep.

Mas o melhor é que o serviço era rápido. Não tinha que esperar mais de uma hora para vir uma nova peça de carne. Tempo calculado com precisão, pois era mais ou menos o mesmo que gastava para mastigar e engolir cada bocado.

E gostaria de salientar, ainda, que eles são tão previdentes naquele restaurante e têm tal compromisso com o social que o alimento, ali, não serve apenas para fins superficiais e pequeno-burgueses, como matar a fome. O cupim, por exemplo, reunido em número suficiente, daria um belíssimo alicerce para uma moradia popular.

Feliz com a rica alimentação, no intervalo entre uma câimbra no maxilar e outra, voltei-me para minha mulher e, sorrindo, perguntei:

— Seu bife está bom?
— Muito. Pena que não tenho uma cimitarra para cortá-lo.
— E o arroz?
— Admirável. Sobretudo pelo sentido de grupo.
— O feijão, pelo menos, está com uma cara ótima...
— Excelente. Mas o médico me proibiu tomar gelado.
— Está faltando alguma coisa?
— Soda.
— Uma Sprite?
— Não. Cáustica. Para amolecer a batata.

Diante dessa atitude pouco cooperativa da minha cônjuge, própria de quem não sabe apreciar a boa mesa, concentrei-me nos talheres e, homem preocupado com o problema da má nutrição no mundo, aproveitei para comer por várias gerações de sudaneses.

Entreguei-me com tanto afã ao exercício das mandíbulas que, ao final de três horas, estava me sentindo mais pesado que atacante do Brasil na Copa de 2006. Suspirava e me lamentava, suando, com falta de ar e um terrível calor. Fiquei mole, zonzo, relativamente verde e, principalmente, muito impressionado com o fato de que, no meu caso, a menopausa tinha vindo antes da primeira menstruação.

Vendo que eu estava à beira da morte e que meu organismo passava por conturbações poucas vezes observadas no Ocidente desde a deposição de Luis XVI, minha mulher deu seu primeiro sorriso no dia.

Então senti uma suspicaz pontada na barriga e, logo depois, angustiado, percebi que me faltava alguma coisa. No caso, um banheiro.

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