04 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (3)


O restaurante oferecia três opções: rodízio, “à la carte” e levantar-se e se dirigir a outro estabelecimento onde a data de validade dos alimentos não precisasse ser averiguada por testes com carbono-14.

Eu optei pelo rodízio. O que, confesso, não foi uma escolha das mais acertadas. Afinal, o nome era uma clara alusão ao movimento rotatório dos rolos de papel higiênico que mais tarde eu usaria.

Já a minha mulher estava indecisa: não sabia se pedia o divórcio ali mesmo ou esperava até chegarmos em casa. Procurei acalmá-la, fazendo-lhe carinhos no cabelo e tentando demonstrar, através de argumentos razoáveis, que chutar minha canela por baixo da mesa não era a melhor solução para aplacar sua raiva.

E é por isso que eu sempre digo: amar é ceder. Assim que falei isso para ela, tive que ceder nos meus carinhos, pois ela tentou morder meus dedos. Nisso, o garçom chegou. E, pela sua cara animada, chegava de uma reunião de condomínio.

— A senhora já escolheu? — perguntou, bocejando
— Infelizmente, há mais de um ano — disse ela, me apontando com o queixo.
— Ha! ha! Não ligue, moço, ela é assim mesmo, jocosa... cheia de chistes.
— Massa, vocês não têm, né?
— Não, senhora.
— Percebi pelos buracos nas paredes.
— Hi! hi! É uma pândega!
— E bife a cavalo?
— A cavalo, não, mas temos bife.
— Ótimo, porque o cavalo eu já trouxe de casa.
— Ho! ho! Comediante nata!
— E para acompanhar?
— Arroz, batata e pratos limpos, por favor.
— Para beber?
— Tem cicuta?
— Nã... Não, senhora.
— Ah, então me vê uma Dolly Light natural, que dá no mesmo.

O garçom se retirou e eu saí de debaixo da mesa. Ela me olhou em silêncio, balançando vagarosamente a cabeça, com os olhos apertados. Um gesto a que já estou habituado e que, se fosse expresso em palavras, faria a Dercy Gonçalves corar, pois conteria mais imoralidades que um
acordo entre parlamentares.

Assobiei, tamborilei na mesa e, para baixar a tensão, falei de coisas amenas e triviais, como clima, futebol, novela e a questão da transcendência imanente em Nietzsche. Então começaram a servir o rodízio.

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